Política

O que o discurso inflamado de Bolsonaro tem a ver com o massacre em Suzano

 

17/03/2019 15:11

(Reprodução/Youtube)*

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)*

 

Um dia antes de completar um ano do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes, o Brasil se chocou com um atentado na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, região metropolitana da capital paulista. Dois jovens, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos e Luiz Henrique de Castro de 25, invadiram o colégio e abriram fogo contra os alunos e funcionários. O saldo da tragédia é dez mortos – entre eles os homicidas – e nove feridos.

O episódio rapidamente foi comparado, pela imprensa e especialistas, a atentados desta ordem que acontecem com frequência em países como os Estados Unidos, em específico ao chamado Caso Columbine, ocorrido em 1999, quando dois estudantes invadiram uma escola e mataram 15 pessoas. No país norte-americano, onde o acesso às armas é bastante facilitado, acontecem em média dez ataques desse tipo todos os anos.

Já no Brasil, apesar de ser um país violento e com índices altos de mortes por armas de fogo, este não é um crime comum. O atentado em Suzano abre um novo capítulo no tipo de violência enfrentado no país. É o maior caso desta ordem já registrado em São Paulo e um dos maiores da história recente.

É óbvio que não se pode atribuir ao presidente da República a responsabilidade deste massacre. Porém, é inegável que um discurso belicoso legitima a barbárie. Jair Bolsonaro se elegeu ancorado em frases feitas, sem apresentar uma proposta real para solucionar a crise da Segurança Pública. Uma de suas primeiras ações como presidente foi usar uma caneta Bic para assinar o decreto que facilita a posse de armas. Antes disso, ele já era famoso por suas declarações inflamadas contra opositores e minorias. Talvez por conta deste comportamento, tenha sido difícil para o chefe de Estado se pronunciar sobre o caso de Suzano, ele levou seis horas para emitir um pequeno comunicado.

Segundo Bolsonaro, facilitar o acesso às armas é uma forma de permitir que a população tenha “o direito de se defender”. Após o massacre na escola em Suzano, o senador do PSL pelo estado de São Paulo, Major Olímpio, afirmou que “se tivesse um cidadão com arma regular dentro da escola, professor, servente, um policial aposentado, ele poderia ter minimizado o tamanho da tragédia”. É como se o Estado brasileiro jogasse na conta do cidadão comum a responsabilidade da Segurança Pública. Justo o professor, que tem sido hostilizado por este governo como o inimigo número um, responsável pela suposta “doutrinação marxista” dentro de sala de aula, agora deve se tornar um soldado armado à espera do próximo massacre.

Um professor do Ensino Médio em São Paulo recebe um salário que varia entre R$2500 a R$3000, se ele cumprir a mais extensa carga horária semanal. Uma arma como a utilizada pelos jovens em Suzano, um revólver de calibre 38, não custa menos de R$3500 em lojas especializadas.

Estudos apontam que aumentar a circulação de armas de fogo consequentemente aumenta o índice de violência. Ainda assim, o senador mais votado do estado defende a ampliação do uso de armas. Como se a solução para a crise de Segurança Pública fosse uma sociedade armada até os dentes, pronta para atacar uns aos outros a cada desconfiança.

Em entrevista ao Nexo, o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker, analisa o caso de Suzano e afirma que, com ele, se inaugurou uma nova forma de violência no país. “A violência do cotidiano vai do desagravo verbal à repressão policial, passando por agressões a mulheres e minorias. A tragédia desta manhã [na escola Raul Brasil], por outro lado, traz uma violência visceral contra uma instituição simbólica: o lugar onde se estuda, onde se dialoga, onde se aprende. Temos, portanto, uma violência que se ancora num discurso disponível na cultura atual, um discurso que legitima a violência e que recentemente se mostrou vencedor na sociedade brasileira: as armas são a cura para todos os males, são a força maior a dar fim aos conflitos. Este é o fator que altera a equação”, explica.

Um “troll” na presidência

“Troll” é uma gíria usada na internet para se referir a uma pessoa responsável por desestabilizar fóruns e discussões online. Um “troll” é o usuário que provoca e não aceita provocações. Com frases de impacto, comentários impertinentes e ironia rasa ele busca desestabilizar outros usuários, muitas vezes sem nem entender sobre o tema que está em debate.

O problema é que este comportamento parece não estar mais limitado apenas aos fóruns online. Quando menos se espera, o presidente da República usa sua conta no Twitter, a rede social onde ele é mais ativo, para comentar algum tema polêmico com o único objetivo de jogar mais gasolina na fogueira. Também é comum vê-lo usar frases feitas ou comentários impertinentes em pronunciamentos oficiais ou reuniões. É como se os brasileiros tivessem eleito um “troll” para presidente porque, além de tudo isso, ele não aceita ser questionado, nunca, sobre nenhum tema. Quando alguém o faz, é rapidamente alçado ao posto de inimigo público.

Ao longo de sua ascensão, Bolsonaro atacou de forma violenta seus opositores: “não te estupro porque você não merece”, disse à então colega parlamentar Maria do Rosário (PT) durante uma discussão no Salão Verde da Câmara em 2014; em pronunciamentos ameaçou “metralhar a petralhada” e mais de uma vez recorreu a declarações violentas para inibir os inimigos políticos. Também tenta deslegitimar a imprensa e sempre que é alvo de críticas ou discorda de uma linha editorial, acusa o veículo em questão de ser um propagador de “fake news". Durante a votação para o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, homenageou o general Carlos Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar brasileiro reconhecido oficialmente pela Justiça como torturador durante a ditadura militar (1964 - 1985). Na ocasião, de forma sádica dedicou o voto a quem ele qualificou como “o terror de Dilma”.

Os relatos de comportamento violento de Bolsonaro poderiam continuar a ocupar páginas e páginas desta reportagem, mas destaco alguns dos mais emblemáticos para mostrar como este discurso inflamado não só não foi repreendido de forma séria pela Justiça brasileira, como levou o ex-capitão da reserva a ocupar o cargo mais importante do país. É o triunfo da barbárie. Se o presidente age dessa forma, quais os limites para seus admiradores?

Durante a campanha presidencial, aconteceram muitos atos de violência “assinados” pelos apoiadores do capitão. Pessoas que espancaram, agrediram verbalmente e até mataram quem pensasse diferente, e buscaram legitimar estas ações com o discurso inflamado do então candidato.

Esse discurso venceu e os paradigmas de violência mudaram. Os dois jovens que invadiram a escola em Suzano frequentavam fóruns na internet dedicados à incitação violenta contra minorias, um deles, o Dogolochan, é administrado por Marcello Alves Silveira de Mello, o primeiro réu condenado no Brasil por crimes de ódio na internet. O espaço se dedica exaltar ideologias extremistas e incentiva ataques contra LGBTs, negros e comunistas.

O mais novo dos atiradores, Guilherme, se dizia admirador de Bolsonaro e interagia com páginas dedicadas ao presidente na internet cujo principal foco era cultuar o comportamento violento. Além disso, também era frequentador assíduo de outras páginas de extrema-direita. Como muitos adolescentes de sua idade, era fã de séries e games e, segundo a família, tinha um comportamento normal que nunca fez levantar suspeitas de que poderia cometer um crime como este.

Para Dunker, o massacre na escola teve também uma característica de “espetáculo”, outro elemento novo para os padrões da violência registrada até hoje no país. Ao usar uma arma medieval, a besta, espécie de lançador de flechas, os dois atiradores tentaram transformar o episódio em uma perfomance macabra. A psicóloga Vera Iaconelli, entrevistada pela Folha de São Paulo, explica que este culto às armas e a atuação performática dos jovens em um ambiente escolar pode ser considerada uma forma de “chamar a atenção", de construir uma narrativa em busca de sair do anonimato e entrar para a história.

Não se pode relacionar diretamente Jair Bolsonaro a este crime. Porém, é inegável que a vitória do discurso de ódio encoraja os anônimos que se sentem incitados pelo comportamento explosivo do presidente.

Garoto propaganda do mercado de armas

Não é segredo a paixão do presidente pelas armas de fogo. Isso não seria um problema se o hobby não causasse impacto direto neste mercado. Assim que Bolsonaro assumiu a liderança na corrida presidencial, no ano passado, as ações da Taurus, uma das maiores fabricantes de armas e munições do país, mais que dobraram. Apenas entre agosto e setembro a Bovespa registrou uma alta de 140%, que ficou atrás só das ações do Banco do Brasil.

Durante a campanha, Bolsonaro visitou o estande da empresa em uma feira de armas e prometeu que, se chegasse à presidência, todo cidadão poderia ter acesso a uma pistola ou revólver da marca. Na ocasião disse “se eu chegar lá, você cidadão de bem, vai ter isso aqui em casa”, e exibiu uma pistola, em seguida emendou “você, produtor rual, vai ter isso aqui também”, e ergueu um fuzil. Trata-se, claramente, de um homem de palavra, após 15 dias de governo, ele assinou o decreto que facilita a posse de armas.

A Taurus é a empresa que mais investiu dinheiro na campanha dos parlamentares membros da Bancada da Bala, cujo objetivo é mudar o código penal e facilitar o acesso às armas no país. Em 2014, a empresa doou R$ 870 mil, dos R$ 2 milhões doados por toda Indústria da arma. Na legislação passada a bancada era composta por 35 deputados ativos, nesta passa de 50.

Óbvio que a doação não é benevolência, é investimento. Com a facilitação do acesso às armas, o crescimento deste ramo avança a passos largos. A Bancada segue de vento em polpa em busca de ampliar ainda mais as facilidades para quem quiser ter um revólver, pistola ou fuzil em casa ou num estabelecimento comercial. Vale destacar que o decreto assinado no dia 15 de janeiro considera “comércio” os carros usados para transporte de passageiros como táxis e Uber por exemplo.

O governo de Bolsonaro apenas começou e já tem como marca registrada a incitação à violência. A cada novo episódio divulgado de foma exaustiva pela imprensa, o presidente e seus filhos vêm a público aproveitar a oportunidade para dizer que “se todo cidadão tivesse uma arma”, as coisas seriam diferentes. Seriam diferentes sim, a consequência nefasta deste culto às armas salta aos olhos de qualquer pessoa disposta a enxergar para além da mira de um fuzil.

*A imagem que abre este texto foi retirada do vídeo abaixo:



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