Política

O novo velho continente e suas contradições: O novo cio da cadela

Nem o nazismo ou o seu irmão siamês, o fascismo, desapareceram da Europa. Eles estão presentes em passeatas, manifestações, atentados, nos crimes de ódio e nos partidos de extrema direita que evitam ser chamados por seus verdadeiros nomes. E continuam mobilizados nos movimentos neonazistas e neofascistas, espalhados por todos os países do continente. ''A cadela do fascismo está sempre no cio'', escreveu Bertolt Brecht.

12/04/2021 09:46

(Sergei Chuzavkov/AP Photo)

Créditos da foto: (Sergei Chuzavkov/AP Photo)

 
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O nazismo foi derrotado na Europa em 1945, na data que correspondeu ao fim da Segunda Guerra Mundial. As democracias do Ocidente comemoraram juntas com a União Soviética a vitória e o fim de um tempo sombrio de ódio, intolerância, genocídio e horror. Mas nem o nazismo ou o seu irmão siamês, o fascismo, desapareceram da Europa. Eles estão presentes em passeatas, manifestações, atentados, nos crimes de ódio e nos partidos de extrema direita que evitam ser chamados por seus verdadeiros nomes. E continuam mobilizados nos movimentos neonazistas e neofascistas, espalhados por todos os países do continente. “A cadela do fascismo está sempre no cio”, escreveu Bertolt Brecht.

Refiro-me aos movimentos de caráter genuinamente nazista ou fascista e não aos partidos de extrema direita de ação parlamentar, embora muitas vezes as diferenças sejam bastante sutis tanto no campo da prática e da militância quanto no das ideias e das formas de mobilização. Neonazistas e neofascistas pretendem o renascimento das ideologias que marcaram com violência e ódio o Século 20 e que levantam-se das sombras na perplexidade dos tempos de agora em que vivemos.

A consciência democrática não consegue esquecer que o pequeno ajuntamento político inicial a que aderiu Adolf Hitler transformou-se num poderoso movimento que empolgou barbaramente um país culto e civilizado. E o levou à ruína. Tal como acontece hoje no Brasil, chegou ao poder através de eleições democráticas arregimentando uma multidão de seguidores formada por uma desiludida ralé social e uma baixa classe média que condenava a política e se revoltava contra o que considerava a corrupção dos partidos. Contou também com o apoio de empresários poderosos e deslumbrados com o anticomunismo praticado pelos nazistas. Num país frustrado pela derrota na Primeira Guerra Mundial.

A retomada da violência

O nazismo contemporâneo, o neonazismo, começou a aparecer nos anos 1970 através da expressão do racismo de grupos violentos. A violência tem sido a linguagem preferida por essa récua ideológica em todas as partes do mundo. Especialmente na Europa, palco preferencial das grandes tragédias na passagem dos tempos, onde a violência é dirigida contra as instituições e também em ataques a imigrantes, ciganos, judeus e outras minorias. São grupos formados por jovens da baixa classe média e das classes marginalizadas que Marx chamou lumpenproletariat e definia como desprovidas de consciência política e de classe, sendo por isso suscetíveis de servir aos interesses da burguesia. Normalmente arregimentados pelas redes sociais da internet, têm crescido estimulados pela crise econômica. Eles não acreditam que tenha havido o holocausto praticado contra os judeus e procuram minimizar o impacto dos horrores nazistas. Os alvos principais da sua violência, além das etnias minoritárias, são os gays, transexuais, estrangeiros e comunistas.

Os nazistas sobreviveram e têm-se expandido na Alemanha. Acreditam nos ideais hitleristas, a partir da superioridade da raça ariana. Embora as ações políticas de caráter nazista sejam proibidas pelas leis alemãs, o Partido Nacional-Democrático da Alemanha (NPD) (Nationaldemokratische Partei Deutschlands) , fundado em Hanover em 1964, é um partido de inspirações nazistas, conservador, nacionalista e radical. É reconhecido como sucessor do Partido Nazista de Adolf Hitler. Teve 1% dos votos, tem apresentado crescimento e possui um assento no Parlamento Europeu.



Walter Lübcke, presidente do distrito alemão de Kassel, do mesmo partido de Angela Merckel, o CDU-União Democrata-Cristã (Christlich-Demokratische Union Deutschlands), defensor dos direitos dos imigrantes e refugiados, foi executado em casa por dois jovens neonazistas com um tiro na cabeça. O crime chocou o país porque trouxe à lembrança os assassinatos políticos dos tempos hitleristas.

Mas não foi o único caso. Nove pessoas foram chacinadas por um extremista em Hanau, cidade nas proximidades de Frankfurt. Mais de 15 mil delitos com motivação política, dos quais perto de 600 com violência, foram contabilizados no ano passado. Em 2016, foram quase mil ataques a centros de refugiados no país.

Mein Kampf, ou Minha Luta, o maçante livro que Hitler escreveu enquanto na prisão após o fracassado putsch de Munique de 1923, foi proibido na Alemanha por muitos anos mas virou best-seller quando foi finalmente publicado ao cair em domínio público. Até hoje é surpreendente como nesse livro estão previstos todos os crimes que o nazismo viria a cometer depois.

Os partidos

Na Inglaterra foi fundado em 1967 o Frente Nacional (National Front). Xenófobo e racista, conseguiu 192 mil votos nas eleições, o que não lhe garantiu nenhuma cadeira no parlamento. Seu manifesto condena a homossexualidade e o aborto e defende o repatriamento de todos os imigrantes “de cor” e seus descendentes.

(Adam Maida para The Intercept/Police Scotland/Getty Images)

A França, como se não bastasse ter sido brindada pela extrema direita do Rassemblement National, de Marine LePen, que está a chegar perto do poder, conta com os genuinamente nazi-fascistas Fasces Nacionais Europeus, Honneur de la Police, Delta, Pieper e Odessa, responsáveis por dezenas de atentados terroristas. Grupos organizados de baderneiros neonazistas como Troisième Voie (Terceira Via) e White Wolves Klan são responsáveis por ataques violentos a imigrantes, ciganos, gays, comunistas e judeus. Há pouco foram pintadas suásticas nas lápides de um cemitério israelita., um tipo de agressão recorrente no país.

Na Grécia o neonazista Aurora Dourada (Hrisi Avgi) conseguiu eleger 18 deputados entre os 300 do parlamento nacional e foi classificado como organização criminosa, acusado de assassinar militantes antifascistas e comunistas, além de recorrer ao crime para se autofinanciar. Defende a expulsão de todos os imigrantes e o fechamento das fronteiras com uso de minas terrestres. Movimentos antifas – antifascistas – denunciaram a existência de inúmeros membros do Aurora Dourada que também são agentes da polícia grega.

A Itália conta com os neonazifascistas Movimento Politico Ordine Nuovo e CasaPound. A denominação deste último homenageia o poeta estadunidense Ezra Pound, que aderiu ao fascismo de Mussolini, fez emissões antiamericanas durante a guerra, foi internado em um hospício e obrigado ao silêncio até a sua morte em 1972.

Grupos organizados neonazistas, xenófobos e racistas estão presentes também na Áustria, Finlândia, Dinamarca, Hungria, Letônia e Ucrânia. Julian Junk, do Instituto de Pesquisa da Paz em Frankfurt (HSFK), afirma que são várias as razões para o forte avanço dos movimentos neonazistas, mas entre as principais estão as plataformas e o mundo digital. As ideias espalham-se rapidamente e detalham os atos de violência, divulgando didaticamente seu modo de execução.

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