Política

O novo velho continente e suas contradições: Os sociais-democratas e a miragem do centro

Eles têm sido sempre uma alternativa de poder porque sensibilizam o eleitor que busca o equilíbrio no panorama político de cada país. Mas na maioria das vezes sua prática é a de somar forças à direita e, dessa forma, contribuir para reforçar a ação reacionária do populismo de extrema direita

04/08/2020 14:00

 

 
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Eles surgiram como alternativa aos partidos de esquerda, principalmente para fazer frente ao movimento comunista que liderava a causa operária. A ponto de Stalin ter declarado que a social-democracia é a pata esquerda do fascismo. Desde que se organizaram em fins do século XIX nos países da Europa, os sociais-democratas têm sofrido altos e baixos e, nos últimos anos, experimentado derrotas expressivas enquanto fornecem eleitores para o populismo conservador.

Apresentam-se como uma força de centro ou de centro esquerda e procuram ser o fiel da balança do espectro político. Às vezes torna-se difícil identifica-los à primeira vista quando eles se denominam socialistas, principalmente. Têm sido sempre uma alternativa de poder por contar com o eleitor que busca o equilíbrio no panorama político de cada país. Mas na maioria das vezes sua prática é a de somar forças à direita e, dessa forma, contribuir para reforçar a ação reacionária da extrema direita.

É neles, quer se situem no centro, centro-esquerda ou centro-direita, que se abriga a maioria silenciosa de que falou Nixon sobre o eleitorado estadunidense. Fiéis às suas origens históricas, têm representado uma comporta de contenção aos movimentos de esquerda e apresentam a tendência de apoiar prioritariamente candidatos conservadores.

França e Alemanha

Na França, abrigam-se na sigla do Partido Socialista que, sob a liderança de François Miterrand, conheceu nos anos 1980/1990 os seus melhores momentos. Em 2012 teve nova vitória com François Hollande mas, a partir daí, começou sua decadência em direção ao ocaso. Em 2017 Hollande desistiu de concorrer a um segundo mandato. O socialista Benoît Hamond teve pouco mais de 6 por cento dos votos e ficou em quinto lugar entre os candidatos numas eleições que conheceram o crescimento da extrema direita comandada por Marine Le Pen. Atualmente está ocupando um exíguo espaço entre o A República em Marcha, do presidente Emmanuel Macron e a extrema direita representada pelo Reunião Nacional de Le Pen.



O PS francês tem tradição de alinhamento à esquerda. Seu congênere alemão SPD-Partido Social-Democrata da Alemanha tem uma história pendular. É um dos partidos mais antigos do país, sofreu dura perseguição do nazismo e foi obrigado a fazer uma fusão com o partido comunista durante o controle soviético. Historicamente o seu maior rival é o CDU, os democratas-cristãos de Angela Merkel. Embora seja parte da coalizão que governa a Alemanha, o SPD está em crise desde o seu fracasso nas eleições para o Parlamento Europeu. Sua líder, Andrea Nahles, renunciou no ano passado à presidência e à liderança da bancada no parlamento federal, instalando uma crise no partido que ainda não foi inteiramente resolvida.

Em fevereiro passado, o SPD venceu as eleições na cidade-estado de Hamburgo, confirmando as previsões e as pesquisas de tendência de voto. Conseguiu atingir 35 por cento da preferência eleitoral, ainda longe dos 45% por cento que obteve em 2015.

Suécia e Áustria

Na Suécia eles são bem sucedidos nas eleições desde os primeiros anos do Século 20. Depois da Segunda Guerra Mundial criaram no país um sistema de bem estar social tido como modelo, o que lhes tem garantido grande força junto aos eleitores. A partir dos anos 1990, este sistema passou a sofrer cortes sob alegação de que ficara caro demais. Os sociais-democratas começaram a perder votos para os populistas de direita que fazem oposição à política migratória liberal do país. No país de Greta Thunberg, os verdes também têm perdido apoio para a extrema direita do SD-Democratas Suecos.

O Partido Social-Democrata da Áustria (SPÖ) conheceu grandes sucessos eleitorais até os anos 1990 mas hoje se vê acossado pelos populistas de direita do Partido da Liberdade (FPÖ). Sua história política é marcada pelas coalizões com as forças conservadoras, embora nem sempre em maioria. Esse comportamento faz os sociais democratas austríacos perguntarem-se sobre a força da sua imagem, se ela não estaria diluída diante do eleitorado por causa de tantas coalizões que podem levar o eleitor a pensar no SPÖ como um simples partido caudatário de outros atores políticos.



Reino Unido, Espanha e Portugal

No Reino Unido o tradicional Partido Trabalhista foi renovado nos anos 1990 por Tony Blair mas sua participação na invasão do Iraque sob a falsa alegação da existência de armas de destruição em massa provocou forte perda de prestígio. Já há muitos anos na oposição, os trabalhistas são hoje liderados por Jeremy Corbyn, que defende maior presença do estado, mais impostos para os ricos e a saída do Reino Unido da OTAN. O partido tem experimentado forte crescimento no eleitorado mais jovem. As eleições de 2017 foram vencidas pelos conservadores, por pequena margem, criando a esperança de um novo governo trabalhista apesar da vitória de Boris Johnson em 2019 na esteira do Brexit.

Na Espanha o PSOE venceu as eleições com Pedro Sanchez, com posterior dificuldade para conseguir aprovação do parlamento, ao contrário dos socialistas de Portugal que venceram com alguma folga reelegendo Antônio Costa ao cargo de Primeiro Ministro. Mas não conseguiram a maioria absoluta que desejavam. Têm de procurar eventual apoio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista para aprovar medidas de governo.

Junto com os democratas-cristãos, os sociais-democratas formam o PPE-Partido Popular Europeu, com 265 membros e posições de centro-direita. É o maior bloco político que atua no Parlamento Europeu. Ocupam atualmente a presidência do Conselho Europeu e da Comissão Europeia. A plataforma política que define a ideologia do PPE ressalta valores conservadores como respeito à tradição, economia social de mercado e promoção da família. Mas defende também a liberdade como direito humano fundamental, melhoria da educação e da saúde e a integração dos imigrantes.



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