Política

O novo velho continente e suas contradições: À espera de um outro tempo

 

25/01/2021 08:10

Pessoas que receberam a vacina contra Covid-19 aguardam em catedral convertida em centro de vacinação, em Salisbury, Inglaterra, 20 de janeiro de 2021 (Justin Tallis/AFP)

Créditos da foto: Pessoas que receberam a vacina contra Covid-19 aguardam em catedral convertida em centro de vacinação, em Salisbury, Inglaterra, 20 de janeiro de 2021 (Justin Tallis/AFP)

 
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Aos tropeços, começa a vacinação e o capitalismo mostra as suas garras. As vacinas, ao invés de significarem um direito de toda a humanidade, custam 1,78 euros a da Oxford e também a da AstraZenica; 14,78 euros a da Moderna; a que foi desenvolvida pela Pfizer e BioNTech tem um preço por dose de cerca de 12 euros. Os países ricos concentrarão a posse e a aplicação das vacinas e os cidadãos de países mais pobres receberão bilhetes de segunda classe. As ações dos laboratórios atingem nas bolsas de valores preços que tornam risonhos seus acionistas, novas fortunas e muitos ganhos financeiros serão acumulados sobre a montanha de cadáveres que se contam desde Manaus a Londres passando por todos os cantos do mundo.

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Não há outra pauta na Europa. Ou no mundo. A pandemia ocupa todos os espaços nos meios de comunicação, nas mentes e na alma de todos os viventes. No instante em que as pessoas, especialmente os mais jovens, preparavam-se para a retomada da vida uma nova onda da doença paralisou o ato de existir em sociedade, a forma humana de convívio e sobrevivência. Tão antiga e tão humana. Os antigos bandos pré-históricos evoluíram, construíram aldeias, povoados e cidades. Inauguraram a civilização. Subitamente foi tudo paralisado, congelado no tempo, à espera de que a vacina cumpra a sua promessa de restauração e a humanidade possa continuar na caminhada em direção a seu destino.

(Reprodução)

E contam-se os mortos. É de um milhão a cada quatro dias o número de novas infecções apenas na Europa. Dois milhões é o número dos que morreram até agora. Seiscentos e cinquenta mil no continente. Quase cem milhões de infectados. Já quase não existem números claros. Calculam-se os mortos por grupos de cem mil pessoas.

Uma contabilidade soturna em que se destacam os Estados Unidos, o Brasil e o Reino Unido.

Aos tropeços, começa a vacinação e o capitalismo mostra as suas garras. As vacinas, ao invés de significarem um direito de toda a humanidade, custam 1,78 euros a da Oxford e também a da AstraZenica; 14,78 euros a da Moderna; a que foi desenvolvida pela Pfizer e BioNTech tem um preço por dose de cerca de 12 euros. Os países ricos concentrarão a posse e a aplicação de vacinas e os cidadãos de países mais pobres receberão bilhetes de segunda classe. As ações dos laboratórios atingem nas bolsas de valores preços que tornam risonhos seus acionistas, novas fortunas e muitos ganhos financeiros serão acumulados sobre a montanha de cadáveres que se contam desde Manaus a Londres passando por todos os cantos do mundo.

Os países contam os prejuízos econômicos com a paralisação das atividades. As perdas da pandemia vieram somar-se ao desastre provocado pelas mudanças no clima. O mundo se vê defronte de uma realidade e de um futuro sombrios.

(Flavio Lo Scalzo/Reuters)

No meio da pandemia

Em Portugal, as eleições realizadas no domingo, 24 de janeiro, reelegeram o habilidoso Marcelo Rebelo de Souza, que conta com o apoio entusiasmado da maior parte dos portugueses. Foi muito grande a abstenção por causa do coronavirus e o país democrático assistiu a um certo crescimento do partido Chega!, de extrema direita. Desde o 25 de abril de 1974 Portugal julgava-se vacinado contra o fascismo.

Na Itália, o Primeiro Ministro Giuseppe Conte, que ganhou popularidade com a gestão da pandemia, luta para salvar o seu governo em crise depois de perder o apoio do partido Itália Viva, de Matteo Renzi, ele próprio um ex-Primeiro Ministro. Tenta afastar as ameaças da extrema direita de Matteo Salvini que ronda o seu governo. Salvini defende a saída da Itália da União Europeia e Conte apela para as forças europeístas, socialistas, liberais e contrárias a todo nacionalismo e soberanismo. Como outros na Europa e no mundo, a Itália é também um país dividido pela luta ideológica.

As reformas neoliberais de Emmanuel Macron continuam a provocar na França constantes manifestações de protesto. O país profundo não se conforma com o anunciado aumento de impostos e a perda de rendimentos e benefícios sociais. A direita continua na espreita. Nas últimas eleições legislativas o Rassemblement National, de extrema direita, liderado por Marine Le Pen, teve mais votos do que La République En Marche!, de Macron. Os verdes também subiram, o France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon decepcionou e a direita clássica perdeu terreno.

Angela Merkel (AP)

A Bélgica assiste ao crescimento do Vlaams Belang-VB(Interesse Flamengo, em Português), de extrema direita, racista, anti-imigração e anti-Europa, enquanto na Alemanha há incerteza quanto ao futuro político do país com a saída de Angela Merkel do governo. Ela se retira após completar em 2021 dezesseis anos no poder. Recuperou sua desgastada popularidade com uma bem sucedida gestão da pandemia.

A Grande Peste

A Europa convive com os surtos de pestes mortais por toda a sua longa história. A Peste Negra, também conhecida como a Grande Peste, matou 200 milhões de pessoas contando as vítimas da Europa e da Ásia, a partir de 1348 até 1351. A população da Europa, de 102 milhões de habitantes naquela época, levou 200 anos para se recuperar até os níveis anteriores. A pandemia teve várias ondas, em surtos intermitentes que chegaram até o início do século XX. O cientista suíço Alexandre Yersin e o japonês Shibasaburo Kitasato descobriram, em 1890, em Hong Kong, o bacilo causador da Peste Negra. Outras epidemias também assombraram o mundo, em diferentes épocas e às vezes simultâneas - sarampo, cólera, varíola, peste bubônica, sífilis, lepra, tuberculose.

Acreditava-se que a Peste Negra era um castigo de Deus. O Papa Clemente VI convocou os fiéis a Roma para uma grande oração e um milhão e duzentos mil peregrinos atenderam a seu chamado. Nove em cada dez viajantes morreram pelo caminho e o próprio Papa refugiou-se em confinamento com medo de se transformar ele próprio numa vítima do castigo. A grande oração não aconteceu.

O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel, o Velho (1562) (Mondadori/Getty Images)

Do século XIV ao XVIII foram dez as pandemias que assolaram o velho continente. Os ricos fugiam para suas propriedades no campo enquanto os pobres se empilhavam em cadáveres. A doença originava-se, sabe-se hoje, nos ratos infectados pelas pulgas com uma bactéria chamada Yersinia pestis, que provoca a peste pulmonar, a peste septicémica ou a peste bubónica. Os ratos proliferavam-se sem controle, pois os gatos, seu predador natural, haviam sido dizimados na Europa pela crença popular de que eram o animal de estimação das bruxas queimadas na fogueira. O velho continente pagou caro por suas superstições.

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