Política

O problema não foi o que aconteceu no dia 15 de março

O problema foi o sintomático acuamento dos eleitores de Dilma: com ajustes que contrariam sua campanha eleitoral, a presidenta vai perdendo sua base.

17/03/2015 00:00

Jonas Pereira/Agência Senado

Créditos da foto: Jonas Pereira/Agência Senado

Para o governo, para as forças progressistas e para a democracia, o problema não é o que aconteceu nas ruas no domingo, dia 15 de março. O problema é o que deixou de acontecer nas ruas na sexta-feira, 13.

 

O domingo é um repetitivo terceiro turno. São Paulo, o grande enclave conservador do país, levou às ruas o maior contingente contra a presidenta Dilma Rousseff e abrigou, sem qualquer conflito, forças a favor do impeachment e até uma extrema-direita virulenta que pedia, cartazes em punho, a intervenção militar contra o governo do PT.

 

Brasil afora, as manifestações que tiveram maior peso seguiram a regra paulista: quanto mais fraco o desempenho de Dilma no Estado nas eleições do ano passado, maior a manifestação. Rio e Belo Horizonte confirmam a regra: a mobilização nas ruas das duas capitais foi mais inflada pela cobertura de televisão do que propriamente relevante. Nos dois Estados a candidata do PT teve a maioria dos votos no segundo turno.

 

As filmagens, fotos e entrevistas com os manifestantes mais raivosos facilmente são enquadráveis no perfil do eleitor de Aécio Neves nas eleições presidenciais do ano passado.

 

Segundo a pesquisa Datafolha divulgada na véspera do segundo turno, em 25 de novembro, Aécio concentrava eleitores nas faixas de renda acima de 5 salários mínimos (60% das preferências entre os que têm renda familiar de 5 a 10 salários e 65% entre os que ganhavam mais do que isso)e de alta escolaridade (o tucano tinha a simpatia de 61% das pessoas com nível superior). Na faixa etária de 16 a 24 anos, os dois candidatos dividiram meio a meio as simpatias dos eleitores; e voltaram a rachar no meio entre aqueles com mais de 60 anos. Entre aqueles entre 25 e 34 anos, Dilma tinha 4 pontos a mais do que Aécio nas preferências; essa vantagem subia para 10 pontos percentuais na faixa entre 35 e 44 e caia para 6 pontos entre os que tinham de 45 a 59 anos. Nas imagens de televisão, a preponderância dos mais jovens e dos mais velhos, que racharam ao meio nas eleições, era visível.

 

O perfil eleitoral dos bairros onde virou moda os panelaços, toda vez que o governo se pronuncia oficialmente, confirma: a maioria das pessoas que foi às ruas e bate panelas tem maior renda e maior escolaridade. Provavelmente também seja majoritariamente branco, já que nessas faixas de renda e escolaridade os brancos são esmagadora maioria.

 

O que causa espécie não é a oposição ganhar as ruas, ou o grito de exaltados que querem depor um governo depois de terem perdido a chance de ganhá-lo nas urnas. O que assusta é um governo eleito há quatro meses, e reempossado há dois, ser incapaz de mobilizar eleitores recém-saídos das eleições em sua defesa nas manifestações nacionais do dia 13, antevéspera do domingo que assombrou democratas com fantasmas do golpe militar de 1964.

 

Pelo volume de votos obtido por Dilma, as manifestações em defesa da Petrobrás, da democracia e da reforma política tinham que ter colocado nas ruas muito mais gente do que efetivamente colocaram – gente suficiente para tornar ridícula qualquer tentativa de manipulação de números, como fizeram a PM Paulista e a Rede Globo (que registraram 1 milhão de presentes na Avenida Paulista no dia 15, número colocado em dúvida até pela Folha de São Paulo, e 12 mil no dia 13, para uma multidão que foi fotografada, compacta, ocupando quase toda a extensão da rua da Consolação).

 

Os que votaram em Dilma não foram para as ruas, esse é o fato. Em primeiro lugar porque, embora não batam panelas em janelas de apartamentos chiques, estão com o pé atrás com o início do segundo governo.

 

Têm razões para isso. Nesses poucos meses desde as eleições, o governo decidiu um ajuste fiscal que penalizou fundamentalmente o seu eleitor, sem negociações, conversas ou compensações de qualquer ordem. Um ministro, Joaquim Levy, estranho ao campo político vitorioso, move-se com desenvoltura acima do governo eleito ou do programa de governo escolhido pelo eleitor, com o aval para negociar, conversar ou compensar setores que operaram claramente contra a presidenta, nas eleições e depois delas.

 

Na sexta-feira, aliás, indiferente aos manifestantes que davam a cara para bater nas ruas de São Paulo para defender Dilma, Levy negociava com o governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, o seu ajuste fiscal, no Palácio dos Bandeirantes. Pedia apoio para medidas fundamentalmente contrárias ao programa de governo de Dilma no Palácio dos Bandeirantes, símbolo do poder tucano.  

 

O eleitor de Dilma tem assistido diariamente, pelo Jornal Nacional, capítulos do avanço do pacote fiscal do governo sobre programas educacionais como o Fies, até bem pouco tempo a porta de ascensão social de parcelas consideráveis de jovens; ou sobre o seguro desemprego, garantia ameaçada justo no momento em que o pacote fiscal do governo aposta na recessão para conter a inflação e gerar superávit primário, isto é, que a dispensa do trabalho vira um risco real para o trabalhador de baixa renda.

 

Os eleitores lidam com um volume grande de más notícias diárias que entram nas suas casas pela tevês, rádios e jornais desde a posse da presidenta Dilma. Até novembro, viram Dilma diariamente, quando ela pedia votos pela TV. Não tiveram até as manifestações de domingo uma explicação inteligível ou justificável para o que aconteceu desde que se iniciou o ataque à economia brasileira e ao país, pelo mercado financeiro e pela mídia oposicionista, e desde que o governo deu como resposta a isso um ajuste fiscal que atingiu fundamentalmente seu eleitor – que é pobre, está tentando ascender pela educação e precisa ter acesso ao seguro desemprego principalmente agora, quando a indústria de construção civil se desacelera em função do Escândalo Petrobras e da recessão promovida pelo ajuste fiscal de Levy.

 

Esses eleitores podem ainda não ter migrado para a oposição – o perfil dos manifestantes mostram que isso ainda não aconteceu – mas os acontecimentos tornaram difícil a sua convivência política com os derrotados. Essas pessoas vivem hoje em um ambiente adverso onde a oposição, com acesso preferencial aos meios de comunicação e movendo-se de forma muito mais coordenada nas mídias sociais, conseguiu ocupar um espaço considerável e acuar os vencedores, colando neles o estereótipo de minoria ignorante inapta ao voto, mesmo que as urnas tenham demonstrado que não são minoria, e mesmo que o legado dos governos petistas até agora indiquem que a intenção eleitoral dessas de alguma forma foi vitoriosa, e incontestavelmente serviu aos interesses do cidadão de baixa renda. Esse eleitorado hoje apanha do ajuste fiscal do governo e dos eleitores de oposição. Principalmente em São Paulo.

 

Os que votaram em Dilma não vão para as ruas também porque não têm comando, liderança ou direção – seja qual for a designação que se dê para o papel que devia caber a um partido político, de mediar as relações entre os eleitos pela legenda e a sociedade.

 

O Partido dos Trabalhadores, o único que teria essa possibilidade porque sufragado em quatro eleições presidenciais, perdeu a capacidade de mediação porque foi sufocado por uma burocracia partidária, e por conta dela se viu como centro de sucessivos escândalos políticos – trazidos seletivamente pela mídia de oposição, de fato, mas sem que isso produzisse uma reação inteligível para o eleitor e para a militância. Em cada uma das crises em que foi o alvo, a burocracia partidária reagiu distanciando-se mais da militância, dos eleitores e dos movimentos sociais. Ainda assim, nos críticos momentos das eleições do ano passado, foram os movimentos sociais, os eleitores e uma militância que sequer conseguiu opinar nos rumos da campanha que salvaram Dilma do nocaute.

 

 

É sobre isso que as forças progressistas devem refletir agora. A questão é saber como tirar o eleitor que deu a vitória para a esquerda nas últimas quatro eleições presidenciais da defensiva. Não é apenas proteger o eleitor de Dilma das medidas do governo o que está em questão, embora isso seja muito importante. Trata-se de dar a ele condições de se orgulhar do seu voto e enfrentar o seu adversário nas ruas. Esse é o único caminho de governabilidade possível para o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff.



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