Política

O novo velho continente e suas contradições: Protestos contra o racismo mobilizam a Europa

Desafiando as ordens contra aglomerações, houve grandes protestos nas ruas. Alguns pacificamente e em silêncio, outros enfrentando a violência policial. O povo da Europa saiu para gritar que é contra a intolerância do racismo e está também disposto a combater as injustiças de uma sociedade que precisa de mudanças grandes e urgentes

05/06/2020 17:55

 

 
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A asfixia até a morte de George Floyd por um policial branco em Minneapolis provocou manifestações não só nos Estados Unidos mas pelo mundo afora, especialmente na Europa, um continente onde o racismo tem crescido nos últimos anos como se fosse uma doença social. É um tema sensível e presente nos diversos países europeus porque a chegada de muitas levas de imigrantes e refugiados vindos da África e do Oriente trazem o assunto para as preocupações da classe média e, em consequência, dos governos. A direita política assumiu o racismo e a xenofobia como plataforma política.

A morte de George Floyd e a sua repercussão faz a Europa encarar mais uma vez os seus fantasmas. O racismo tem representado a má consciência de todo o continente porque está presente em todos os países, em menor ou maior grau.

Paris

O diretor da Agência Europeia para os Direitos Fundamentais (European Union Fundamental Rights Agency (FRA), Michael O'Flaherty, declarou que «no século XXI, não há desculpa para a discriminação racial. No entanto, a população negra na União Europeia continua a ser vítima de níveis generalizados e inaceitáveis de discriminação e assédio simplesmente devido à cor da sua pele».

Nos últimos dias, após o crime de Minesotta, a consciência em torno do racismo rompeu as restrições de isolamento social. Suas implicações com os direitos humanos fez com que fosse desafiado o confinamento forçado pela pandemia e provocou protestos, algumas vezes com violência, em Paris, Londres, em Haia e Amsterdam na Holanda, Berlim e praticamente em todas as principais cidades europeias. Mesmo na Itália, muitas vezes apontada como o país mais racista da Europa. A mesma coisa ocorreu nas metrópoles do mundo: Sidney, Tel Aviv, Buenos Aires e todas as outras em que o povo foi às ruas para exibir o seu descontentamento contra o crime do racismo e as injustiças raciais exacerbadas pelos partidos da direita nas desiguais sociedades do mundo.

I Can’t breathe

Em Paris a polícia usou gás lacrimogêneo na tentativa de controlar a manifestação calculada em 30 mil pessoas diante do Tribunal de Justiça. Um cartaz dizia “França indignada com a morte de George Floyd”. A demonstração prestou também homenagem a Adama Traore, um francês de origem africana que morreu nas mãos da polícia em julho de 2016. Sua morte foi comparada, pelas circunstâncias parecidas, com a do americano George Floyd. Suas últimas palavras foram as mesmas de Floyd, “não consigo respirar, não consigo respirar”, segundo o depoimento de sua irmã, Assa Traore. O chefe de polícia parisiense, Didier Lallement, havia proibido a manifestação alegando a interdição de aglomerações em face das restrições por causa da pandemia.

Londres

São frequentes as acusações de violência racista da polícia francesa contra cidadãos negros ou de origem árabe.

Em Londres, a associação Black Lives Matter convocou o protesto que foi realizado em frente à House of Parliament, no centro da cidade. O protesto marchou por Whitehall com alto-falantes e palavras de ordem e ocupou os parques de Londres em diferentes manifestações. A polícia fez cinco prisões, três por violação do lockdown e duas por agressão aos agentes de segurança.

Os participantes dos protestos em Haia como também em Amsterdam, na Holanda, fizeram uso de máscaras e mantiveram entre si a distância recomendada nas precauções contra a pandemia. Ocuparam sem violência as ruas das duas principais cidades do país.

Em silêncio e portando faixas e cartazes, multidões ocuparam sem incidentes as ruas de Estocolmo. Em Atenas, ao fim de uma passeata que decorrera pacificamente, bombas incendiárias foram jogadas contra a embaixada americana.

Berlim

Na Finlândia houve manifestações em Helsinque e uma marcha de cinco mil pessoas dispersou-se a pedido da polícia para evitar aglomeração nestes tempos de pandemia.

Berlim também também teve esta semana grandes protestos contra o racismo na sequência da morte de George Floyd. Diante da sede da embaixada americana, o movimento Black Lives Matter reuniu milhares de pessoas. A cidade tem tradição em realizar manifestações. Em outubro passado, uma passeata por mais tolerância e solidariedade reuniu, segundo os organizadores, mais de 240 mil pessoas. O objetivo era mostrar que a sociedade não pretende aceitar racismo, discriminação e a propagação de ódio.

Nas ruas de Milão, foram milhares de pessoas mobilizadas por centenas de associações, sindicatos e ONGs, entre elas Médicos Sem Fronteiras e a Anistia Internacional. “Pessoas. Primeiro as pessoas”, foi o tema exibido pelo protesto. Segundo os organizadores, o objetivo era "dizer que queremos um mundo que coloque as pessoas no centro", com "inclusão, igualdade de oportunidades e uma verdadeira democracia para um país sem discriminação, sem muros, sem barreiras". O conselheiro de Políticas Sociais de Milão, Pierfrancesco Majorino, disse que o grande evento na cidade derrotava o ódio.

Diversas outras manifestações estão ainda previstas, como a de Portugal, convocada para este sábado, dia 6 de junho, no Porto e em Lisboa.

Desafiando as ordens contra aglomerações, houve grandes protestos nas ruas. Alguns pacificamente e em silêncio, outros enfrentando a violência policial. O povo da Europa saiu para gritar que é contra a intolerância do racismo e está também disposto a combater as injustiças de uma sociedade que precisa de mudanças grandes e urgentes.






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