Política

O que significa reinventar a política em tempos pós-neoliberais?

"Hoje, nenhum dos candidatos representa uma proposta estruturada para o que vai ser o Brasil nas próximas décadas, ou melhor, perante as próximas décadas", afirma Diego Viana na entrevista

22/03/2018 11:55

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Ao contrário do que se viu na eleição de 1989, onde “quem votasse em BrizolaLulaCovasMaluf ou Ulysses sabia bem o que esperar desses candidatos”, o cenário eleitoral deste ano não desperta a mesma confiança, porque “hoje, nenhum dos candidatos representa uma proposta estruturada para o que vai ser o Brasil nas próximas décadas, ou melhor, perante as próximas décadas”, afirma Diego Viana na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Sobre as possíveis candidaturas à presidência, ele é assertivo: “Bolsonaroé uma aventura irresponsável, Lula é uma tentativa de juntar os cacos, Alckmin foi um governador sem ideias e seria um presidente sem ideias, Boulos tem o mérito da coordenação dos sem-teto, uma liderança de esquerda que emerge desses novos movimentos; mas não parece ir muito além, pelo que demonstram suas declarações”. E adverte: “É claro que a eleição é um momento crucial e provoca modificações importantes, mas o que tenho visto, e me deixa um pouco preocupado, é que muita gente concentra todas as suas atenções no problema do que vai acontecer em outubro — principalmente pensando em evitar que aconteça o pior. Mas por mais que a eleição possa precipitar eventos, acelerar tendências ou freá-las, para tentar entender as próprias tendências é preciso pensar além das eleições. Afinal, se temos um crescimento de candidaturas extremistas, se temos um legislativo cada vez mais obscurantista, nada disso se explica por uma única eleição”.

Viana pontua ainda que a discussão sobre a reinvenção da políticaprecisa antes de tudo compreender o que essa proposta significa, porque “o que temos visto ultimamente com o nome de ‘reinvenção da política’ é a ideia de rejuvenescê-la, moralizá-la e assim por diante”. Se é para reinventá-la, sugere, “é para reinventar a fundo: o que é a política em tempos pós-neoliberais, depois da derrocada das sociedades salariais e dos movimentos de massa do século XX, depois do esvaziamento dos partidos tradicionais? O que é a política quando não basta mais pensar simplesmente em comunidades humanas delimitadas por fronteiras geográficas, mas precisamos incluir aí diferentes culturas, diferentes formas de vida e o sistema em geral de sustentação da vida no planeta?”, questiona.

O tema desta entrevista será abordado por Diego Viana na palestra intitulada O momento brasileiro e a reinvenção política. Limites e possibilidades, nesta quinta-feira, às 19h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU. O evento integra o 3º Ciclo de Estudos A esquerda e a reinvenção da política no Brasil contemporâneo. Limites e perspectivas.

Diego Viana é graduado em Economia e mestre em Filosofia. Atualmente cursa doutorado no programa Diversitas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH-USP e no Laboratoire du Changement Social et Politique - LCSP da Universidade Paris Diderot (Paris VII). Também é membro do Grupo de Estudos Iconomia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como você entende o atual momento político e social que o país vive? Quais são os principais fatores que contribuíram para que se chegasse a esse cenário?

Diego Viana - Para não dar uma resposta longa demais, eu gostaria de chamar a atenção para um ponto de convergência que o momento atualmanifesta na trajetória do país, tanto internamente quanto em sua inserção internacional. Chegamos ao que parece ser o fim de um ciclo político no mesmo momento em que o mundo também parece estar entrando em transição. Fim de ciclo político porque as últimas décadas testemunharam a consolidação da disputa eleitoral entre PT e PSDB, significando um descolamento entre a disputa eleitoral e o efetivo controle político do país; e também porque a confiança que podemos ter nas instituições da Nova República depois do processo de impeachment está abalada, creio que definitivamente. E transição porque os regimes de acumulação que conhecemos depois da Segunda Guerra, o fordismo/keynesianismo da era de Bretton Woods e a financeirização a partir dos anos 80, parecem ter chegado a seu ponto de esgotamento.

Momento de pessimismo

Hoje, o que temos mais imediatamente disponível é esse bando de oligarcas e parasitas, enquanto a sociedade civil se sente soterrada, traída, desiludida, cansada

Para dar um pouco mais de espessura ao que estou chamando de "momento", podemos dizer que existe um princípio dinâmico que rege os eventos sociais e políticos no Brasil desde algo como 2012 (ano em que se aprovou o novo código florestal). Essa dinâmica ficou mais evidente em 2013, com os protestos iniciados em junho, e só se amplificou desde então, com a Copa, a eleição de 2014, o processo que levou à derrubada de Dilma e a ofensiva, em estilo prussiano, de todo tipo de conservadorismo no Brasil desde então, incluindo a restauração oligárquica, a campanha contra artistas e universidades, o militarismo disseminado.

Note o contraste entre o espírito das pessoas nesse período e no período imediatamente anterior: do otimismo ao pessimismo, da inclusão social à guerra social, da possivelmente ilusória ascensão geopolítica do país à paralisia diplomática conformada, inapetente, incompetente. Não estou falando dos eventos objetivos, mas do espírito generalizado no país. É o mesmo tipo de contraste, mal comparando, entre a segunda metade da década de 70 e a primeira metade da década de 80. A diferença é que, quando o milagre econômico se revelou um engodo, que resultou em desastre completo, havia várias linhas de ideias novas para o país, que se consolidaram de um jeito ou de outro depois da redemocratização. Havia também o otimismo da sociedade civil que acreditava poder construir, uma vez restaurada a democracia, um país melhor em vários sentidos. Hoje, o que temos mais imediatamente disponível é esse bando de oligarcas e parasitas, enquanto a sociedade civil se sente soterrada, traída, desiludida, cansada.

Talvez seja assim porque as condições objetivas levam a isso. Daí entram dinâmicas de mais longo prazo que ajudam a explicar por que o momento é de tanto pessimismo. Não podemos, por exemplo, subestimar o peso da desindustrialização. Mesmo que a própria ideia de indústria hoje tenha que passar por uma profunda transformação perante o Antropoceno, nós, como país, tendo perdido a indústria como um todo, não vamos nem sequer estar em posição de passar por essa transformação. Ao contrário, somos dominados por negacionistas que fazem terra arrasada das florestas, entopem os rios com minério e nos contaminam com todo tipo de agrotóxico. Acontece que boa parte do otimismo do período anterior, sob Lula, veio das tentativas, bem ou mal dirigidas, de mitigar o efeito da perda de dinamismo que vem com a perda da indústria, e em menor grau de reverter essa perda, como no caso da volta da indústria naval, ou a expectativa de que o petróleofomentasse uma expansão do investimento, ou ainda iniciativas francamente criminosas, como a usina de Belo Monte. Eram paliativos, no fim das contas.

Não estou dizendo que fosse tudo ilusório: o marco civil da internet não foi nada ilusório, a criação de universidades tampouco, as políticas sociais menos ainda. Mas talvez nada disso fosse adiante sem que tivéssemos a impressão de que, no cômputo geral, o país estava indo na direção certa. Mas basta lembrar que em 2011 o dólar bateu em R$ 1,55 para entender que nesse tempo todo a economia continuava seu paulatino processo de retorno à exportação de produtos primários, processo que não enxergávamos tão bem por causa daqueles paliativos que mencionei.

Agora que essa ilusão se perdeu, temos os vampiros salivando para tomar de assalto e implodir o que resta de sociedade mais sofisticada, aberta e voltada para o futuro no Brasil. E nossas defesas contra eles estão enfraquecidas e mal abastecidas. Eles ignoraram solenemente nossa linha Maginot. Resta ver até onde vão conseguir chegar sem que a estrutura social entre em colapso ou sem que algum tipo de resposta seja levantado com força suficiente para resistir e, quem sabe, contra-atacar. Tenho medo de que o obscurantismo que a restauração oligárquica fomentou, e que vem instrumentalizando, acabe se voltando contra todos nós. Quem é mesmo o candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro?

IHU On-Line - Por que não é aconselhável pensar o futuro do Brasil apenas considerando o cenário que poderá se desenhar a partir das eleições deste ano?

Diego Viana - É claro que a eleição é um momento crucial e provoca modificações importantes, mas o que tenho visto, e me deixa um pouco preocupado, é que muita gente concentra todas as suas atenções no problema do que vai acontecer em outubro — principalmente pensando em evitar que aconteça o pior. Mas por mais que a eleição possa precipitar eventos, acelerar tendências ou freá-las, para tentar entender as próprias tendências é preciso pensar além das eleições. Afinal, se temos um crescimento de candidaturas extremistas, se temos um legislativo cada vez mais obscurantista, nada disso se explica por uma única eleição.

IHU On-Line - Quais são os fatores fundamentais que provavelmente podem ter alguma influência no futuro do Brasil a longo prazo?

Diego Viana - Considerando a degradação estrutural da economia (ou seja, para além de questões de curto prazo de recessão ou desemprego), parece haver uma tendência de intensificação de certos conflitos sociais, sobretudo por causa da reversão de alguns vetores que existiram nas últimas décadas, como a inclusão pelo consumo, a melhora de indicadores socioeconômicos, a transição de vastos contingentes de ocupações degradantes para outras mais reconhecidas. Tenho a impressão de que esses conflitos vão se dar em bases diferentes do que foram em décadas passadas, quando o país era mais rural, miserável, com regiões isoladas e grande migração interna, mas se industrializava e crescia aceleradamente. Talvez sejam conflitos mais agressivos, mais declarados, mas é difícil prever.

Em entrevista recente ao Le Monde DiplomatiqueMano Browncomenta que a juventude das periferias, hoje, tem mais consciência e orgulho de que possuem um lugar que é deles, e têm direito àquele lugar do mesmo modo que os bairros centrais, ditos “nobres”. Mas o Estado e quem o controla (é preciso acrescentar isso porque muita gente hoje parte do pressuposto de que o Estado é algo que cai do céu) não estão preparados ou interessados em atender a essas demandas. Veja a diferença: há algumas décadas, esses mesmos bairros eram lugares onde as pessoas se instalavam porque não tinham opção e estavam dispostas a aceitar qualquer coisa. Com o poder público anêmico que se anuncia, somado à falta de empregos que correspondam à formação um pouco melhor que a população recebeu na última década, a insatisfação tende a aumentar, mas o Estado oligárquico tende a cada vez mais só saber responder a ela com repressão, inclusive terceirizada: as milícias do Riotalvez sejam só um aperitivo.

Reestruturação de forças da esquerda

Do ponto de vista político, nos próximos anos parece que a vitória vai estar nas mãos das respostas mais fáceis, como os candidatos do bangue-bangue, os políticos ligados às igrejas mais eficientes em penetrar nos bairros e comunidades mais desamparados, e em menor escala nessa curiosa figura do populista-capitalista que busca convencer todo trabalhador precário de que na verdade é um empreendedor prestes a ficar rico — se bem que a primeira tentativa nessa direção resultou em fracasso completo, ao conquistar a prefeitura de São Paulo.

Ao mesmo tempo, parece que a reconstrução de forças de esquerda é um processo bem mais paulatino, e vai resultar em algo bem diferente do que foi no último século. Os movimentos que têm surgido parecem mais enraizados nos bairros, parecem emergir mais diretamente da experiência de vida das pessoas, e menos de grupos estruturados que vão buscá-los. A referência não está mais tanto na relação de trabalho, mais especificamente de trabalho assalariado, mas na vida como um todo — até porque a tendência é que a subsunção ao capital se expanda para a vida como um todo. Tudo isso exige novas ideias, que aos poucos vão sendo criadas, testadas, desenvolvidas. Leva tempo; só espero que não sejamos atropelados no intervalo.

E é claro que o setor externo vai ter um papel importantíssimo também: parte desse pífio crescimento do ano passado veio da recuperação das exportações, particularmente do preço de algumas commodities e de automóveis para os vizinhos. Se isto também se perder, os conflitospodem se acirrar ainda mais. Entre os motivos possíveis para que isso se perca aparecem, claro, o sr. Donald Trump, mas também uma possível nova recessão global, que vem sendo prevista timidamente por alguns economistas e analistas financeiros.

E é sempre bom mencionar que todas essas estimativas podem ir por água abaixo de uma hora para a outra, bastando que um evento imprevisto mude completamente o quadro geopolítico; acrescentei esse detalhe pelo simples fato de que, como a ordem financeira das últimas décadas está persistindo em modo morto-vivo, qualquer pequeno desequilíbrio pode ser desastroso. Desde uma transformação política na Europa até um conflito deflagrado contra a Rússia, ou mesmo uma mudança abrupta na estratégia da China.

IHU On-Line - O que a indefinição do quadro eleitoral deste ano demonstra sobre a política brasileira?

Diego Viana - A primeira coisa é o que já vem sendo dito por muita gente: aquela estrutura previsível das candidaturas que se estabeleceu ao longo da década de 90, com disputas sobretudo entre PT e PSDB, ruiu, de modo que está instalado um campo de indefinição, para que se crie uma nova estrutura, como foi em 1989. Talvez o que vou dizer agora peque por ser um olhar retrospectivo de alguém que era muito pequeno na época, mas me parece que em 1989, ao menos, havia uma clareza bem maior sobre o que representavam os muitos candidatos em termos de propostas de país, isto é, de respostas explícitas para as perguntas do presente. Quem votasse em BrizolaLulaCovasMaluf ou Ulysses sabia bem o que esperar desses candidatos, e para que direção sua eventual vitória levaria — exceto, talvez, Collor; e talvez seja por isso que ele teve 30% dos votos no primeiro turno, bem à frente de Lula (17%) e Brizola(16%).

Como eu disse, talvez eu esteja sendo nostálgico e ingênuo; mas me parece evidente que, hoje, nenhum dos candidatos representa uma proposta estruturada para o que vai ser o Brasil nas próximas décadas, ou melhor, perante as próximas décadas. Bolsonaro é uma aventura irresponsável, Lula é uma tentativa de juntar os cacos, Alckmin foi um governador sem ideias e seria um presidente sem ideias, Boulos tem o mérito da coordenação dos sem-teto, uma liderança de esquerda que emerge desses novos movimentos; mas não parece ir muito além, pelo que demonstram suas declarações.

Mas até isso é compreensível: como apresentar ideias novas e concretas num cenário de tanta incerteza? Seria necessária uma daquelas lideranças políticas realmente notáveis, mas essas estão em falta. Aliás, nisso não estamos sozinhos: na política global, faltam grandes vozes, que abram novas perspectivas; talvez seja porque os ouvidos andam atrofiados demais e não estejamos nem capacitados a imaginar que pode haver novas perspectivas. (É claro que há exceções, como Corbyn.)

IHU On-Line - O que você compreende pelo uso do termo “restauração oligárquica”? Quais são os indicativos de que pode haver restauração oligárquica no país?

Nunca houve remoção das oligarquias. Em maior ou menor grau, as oligarquias sempre participaram do poder e muito de perto

Diego Viana - Este é um termo aproximativo que tem sido usado por algumas pessoas e que me parece útil para pensar algumas dinâmicas do país. Aproximativo porque nunca houve remoção das oligarquias, é claro: em maior ou menor grau, as oligarquias sempre participaram do poder e muito de perto. Então como restaurá-las? Mas é certo que este é um momento em que os grupos mais tradicionalmente encastelados no poder e que dominam grande parte da economia estão em alta, recuperando o pouco de terreno que eventualmente tenham perdido para processos decisórios mais institucionais e democráticos.

Por oligarquias, geralmente nos referimos a segmentos que controlam setores da economia com muito pouca abertura para a competição e uma proximidade muito grande com o Estado, que lhes confere benefícios; graças a essa proximidade, esses mesmos setores controlam também muito da vida social. Pense, por exemplo, nessa expressão que tanto ouvimos no Brasil: "quem manda aqui é fulano"; ou a ideia de que o prefeito "manda na cidade", que o governador "manda no Estado" e assim por diante. Institucionalmente, essas expressões são absurdas, mas na prática... É que as oligarquias implicam um modo de exercício do poder voltado para interesses privados, patrimoniais, muitas vezes até dinásticos; não à toa, um país de estrutura oligárquica como o Brasildepende de uma burocracia ineficiente e com remuneração exorbitante, que possa se sentir parte das mesmas elites que oficialmente deveriam vigiar. Toda a controvérsia em torno do auxílio-moradia do Judiciário, por exemplo, gira em torno dessa relação promíscua entre o estamento e o oligarca.

Fenômenos como o novo código florestal (2012), a revisão do código de mineração, o amolecimento do licenciamento ambiental, o esforço de passar reformas econômicas apressadamente, sem debate com a sociedade civil — mas sem tocar na estrutura tributária regressiva, tudo isso são sinais de poder oligárquico. A promiscuidade entre juízes e réus, que tanto nos tem revoltado nos últimos anos, também. Ora, com o enfraquecimento dos meios que a sociedade civil possui para contrabalançar o poder oligárquico — e aqui me refiro a partidos mais orgânicos, sindicatos, movimentos sociais, imprensa livre etc. —, esses grupos poderosos podem retomar o controle praticamente integral do aparato de poder e até mesmo sufocar tudo que parecia lhes ameaçar. Pense no que aconteceu com o Ministério Público sob Temer, por exemplo. Mas essa retomada se reflete também em instâncias menos evidentes: o empobrecimento da universidade favorece as oligarquias, o sucateamento das escolas e do transporte público (direito à cidade) idem, e assim por diante.

IHU On-Line - Por que você considera que o Antropoceno, a automação e a transformação da relação entre capital e trabalho do ponto de vista político são os problemas centrais que merecem atenção nos dias de hoje? Como todas essas questões estão inter-relacionadas?

Diego Viana - Esses três conceitos juntos resumem bem a ideia de que o modo de organização do mundo humano, nos últimos séculos, está chegando em seus limites. O Antropoceno, com tudo que o cerca, da mudança climática à perda de biodiversidade, passando por aquilo que Saskia Sassen chama de terras mortas e águas mortas, demonstra que o sistema massivo de extração de matérias-primas para processá-las e transportá-las com grande gasto de energia, incentivando um consumo intensivo que gera lixo, muitas vezes tóxico, em nome da acumulação de recursos monetários, não tem condições de se perpetuar.

Automação

automação sugere que toda a estrutura de ocupações está para ser abalada, para além da mera substituição de mão de obra menos qualificada por máquinas; a tal ponto que podemos nos perguntar o que é que pode estar além da produção tal como a entendemos. Pense, por exemplo, no movimento maker: será que não existe aí um germe de imaginação para estimular a prática e a criação, os gestos técnicos que caracterizam o humano, para além desse circuito de mercadorias, consumo, resíduo? Pense também em práticas de permacultura, que implicam uma relação entre o produtor agrícola e a vida que o cerca, em comparação com o produtivismo asfixiante da agricultura em larga escala tradicional — que empobrece a vida como um todo, como vem demonstrando Vandana Shiva há décadas.

Por fim, o que parece estar mais próximo, e bastante conectado com a automação, é a mudança da relação entre capital e trabalho, o que deixado por si só provavelmente implica um novo regime de acumulação, provavelmente mais cruel que os anteriores. O capitalismo de plataforma simbolizado por empresas como Uber, AirbnbFacebookAmazon etc. leva às últimas consequências uma das noções mais cruéis da doutrina econômica atual: a de "capital humano". Ou seja, a ideia de que suas habilidades, seus conhecimentos, sua potência, são meios para produzir renda. Ao mesmo tempo, essas empresas revelam que o que define a exploração é o controle de acessos e conexões, mais do que propriamente a propriedade dos meios de produção: assim, hoje um motorista de Uber é o dono (ou locatário) do carro que usa, a Amazoncontrola boa parte do mercado editorial simplesmente como intermediária. Os ganhos dessas empresas são lucros apenas no sentido contábil, porque conceitualmente são renda, já que elas extraem tarifas das relações que intermedeiam: são como tarifas de corretagem. Aliás, mesmo grandes montadoras, para usar um exemplo da economia industrial, funcionam à base de inúmeras empresas terceirizadas, que obedecem aos planos apresentados pela central.

Assim, por um lado vemos que arregimentar as pessoas sob a bandeira do trabalho se tornou mais difícil, uma vez que elas passaram a se considerar como capitalistas. Por outro lado, as capacidades, habilidades, conhecimentos, potenciais humanos não podem ser reduzidos à categoria de capital voltado a maiores rendimentos salariais: esta redução deixa de fora muita capacidade técnica, criativa, inventiva, que pode e deve ser canalizada para finalidades mais fecundas do que meramente servir à acumulação. Vemos também que mesmo o tipo de relação que uma empresa como a Volkswagen, por exemplo, tem com sua cadeia produtiva começa a deixar de ser o mais avançado e eficiente possível, uma vez que novos métodos de produção, seja pela automação, seja por uma generalização do movimento maker, da permacultura e iniciativas semelhantes, permitem pensar mais de perto o que são os anseios técnicos das pessoas, comunidades, sociedades.

Tudo isso se torna mais urgente quando o imperativo financeiro da acumulação contemporânea se mostra suicida, principalmente por meio do Antropoceno. Juntando as peças, começamos a vislumbrar uma obsolescência do capitalismo. O lado bom de as pessoas deixarem de se ver como trabalhadoras é que elas dão um passo para fora da aparente necessidade de relacionar-se com o capital por meio da venda da força de trabalho. Elas podem pensar fora do paradigma do trabalho como um todo e começar a agir em nome de concepções mais completas do que é a vida, do que são as possibilidades da criatividade, da inventividade, que carregamos conosco. É um desafio ético e político enorme, mas que pode ganhar corpo na medida da evolução dos eventos e das crises.

IHU On-Line - Por que o manifesto "Unidade para Reconstruir o Brasil", apresentado por cinco partidos de esquerda em fevereiro, PT, PDT, PSOL, PSB e PCdoB, demonstra, na sua avaliação, a incapacidade deles de expressar os problemas que de fato deverão ser enfrentados no país daqui para frente?

Diego Viana - Em dez páginas, o manifesto descreve razoavelmente bem a lógica econômica que triunfou nas últimas décadas e hoje encontra seus limites, tentando se manter à tona apesar do caráter cada vez mais fictício ou simplesmente parasitário de seus ganhos. Mas a solução que o manifesto apresenta é um retorno ao modo de desenvolvimento que vicejou no século XX, com a industrialização amparada por Estadosnacionais. Ora, esse é justamente o regime de acumulação sobre o qual o neoliberalismo triunfou a partir de fins dos anos 70, com o agravante de que hoje já existe todo um sistema geopolítico montado para garantir que tentativas como essas não vão adiante, quando ocorrem isoladamente, neste ou naquele país — por sinal, este é um perigo que pode prejudicar muito alguém como Jeremy Corbyn, se eventualmente chegar a primeiro-ministro no Reino Unido.

Nova etapa

Se a renda básica universal for mesmo um caminho para o futuro, por que não propor um modelo que seja promotor de paz e estabilidade social?

Além disso, a crise do atual regime de acumulação significa que se passará a uma outra etapa, e os indícios são esses que estão diante dos nossos olhos: capitalismo de plataformaautomaçãotransição energéticacrise ambiental. Se, usando os termos do manifesto, queremos mesmo evitar que o país seja submetido integralmente a uma ordem neocolonial (como parece ser a tendência, a seguir no rumo atual), não vai ser pela tentativa de implantar sistemas já derrotados historicamente, mas pela capacidade de entrar na próxima fase em situação favorável, ser capaz de propor os caminhos a seguir. Por exemplo, o Brasil é privilegiado em termos de biodiversidade, cobertura vegetal, acesso à água doce, energias renováveis — e também diversidade étnica e cultural, a propósito. Por que não enfatizar a luta para que a relação econômica com esse privilégio seja saudável, fecunda e benéfica para todos, em vez de enfatizar a agropecuária e a exploração do petróleo? Este é o argumento dos oligarcas, justamente aqueles que precisamos combater.

Outro exemplo: o Brasil experimentou com sucesso iniciativas de transferência de renda. Se a renda básica universal for mesmo um caminho para o futuro, por que não propor um modelo que seja promotor de paz e estabilidade social, criatividade, invenção, um modelo que potencialize a riqueza propriamente humana, em vez de buscar um retorno às sociedades salariais do último século, dependentes da relação entre grande empresa, governo e centrais sindicais? E por aí vai.

IHU On-Line - Você diz que antes de pensarmos na reinvenção da política, é preciso compreender o que há efetivamente para reinventar. O que seria na sua avaliação?

Diego Viana - Eu diria que a questão, no que concerne à reinvenção da política, está mais para o entendimento do que seria realmente reinventar a política do que nas etapas dessa reflexão. Afinal, o que temos visto ultimamente com o nome de "reinvenção da política" é a ideia de rejuvenescê-la, moralizá-la e assim por diante. Ora, moralizar a política é uma expressão um pouco vazia, já que podemos encontrar esse desejo nos historiadores da República romana e em todas as épocas desde então. Infelizmente, a política trabalha com os maiores recônditos do desejo, manifestos na vida humana coletiva, e não há um golpe de mestre ou de força que seja capaz de selecionar subitamente só aqueles que são mais morais, admiráveis ou o que for.

Assim, se é para reinventar a política, é para reinventar a fundo: o que é a política em tempos pós-neoliberais, depois da derrocada das sociedades salariais e dos movimentos de massa do século XX, depois do esvaziamento dos partidos tradicionais? O que é a política quando não basta mais pensar simplesmente em comunidades humanas delimitadas por fronteiras geográficas, mas precisamos incluir aí diferentes culturas, diferentes formas de vida e o sistema em geral de sustentação da vida no planeta? É uma pergunta bem difícil.

extrema-direita tem dado sua resposta de sempre: repressão, obscurantismo e manipulação da informação. Infelizmente, tem ido razoavelmente bem e parece tender a ir melhor ainda. A direita não tão extrema tem tentado transformar a política em caso particular da gestão empresarial, talvez sem perceber que a gestão empresarial não é, nem se propõe a ser democrática. A esquerda tem vindo com algumas ideias nos últimos anos, como as ocupações do espaço público, os mandatos coletivos, os coletivos de ação direta e assim por diante. Mas a escala ainda está aquém do que será necessário nas próximas décadas. Infelizmente, os eventos estão se precipitando e tudo está se tornando mais urgente.

IHU On-Line - Por que você vê na “superação do paradigma do trabalho como categoria por excelência da prática humana” a possibilidade para fomentar a reinvenção da política? Em que e por que a transformação da relação capital-trabalho poderia gerar alguma modificação na política?

Diego Viana - O ser humano é criador, inventivo, múltiplo, curioso, apaixonado. Digo isso sem qualquer forma de romantismo: há quem proponha substituir a ideia de ser humano entendido como egoísta e ganancioso pela de ser humano generoso e comunitário, mas não é o meu caso. O que quero ressaltar é que o ser humano é capaz de inventar muitas formas de vida em que manuseia sua criatividade, seus anseios, seus potenciais, e isso que entendemos por trabalho é só uma delas. O trabalho, como vem sendo entendido há alguns séculos, pelo menos, é a atividade reduzida a uma única dimensão, uma única lógica, e submetida a alguma forma de comando (quem disse isso pela primeira vez foi Adam Smith, para quem o dinheiro mede a quantidade de trabalho que se pode comandar). É claro que esse comando pode ser simplesmente a busca por prestígio ao ganhar mais e mais dinheiro, mas deixemos isso de lado, e vamos falar só do trabalho efetivamente comandado: o emprego, o contrato. Quando Stanley Jevons foi criar seu sistema microeconômico, cunhou a ideia de uma “desutilidade do trabalho”, ou seja, o trabalho como sendo algo intrinsecamente indesejável, que só se faz em troca de dinheiro. Onde vai parar o desejável? Ora, no consumo, que tem utilidade positiva...

Em tempo: veja como para chegar a essa conclusão é necessário cindir em duas a atividade quotidiana (isso para não falar em outras formas de atividade, como o lazer ou o estudo). Como vem argumentando há décadas o movimento feminista, do outro lado dessa desutilidade do trabalho encontramos o trabalho doméstico, com duas características: é supostamente feito por amor, portanto não tem desutilidade, mas utilidade, e não é pago. A esse respeito, recomendo a obra de Nancy Fraser e também os estudos de Viviana Zelizer sobre a distribuição doméstica da renda na era pré-1930 do capitalismo americano. Esta cisão é exemplar porque não é simplesmente a regra de três entre amor/não-remuneração e desutilidade/remuneração, mas também o fato de que o conjunto das possibilidades humanas é reduzido a essa dicotomia tão radical. Cria-se uma esfera do agir vinculada ao amor e, portanto, ao desejo, que é completamente excluída da esfera propriamente social do agir, que é indesejável, mas socialmente recompensada com o pagamento.

Este abismo representa, além de tudo que as autoras citadas já disseram, também a invenção de um abismo bem no meio da miríade de possibilidades para a prática humana, seu desejo na medida em que seja um desejo de criar, produzir, inventar modos de vida, que são modos sempre relacionais, comuns. Este abismo, que gira em torno da noção de trabalho, é a nossa cegueira. A prática, a atividade, pode envolver muito amor, muito desejo; não é simplesmente “encontrar um trabalho de que você goste”, mas reconhecer que ao agir e criar você está se constituindo e constituindo seu mundo, ao passo que ao simplesmente “encontrar um trabalho” você está aceitando que alguém já constituiu o seu mundo e só está te agraciando com a possibilidade de encontrar satisfação nele. É muito empobrecedor.

Acredito que os movimentos operários do século XIX tinham uma percepção melhor desse abismo do que nós, hoje. Talvez porque estivessem mais conscientes da ruptura violenta que foi a expulsão de grandes contingentes do campo, ou seja, da relação com a terra e as formas de vida que a habitam. Uma das ideias do que viria a ser o socialismo que encontramos no jovem Marx é a de caçar de manhã, pescar à tarde, cuidar do gado à noite e depois “fazer crítica”, sem ser completamente absorvido em nenhuma dessas coisas. É interessante ver como os exemplos desse intelectual revolucionário tão urbano são quase todos de atividades campestres — exceto a parte filosófica... Isso dá o que pensar. No mínimo, temos aí a ideia de uma saída do paradigma do trabalho, mas também uma certa nostalgia pela relação mais direta com o mundo, com o material da nossa existência; não que para ter essa relação seja necessário voltar à vida campestre, no estilo de Thoreau. Seria antes preciso reconhecer a construção das cidades como uma atividade material, uma relação com a natureza que poderia muito bem ser saudável e não alienante, bastando que considerássemos nossa prática assim.

Aliás, os socialistas do século XIX tinham bastante consciência dessas cisões artificiais da vida, como na célebre bandeira das oito horas de trabalho, oito de descanso e oito de lazer. Poderíamos começar, então, propondo outras divisões do tempo, em que o trabalho fosse reduzido à metade e se introduzissem coisas como o cultivar-se, o engajamento nas decisões do coletivo (leia-se: política) e assim por diante. Tudo isso está ao alcance, basta aceitar que é possível, necessário e desejável. A partir daí, pode-se propor todo tipo de transformação. Os humanos somos, como eu disse, criativos, apaixonados etc. Mais absurdo que a utopia é achar que o único topos é esse, inviável e empobrecedor, em que nos encontramos.

IHU On-Line - Por que a reinvenção da política também depende de uma dimensão ética e de outra política, no sentido de vida em comum?

Diego Viana - Na verdade, acho importante recuperar a noção de que, em última instância, a perspectiva ética e a política são uma só dimensão, se pensarmos em termos de prática, atividade humana. Por exemplo, a expressão “ética de trabalho” (funciona melhor em inglês: work ethic) expressa um modo de juízo e também uma injunção sobre o comportamento individual, mas remete à expectativa do modo de ordenamento das práticas, atividades, comportamentos como um todo. Assim, quem tem “work ethic” tem prestígio, é um membro honrado da configuração social tal como está determinada, e que por sua vez é uma determinação de sociedade de trabalho (e investimento, lucro, renda etc.).

Nosso problema atual é que esse mesmo princípio que sustenta a “work ethic” e a política do crescimento (ou seja, da expansão da atividade econômica definida junto com a “work ethic”) não dá mais conta do problema. Os princípios da atividade, individual como coletiva, ética como política, estão minando as próprias condições da atividade e estão se revelando antiéticos e antipolíticos, na medida em que, primeiro, introduzimos na equação responsabilidades perante entes que não são humanos (e mesmo muitos entes humanos, que sempre foram deixados à margem dessa ética e dessa política); e segundo, que conduz a humanidade a estar aquém, e não além, de seus melhores potenciais. Nada nos obriga a aceitar que o melhor que pode o humano é se esgotar no trabalho, perder toda a sensibilidade ética e estética (como denunciou Adam Smith ainda no século XVIII), viciar-se em opioides, antidepressivos e álcool e ainda por cima transformar um planeta tão vicejante em depósito de lixo. Na verdade, não sei como alguém se dispõe a aceitar isso.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Diego Viana - Recebi a notícia do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, do PSOL, logo depois de enviar as respostas acima. Como todo mundo que tem um mínimo de decência, fiquei muito abalado e apavorado. Esta execução mostra que atravessamos um limiar. Não há mais limites para o domínio da truculência criminosa sobre a vida pública no Brasil. Voltando à pergunta sobre as eleições: temo que não haja muito que elas possam fazer para reverter esse processo, sobretudo porque grupos de poder muitas vezes vinculados ao crime (no sentido estrito) conseguem influenciar fortemente as votações, têm penetração em grotões e dinheiro para investir.

Por outro lado, também podemos pensar nessa execução a partir de outra coisa que falei acima: a tendência ao recrudescimento de conflitos sociais. Afinal, nos últimos anos um razoável contingente de pessoas negras, pobres, moradoras da periferia, conseguiu chegar à universidade, de um jeito que não acontecia até poucas décadas atrás. A tendência é que haja cada vez mais Marielles, na política e na sociedade; a resposta imediata provavelmente é uma expansão da pistolagem e da brutalidade. Por esse prisma, apesar de um curto prazo assustador, no longo prazo dá para ter otimismo.



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