Política

O novo velho continente e suas contradições: Um germe que ameaça a Europa

Como Marx diagnosticou que o capitalismo trazia consigo o germe da própria destruição, a UE trouxe consigo o pensamento conservador e os partidos e movimentos de direita que contestam sua existência. A ideologia da extrema direita professa a crença em um nacionalismo radical e se caracteriza pela xenofobia, o racismo, ódio aos imigrantes, a islamofobia e o anticomunismo, além do antissemitismo, a homofobia, a misoginia, o autoritarismo, o desprezo pela democracia e a eurofobia, ou euroceticismo

21/07/2020 10:38

 

 
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Há uma ameaça rondando a Europa e o seu projeto de união. Trata-se do que se convencionou chamar de Euroceticismo, ou a descrença na União Europeia. Um preocupante sinal de alarme foi a vitoriosa campanha do Brexit promovida pela extrema direita do Reino Unido. Pode ter sido apenas o início de um processo que pode conduzir à destruição. Alimentado pelos partidos da direita, o movimento que pretende desfazer a união de 27 países do continente tem também os seus defensores à esquerda, embora em menor número e que, por razões diferentes, não acreditam numa Europa Unida.

Os partidos conservadores de direita fazem oposição por acreditarem que a União Europeia compromete a soberania e a identidade nacionais; os de esquerda a acusam de ser uma organização neoliberal, de não ter legitimidade democrática e transparência e de servir aos donos do capital em prejuízo dos trabalhadores. Creio que no caso das esquerdas há uma certa confusão entre os cânones do capitalismo e os da Europa em si.

A verdade é que as pesquisas periodicamente realizadas pelo Eurobarômetro, órgão pertencente à União Europeia, informam que sua popularidade tem decrescido desde 2007 e hoje encontra-se abaixo de 50 por cento. O prestígio mais baixo era no Reino Unido, Letônia e Hungria. Em 2016, os piores índices se apresentavam no Reino Unido, Grécia, França e Espanha. Foi naquele ano que se realizou o referendo do Brexit. Nos anos recentes a confiança cresceu um pouco pela queda no desemprego e o reaquecimento da economia. Há agora uma expectativa ansiosa diante do que poderá vir do desastre que representa a pandemia do coronavírus.



A resistência interna

Um grupo que se denomina Identidade e Democracia constituiu-se no Parlamento Europeu. Integrado, entre outros partidos de extrema direita, pelo Alternativa para a Alemanha-AfD, Liga, da Itália e Reunião Nacional, da França, reúne 73 deputados entre 751 cadeiras e representa a quinta maior representação no Parlamento, depois dos partidos conservadores de centro, os socialdemocratas, os liberais e os verdes. A propósito, Marine Le Pen, líder da extrema direita francesa, declarou que “nós mudamos o tabuleiro do xadrez político da União Europeia” e Jörg Meuthen, da AfD, disse que o bloco vai combater o enfraquecimento do Estado-nação.

Os populistas de direita eurocéticos do Reino Unido, Hungria e Polônia não aderiram em razão de lutas de poder dentro do bloco. Mas os da Áustria, Finlândia e Dinamarca já manifestaram o seu apoio.

Um continente cansado de guerra

A aspiração de uma Europa unida é consequência das tristes experiências de ter sido palco, só no século passado, de duas guerras mundiais e assistido às enormes privações por que passaram as suas populações ao longo da sua história. As contradições que conduziram aos conflitos tiveram sua causa nos sentimentos de forte nacionalismo dos estados, a ponto de François Miterrand ter se despedido dos deputados europeus reunidos em Estrasburgo quase gritando “le nationalisme, c’est la guerre”.

A guerra tem sido o passado da Europa mas pode também ser o seu futuro, advertiu Miterrand.

Uma construção política

A União Europeia com um mercado comum é uma construção política iniciada em 1950 com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço para por fim às frequentes guerras entre países vizinhos, que culminaram nas duas guerras mundiais. Os seis países fundadores foram a Alemanha, a Bélgica, a França, a Itália, o Luxemburgo e os Países Baixos. Em fins da década de 1970 os cidadãos da ampliada União Europeia elegeram pela primeira vez os seus representantes ao Parlamento Europeu.

Em 1993, foi concluído o Mercado Único com as «quatro liberdades»: livre circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capitais.

Assim como Marx diagnosticou que o capitalismo trazia consigo o germe da própria destruição, a União Europeia trouxe também consigo o pensamento conservador e os partidos e movimentos de direita que contestam sua existência.



A ideologia da extrema direita europeia professa a crença em um nacionalismo radical e se caracteriza pela xenofobia, o racismo, o ódio aos imigrantes, a islamofobia e o anticomunismo, além do antissemitismo, a homofobia, a misoginia, o autoritarismo, o desprezo pela democracia e a eurofobia, ou euroceticismo.

Tudo o que vai na contramão dos valores apregoados pela União Europeia.

O crescimento da extrema direita é sem precedentes desde os anos 1930. Em vários países situa-se com apoio entre 10% e 20% dos eleitores. Na França, Inglaterra e Dinamarca já chegou a entre 25% e 30% dos votos. Seria hoje um erro acreditar que o fascismo foi um fenômeno do século passado.

Muitos se perguntam o que acontecerá à Europa se estiver cheia de políticos que não acreditam nela.

Em 2012 a União Europeia recebeu o Premio Nobel da Paz mas nas eleições de 2014 aumentou o número de eurocéticos no Parlamento Europeu. Os últimos anos assistiram os países chegarem a um acordo para combater as alterações climáticas mediante a redução das emissões nocivas ao ambiente. O extremismo religioso no Médio Oriente e em várias outras regiões conduziram a conflitos e guerras que provocaram levas de refugiados a procurar abrigo nos países da Europa. O que teve como resultado o fortalecimento da extrema direita e o aumento do número de atentados terroristas em território europeu.

Nos últimos dias, foi convocada uma cimeira da União Europeia para aprovar um plano de recuperação diante da crise que vem junto com a pandemia. Trata-se de um pacote de ajuda aos países que assim necessitem. Ficou no entanto clara a divisão da Europa. Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca (e mais a Finlândia, que manifestou seu apoio), impediram a aprovação exigindo que o pacote de 750 bilhões de euros seja reduzido e as políticas compensatórias claras. Ou seja, quem receber deverá se comprometer com reformas estruturais. O Primeiro Ministro de Portugal, Antônio Costa, reagiu e afirmou:

-"Temos visões profundamente distintas do que é a União Europeia. E aquilo que é o espírito que tem de animar uma união como aquela que nós constituímos já não é partilhado por todos. Essa é a realidade".



Em vários momentos houve impasse nas discussões. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que o futuro da União Europeia está em jogo.

Hungria, Polônia e Eslovênia, governados pela extrema direita, protestaram contra a exigência de terem de se comprometer com o Estado de Direito para receberem eventual ajuda.

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