Política

O que está acontecendo conosco?

A consideração rigorosa do passado colonial francês, daquilo que foi reprimido por grande parte da sociedade francesa me parece uma tarefa incontornável.

28/01/2015 00:00

Cena do filme

Créditos da foto: Cena do filme "A Batalha de Argel", de Gillo Pontecorvo.



Para responder à proposta de amigos brasileiros de escrever sobre o que está acontecendo na França após o trágico início de 2015, gostaria, antes de responder sucintamente, de fazer algumas observações.

A primeira é que, embora eu seja um psicanalista, não é enquanto tal que faço essa reflexão, pela razão fundamental de que a psicanálise não é uma profissão ou é, como Freud observou diversas vezes, uma profissão impossível. Ser ou tentar ser psicanalista consiste em ocupar uma posição que permite escutar o sofrimento de uma pessoa, de alguém com problemas consigo mesmo, e tentar ajudá-la a resolver essas dificuldades. Portanto, pretender falar de uma situação política e social, aquela vivida pela França hoje ou por qualquer outro país, na condição de um analista que se utiliza das ferramentas teóricas que Freud e Lacan nos deixaram, consiste em incorrer neste engano que é geralmente chamado de “psicanálise aplicada”. A psicanálise só se aplica, como nos lembrou Lacan, a sujeitos aos quais nos dedicamos a escutar.

A segunda observação consiste em estabelecer uma diferença fundamental entre uma abordagem que busca compreender e avançar algumas explicações para um evento trágico e outra que procura justificar e desculpar atos que não são, de modo algum, passíveis de justificativa e desculpa. Compreender ou tentar compreender, tentar explicar, não significa de modo algum desculpar, menos ainda diminuir ou relativizar o caráter atroz – evitarei aqui falar de barbárie – dos atos cometidos em Paris nos dias 7, 8 e 9 de janeiro deste ano.

Depois da emoção e da tristeza que se sentiram naqueles dias trágicos, após o entusiasmo provocado pela imensa manifestação de 11 de janeiro, quaisquer que sejam seus limites, após a espécie de fadiga que se seguiu à escuta e à leitura de inumeráveis intervenções, entrevistas, artigos e debates nos jornais, rádios e canais de televisão, ficou o sentimento de um tipo de indecência diante da ânsia de acrescentar um “ponto de vista” próprio a essa sequência infindável de “opiniões”.

Então, por que falar sobre isso? A desculpa que consiste em lembrar a distância entre a França e o Brasil, uma distância não somente geográfica, não é suficiente. A razão que eu posso apresentar para justificar a enunciação de algumas ideias a respeito tem a ver com a ausência notável e marcante nas análises propostas de qualquer consideração de dimensão histórica que me parece amplamente necessária – há outras, certamente – para lançar uma luz sobre esses eventos trágicos.

Há cerca de 30 anos, Rossana Rossanda, grande figura intelectual do comunismo italiano, lembrou seus compatriotas que, quaisquer tenham sidos os abusos, crimes e assassinatos praticados pelas Brigadas Vermelhas, esses jovens eram “nossos filhos”, que carregavam com eles, em seu pensamento e ação, as marcas de uma sociedade que não havia se confrontado com sua história, a história do fascismo de Mussolini.

Considerando a França de hoje e os crimes antissemitas, mas não somente eles, cometidos há alguns anos e que precederam aqueles desse triste mês de janeiro, me parece que não podemos dispensar um olhar sobre a história da França nesses dois últimos séculos, o que implica levar em conta prioritariamente a história do colonialismo francês e dos crimes de toda ordem que ele cometeu.

Algumas datas para nos limitarmos a um período relativamente recente, que começa após o fim da segunda guerra mundial, do qual muitos pais, avós e bisavós daqueles que chamamos hoje de “jovens da periferia”, imigrantes africanos e norte-africanos (argelinos principalmente) participaram nas fileiras do exército francês. Em 1945, a França é libertada, o nazismo derrotado, e o país começa a se reconstruir. Em 1946, as Nações Unidas são criadas em São Francisco, estabelecendo entre suas primeiras resoluções o direito dos povos à autodeterminação. Na lógica dessa resolução, surgem movimentos de emancipação na região então chamada de Indochina. Ao contrário de acolher esse desejo de independência, a França deslocou para a região um contingente militar para reprimir essa aspiração. Essa foi a primeira guerra da Indochina que terminará com os acordos de Genebra de 1954, após a derrota francesa em Diên Biên Phu.

Em 1945, um número significativo de argelinos, entre eles muitos veteranos da luta contra o nazismo, se manifesta em Argel e nas grandes cidades da Argélia não pela independência do seu país, mas para ter...o direito de voto! Um número importante deles, pelo menos 20 mil, foi massacrado pelo exército, especialmente em Setif. Este será o início oficial do que se tornará, a partir de 1954, a guerra da Argélia, pudicamente chamada até... 1999 de "operação de pacificação" ou ainda designada pelo eufemismo "os acontecimentos da Argélia", que serão marcados pelo lado francês pela prática da tortura, por assassinatos de todas as ordens e execuções de patriotas argelinos considerados criminosos. Esta guerra monstruosa que, por suas consequências, marcará a sociedade francesa, deixou entre 200 e 400 mil mortos no lado argelino, termina em 1962 com os acordos de Evian e com a independência da Argélia.

Apesar dessa guerra e das turbulências políticas que ela provoca, a França viveu então o que chamamos de "30 anos gloriosos", três décadas de crescimento, de modernização do país e de melhoria das condições de vida, especialmente das camadas médias da população. Mas tudo isso envolverá a vinda de uma força de trabalho em grande parte... argelina, para a qual nenhuma moradia decente foi fornecida. Reside aí o nascimento e desenvolvimento de cidades de lata nos subúrbios, verdadeiras vilas de papelão e lata, que serão sucedidas por "cidades" sem serviços básicos de educação e de saúde. Esse será o cenário para gerações da população imigrante, "zonas", como dizem alguns comentaristas (diziam antes dos recentes acontecimentos), onde a vida da maioria carece de qualquer horizonte, sendo marcado pelo desemprego, tédio, tráfico de drogas e toda sorte de abandonos.

Tudo isso é apenas um resumo, mas a falta de conhecimento ou ignorância desse contexto, ao mesmo tempo histórico e atual, torna impossível compreender a influência sobre muitos destes jovens eufemisticamente chamados "vindos da imigração" dos movimentos extremistas que lhes apresentam a ilusão de ter um propósito, uma razão para viver... e morrer. O primeiro-ministro, que não se notabiliza por usar a palavra certa, desta vez não se enganou quando disse, em tom alto e claro, que a sociedade francesa é hoje palco de um apartheid econômico, social e racial, embora este último não esteja inscrito na lei, como foi o caso na África do Sul.

Há certamente muitos outros fatores a considerar para esclarecer o que acaba de acontecer na França, mas a consideração rigorosa do passado colonial, da sua repercussão nas consciências, daquilo que foi reprimido por uma grande parte da sociedade francesa me parece uma tarefa incontornável se quisermos tentar entender "o que está acontecendo conosco" - a fórmula é de Michel Foucault que a tomou emprestado de Kant - se quisermos curar, reparar e não apagar o desastre.

(*) Michel Plon é psicanalista em Paris, co-autor, com Elisabeth Roudinesco, do Dicionario da Psicanàlise e co-autor do Manifesto pela Psicanalise, que serà lançado no Brasil no mês de maio pela Civilização Brasileira.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer





Conteúdo Relacionado