Política

O novo velho continente e suas contradições: O ressurgimento e a força das esquerdas na Europa

 

18/01/2021 10:25

(Reprodução/Dailymotion/bit.ly/3qwnrBL)

Créditos da foto: (Reprodução/Dailymotion/bit.ly/3qwnrBL)

 
:: Leia mais: Especial 'O novo velho continente e suas contradições' ::

Além de representantes da esquerda histórica e dos velhos partidos comunistas que preferiram trocar a própria designação, assumindo nova identidade por precaução contra o estigma que lhe foi atribuído, existem hoje atuando na Europa partidos que se denominam comunistas em praticamente todos os países que formam a União Europeia, com crescente influência no processo político.

É uma pletora de siglas e novas denominações de luta política capazes de confundir. As esquerdas se dividem, discutem entre si. No confronto com a extrema direita, o neoliberalismo e a direita clássica procuram demonstrar que, como diz o Fórum Social Mundial, um outro mundo é possível.

***

As publicações dedicadas ao proselitismo das ideologias da direita política repetem suas afirmações sobre o fim dos ideais socialistas de esquerda. Apregoam o que dizem ser o ocaso dos partidos políticos que, legalizados ou na clandestinidade, lutaram e lutam por aqueles ideais de humanidade e de organização social. Inspirada na deblaque da União Soviética em fins dos anos 1980, a Direita internacional pretende o aproveitamento do que interpreta como êxito da sua pregação conservadora. Procura disfarçar a realidade e ignorar o vigor das correntes de esquerda hoje atuantes no mundo, em especial a sua resistência e o seu crescimento na Europa.



Além de representantes da esquerda histórica e dos velhos partidos comunistas que preferiram trocar a própria designação, assumindo nova identidade por precaução contra o estigma que lhe foi atribuído, existem hoje atuando na Europa partidos que se denominam comunistas em praticamente todos os países que formam a União Europeia, com crescente influência no processo político. Outras identidades de esquerda estão também presentes em todo o continente, com diferentes matizes ideológicos, confirmando a tradicional diversidade das esquerdas, que representa sua força mas também sua eventual fragilidade quando elas estão divididas. A experiência tem demonstrado que são fortes e muitas vezes imbatíveis quando unidas em estratégias eleitorais. Algo em que a esquerda brasileira também precisa começar a acreditar.

Comunistas e socialistas democráticos

O Partido da Esquerda Europeia (https://www.european-left.org/) congrega 27 partidos anticapitalistas de esquerda e tem uma expressiva força no Parlamento Europeu. Representa os movimentos de esquerda de 27 países que hoje constituem a União Europeia, descontado o Reino Unido depois do Brexit.

O PEE é aliado à Esquerda Nórdica Verde e juntos formam a Esquerda Unitária Europeia, uma confederação de partidos comunistas e socialistas democráticos.

Jeremy Corbyn, do Partido Trabalhista inglês e que se auto denomina um socialista democrático, representa uma oposição de esquerda que se fortalece a cada eleição. O Partido Comunista da Grã-Bretanha (Communist Party of Great Britain, CPGB), fundado em 1920 e que se autodissolveu em 1991, tenta se reorganizar num país de tradições fortemente conservadoras. O outro partido comunista na política inglesa, mais forte do que o CPGB, é o Partido Comunista Britânico (Communist Party of Britain), que possui como jornal não oficial o Morning Star e como secretario geral o galês Robert Griffiths. No Partido Trabalhista existe também um braço marxista que se denomina Labour Party Marxists. Seu programa declara que o principal objetivo é transformar o Partido Trabalhista inglês num instrumento da classe trabalhadora e do socialismo internacional.



O Partido Comunista de Portugal é o mais antigo da Europa. Tem dois deputados no Parlamento Europeu e outros dez na Assembleia da República. Está aliado ao Partido Socialista no governo do país. Junto com o Partido Ecologista “Os Verdes” forma a CDU-Coligação Democrática Unitária. Portugal conta também com o combativo Bloco de Esquerda, fundado em 1999 por três forças políticas representadas pela União Democrática Popular (marxista), Partido Socialista Revolucionário (trotskista mandelista) Política XXI (dissidente do PCP) e diversos outros movimentos de esquerda. Possui dois deputados no Parlamento Europeu e dezenove na Assembleia da República.

Um complô da CIA

Considerado em sua época o maior partido comunista do ocidente, o PCI-Partido Comunista Italiano, foi fundado em 1943, num dos piores momentos da Segunda Guerra Mundial. Substituiu e foi sucessor do Partido Comunista da Itália, seção italiana da Terceira Internacional. Nas eleições de 1976 chegou a receber 35 por cento dos votos e negociou um pacto com a poderosa Democracia Cristã liderada por Aldo Moro. O PCI chegaria então ao poder mas foi antecipadamente derrotado por um complô da CIA que teria infiltrado agentes no grupo revolucionário armado Brigadas Vermelhas, sequestrou e matou Moro, inviabilizando o acordo diante do trauma nacional que o crime provocou.

Com a crise dos partidos comunistas europeus depois da queda do muro de Berlim, o PCI foi dissolvido para dar lugar ao Partido Democrático de Esquerda-Partito Democratico della Sinistra-PDS, que depois adotou o nome de Democratas de Esquerda-Democratici di Sinistra-DS. Adotou pressupostos do programa da Democracia Cristã depois de realizar a fusão com outros partidos de centro esquerda e passar a chamar-se Partido Democrático-PD. Abriga hoje diversas alas e diferentes tendências ideológicas.

A dissolução do PCI deu ainda origem a outros dois outros partidos que se autodenominam seus legítimos continuadores: o Partido da Refundação Comunista (PRC) e o Partido dos Comunistas Italianos (PdCI).

Os históricos

O KKE, Partido Comunista da Grécia, (do grego Kommounistikó Kómma Elládas), assim como o PCP em Portugal, é um partido de matriz ideológica marxista-leninista e está colocado, pela votação que tem recebido nas últimas eleições, em quarto lugar na cena política grega. É um partido de luta. Na Guerra Civil de 1946 a 1949 enfrentou o exército do regime da monarquia grega apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. O conflito teve como pano de fundo a Guerra Fria que durou até a segunda metade do Século 20. O fim da guerra civil, com a derrota comunista, foi desastroso ao culminar, menos de vinte anos depois, numa ditadura repressiva de direita que ficou conhecida como “a ditadura dos coronéis”. Durou até 1974. O KKE, que se manteve na clandestinidade durante os anos da ditadura, é uma das principais forças do Syriza (Coligação de Esquerda Radical), que atualmente governa o país.



Outro partido histórico, o Partido Comunista Francês, aliou-se ao Partido de Esquerda e outros movimentos sociais para fundar a Frente de Esquerda (em francês Front de Gauche), liderada por Jean-Luc Mélenchon. Conseguiu bons resultados nas eleições de 2009 mas em 2016 Mélenchon fundou o seu França Insubmissa (France Insoumise), pelo qual foi candidato à presidência da república. O PCF, junto com outros dois partidos, ‘Ensemble ‘e ‘République et Socialisme’, não aceitaram a dissolução da Front de Gauche e mantiveram a coligação.

O Partido Comunista Espanhol tem concorrido às eleições liderando uma aliança (Izquierda Unida), com a participação da Esquerda Republicana e da Esquerda Aberta. Participam ainda dessa aliança a União de Juventudes Comunistas de Espanha, o Coletivo de Unidade dos Trabalhadores-Bloco Andaluz de Esquerda, o Partido Operário Revolucionário e os Ecosocialistas de la Región de Murcia. Possui quatro deputados no Parlamento Europeu e faz parte do grupo Esquerda Unitária Europeia. Está presente no parlamento de diversas comunidades autônomas e na administração de vários municípios espanhóis. Dentro da coalisão La Izquierda Plural está presente no Senado e no Congresso dos Deputados.

É uma pletora de siglas e novas denominações de luta política capazes de confundir o leitor. As esquerdas se dividem, discutem entre si. Mas no confronto com a extrema direita, o neoliberalismo e a direita clássica procuram demonstrar que, como diz o Fórum Social Mundial, um outro mundo é possível.

Conteúdo Relacionado