Política

O ódio ilusório à República: o mal do político narcisista

 

03/07/2020 12:38

 

 
Durante anos e graças ao domínio “teológico” do neoliberalismo, personalidades completamente dominadas por seus impulsos narcisistas invadiram o espaço político. Assim como em outros tempos se falava em “personalidade autoritária” para explicar o nacional-socialismo, na razão neoliberal, a megalomania, o ódio por tudo o que sua vida soberana mostrava na terra natal, e o narcisismo impune e destrutivo tentam por todos. meios se apoderar do Estado.

Não se trata da famosa banalidade do mal de Arendt, mas de uma nova forma de banalidade do mal. É um impulso destrutivo que, embora vinculado às demandas da reprodução do capital, acrescenta uma vantagem suplementar, uma série de procedimentos que podem estar a serviço da espionagem e do controle populacional, mas excedem a utilidade do controle típico dos serviços de inteligência.

Pelo contrário, é um exercício sádico e puro de identificação narcisista, que não apenas apela a aparências democráticas, mas que inclusive se vitimiza enquanto causa danos. Algum dia, o mundo terá que considerar o nó entre patologia, subjetividade e política para as ações de megalomania palhacesca de Trump, Bolsonaro, Macri, Áñez, etc. Eles foram possíveis, chegaram ao poder e foram sustentados por um consenso às vezes sintonizado à loucura social em seus aspectos mais paranoicos.

Mas não se trata de psicologia, psiquiatria ou patologias mentais. É uma necessidade estrutural do neoliberalismo, que exige cada vez mais sua sustentabilidade de líderes com suficiente impunidade, irresponsabilidade e “superficialidade”, que incorporam com seu caráter insubstancial e paródico a dimensão acéfala e descabeçada para a qual o capitalismo contemporâneo tende, sob o nome de neoliberalismo.

A liderança neoliberal determina: a marcha econômica para as corporações, a política para os narcisistas a serviço da pura conspiração. Tempos em que personagens banais geram ódio contra o próprio povo de onde elas vieram, e parecem sinalizar o verdadeiro fim dos tempos, “em que o velho não termina de morrer e o novo está nascendo”. Ainda não nasceu, diria Gramsci.

Os setores da política que ainda detêm a nobre responsabilidade ética pela construção política do social, as políticas e políticos que ainda tentam pensar em um modo de vida antifascista, devem enfrentar o carnaval macabro dos políticos que venderam suas almas diante das tentações narcisistas, aquelas que fazem o trabalho para a exibição neoliberal cega, sem cabeça, mas sempre reproduzindo seu processo de acumulação ilimitada.

Jorge Alemán é psicanalista e escritor

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli




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