Política

O novo velho continente e suas contradições: Os vampiros na noite da pandemia

As ideias desse neofascismo que cresce na Europa não têm deixado imune nenhum grupo social. O racismo, em especial, além das outras ideias radicais contaminam a classe trabalhadora, os desempregados, a juventude e a pequena burguesia. A esquerda, de modo geral, subestimou o perigo e ainda não se mobilizou para uma reação antifascista, atribuindo o seu crescimento à crise do capitalismo e ao desemprego

12/07/2021 09:53

Manifestação de extrema-direita em Varsóvia, Polônia (Wojtek Radwanski/AFP)

Créditos da foto: Manifestação de extrema-direita em Varsóvia, Polônia (Wojtek Radwanski/AFP)

 
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Na longa noite da pandemia, que já vai além das expectativas e continua a ser uma ameaça para o mundo, a extrema direita da Europa, como vampiros de hábitos noturnos, prepara-se para exaurir o sangue da democracia nos países do velho continente.

O passo mais recente foi dado na semana passada com a declaração conjunta de 15 partidos de 14 países contrária à união da Europa e defendendo, em contraposição, o fortalecimento de cada um dos 27 estados que hoje fazem parte da União Europeia, incluindo a zona do euro. Reivindicam Estados-membros fortes e soberanos em lugar do que dizem ser uma Europa federalista. Protestam contra o que veem como um sistema judiciário integrado e um Estado-nação acima de todos os outros. Foi dado, assim, um passo consciente para a implosão da União Europeia. Entre os que assinaram o manifesto estão o partido polaco Direito e Justica, Jaroslaw Kaczynski, o Fidesz, do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, o francês União Nacional, de Marine le Pen, o espanhol Vox, liderado por Santiago Abascal, a Liga, de Matteo Salvini, e a formação neofascista Fratelli d'Italia, representada por sua líder Georgia Meloni, entre outros. Eles defendem o que chamam uma “reforma profunda” da União Europeia.

Matteo Salvini e Marine Le Pen (Alessandro Di Meo/EPA)

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), inexplicavelmente, ficou de fora. Talvez sob influência do recente revés que sofreu nas eleições regionais comprometendo os seus planos para o pleito de setembro, que vai escolher quem substituirá Angela Merkel.

A Reunião Nacional de Le Pen também fracassou nas regionais francesas em todos os departamentos numas eleições que são vistas como um ensaio geral para as presidenciais do ano que vem.

Giorgia Meloni e Viktor Orban (Reprodução/Globalist)

Dormindo com o inimigo

O bloco vai atuar no Parlamento Europeu e se anuncia no exato momento em que o líder de extrema direita e Primeiro-ministro da Eslovênia, Janez Jansa, assume por seis meses a presidência do Conselho da União Europeia, substituindo por rodízio o português Antonio Costa. Jansa é um confesso admirador de Donald Trump, imita o aliado húngaro Viktor Orbán em seus métodos autoritários e limitou recentemente os direitos dos seus cidadãos sob pretexto da luta contra a pandemia.

O professor e cientista político da Universidade de Liubliana Gorazd Kovacic diz que Janez Jansa sempre foi um extremista mas radicalizou-se ainda mais nos últimos anos. Os eslovenos, no entanto, não se surpreenderam. Durante muito tempo Jansa foi visto pela Europa como mais um líder de direita mas na Eslovênia, segundo o professor Kovacic, as pessoas sempre souberam quem ele era e não tinham dúvidas sobre ele e sobre o seu partido, uma formação autoritária de extrema direita.

Diplomatas e altos funcionários da União Europeia que servem na sede em Bruxelas preveem dificuldades durante a presidência de Janez Jansa, apelidado Marechal Twitto, um trocadilho com o nome do Marechal Tito, líder poderoso e inconteste da antiga Iugoslávia, da qual a Eslovênia fazia parte. O apelido alude também ao uso incansável do Twitter para mandar mensagens a aliados e insultar adversários.

Os diplomatas que trabalham na sede da UE manifestam preocupação quanto ao uso que Jansa possa fazer da presidência. Há pouco circulou um paper sem assinatura defendendo a dissolução da Bosnia-Herzegovina e a partilha do seu território entre a Sérvia e a Croácia. Atribui-se essa ideia, que circulou em anonimato, causadora de um certo mal estar em Bruxelas, a Janez Jansa.

Inimigo da imprensa do seu país, o líder esloveno tem ignorado as advertências da Comissão Europeia que, no seu relatório sobre o estado de Direito, pediu para seu governo respeitar “a pluralidade dos meios de comunicação”.

Janez Jansa (Johanna Geron/POOL/EPA)

Há uma espécie de gabinete de ódio no governo de Janez Jansa. Segundo Laurens Hueting, do European Centre for Press and Media Freedom (ECPMF), "publicam artigos de opinião racistas e homofóbicos e dedicam-se à difamação e ataques pessoais a jornalistas destacados e políticos da oposição eslovena”.

Em Estrasburgo, na sua posse para a presidência temporária do Conselho da UE e para surpresa da plateia que assistia ao seu discurso, Janez Jansa afirmou que seu país é um campeão da liberdade de imprensa. “Na Europa as pessoas não percebem. Convido-vos a vir à Eslovênia para poderem ver por si próprios qual a situação e a atitude do Governo face à imprensa, em vez de fazerem julgamentos baseados no que dizem outras pessoas”, disse ele. O presidente do Parlamento Europeu, o italiano David Sassoli, que é jornalista, insistiu na necessidade de transparência por parte do Governo na resposta às dúvidas levantadas. “Há preocupação legítima quanto a pressões políticas e fake news”, afirmou Sassoli. Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez questão de afirmar que “a liberdade da mídia é o elemento central da democracia e do Estado de direito”.

Nos quatro países hoje declaradamente sob governos neofascistas – Hungria, Polônia, República Checa e Eslovênia – a imprensa está sob fogo cerrado e cada vez menos livre.

Vários jornais em todo o continente recusaram-se a publicar um anúncio pago pelo governo da Hungria com a visão extremista da direita para o futuro da Europa e o Times of Malta resumiu ao dizer que se tratava de " um instrumento de promoção de tudo o que vai contra a liberdade de imprensa". Referiu-se a Orban como um primeiro-ministro que "reprimiu jornalistas, a democracia, o espírito da lei e outros direitos humanos".

O excelente jornal Público, de Portugal, em editorial assinado por seu diretor Manuel Carvalho disse que se a União não tiver mão firme contra os ataques à liberdade de expressão em países como a Eslovênia, “será outra coisa qualquer, não a Europa que selou a paz no continente e mobilizou várias gerações de democratas e humanistas de diferentes matizes ideológicos nos últimos 70 anos”.

Como se vê, a Europa dorme com o inimigo.

Marine Le Pen, Tomio Okamura e Geert Wilders (Michael Cizek/AFP)

A ideologia do neofascismo

Os partidos que compõem essa nova força radical da direita não estão de acordo em todos os pontos mas todos rezam pela mesma cartilha neofascista. Seus fundamentos ideológicos são o nacionalismo ufanista, xenofobia, racismo, ódio aos imigrantes e aos ciganos (o povo mais antigo do continente), a islamofobia, o anticomunismo. Em muitos casos, o antissemitismo, a homofobia, a misoginia, o autoritarismo, o desprezo pela democracia, a eurofobia. Em relação a outras questões - sobre o neoliberalismo ou o laicismo, por exemplo – existem divergências entre eles.

As ideias desse neofascismo que cresce na Europa não têm deixado imune nenhum grupo social. O racismo, em especial, além das outras ideias radicais contaminam a classe trabalhadora, os desempregados, a juventude e a pequena burguesia. A esquerda, de modo geral, subestimou o perigo e ainda não se mobilizou para uma reação antifascista, atribuindo o seu crescimento à crise do capitalismo e ao desemprego.

Celso Japiassu
Celso.japiassu@gmail.com

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