Política

O ressurgir dos espíritos livres: uma homenagem a Marighella

02/11/2009 00:00

Carlos Russo Junior

A geração que passou para a história como a “Geração dos Anos Sessenta”, talvez tenha marcado a última vez em que os espíritos livres surgiram em grandes grupos na face da Terra, um fenômeno especial e tão tumultuoso que influenciou até mesmo a própria natureza.

Os elementos se agitaram e os mares se elevaram sob influxos lunares descomunais, os céus foram cortados por raios e estrondos; para um observador é como se as portas de comunicação que unem nosso mundo terreno com o celestial e o subterrâneo, de repente, tivessem se aberto de par em par.

A crosta social sobre a qual sempre o homem pisou de modo tão seguro já se afigurara incerta, e gretas e chamas dela se ergueram. “Tudo que era sólido se desmancha no ar”. Os arautos da natura prenunciando o surgimento do novo.

Foram eles a anteciparem a coexistência do divino e maravilhoso com o pérfido e o demoníaco, do criativo com o conservador, do revolucionário com a reação às previsíveis mudanças.

É quando, então, os grilhões que acorrentavam, aparentemente para sempre os espíritos uns aos outros, e estes à rotina sempre vivida, selada que era aos preconceitos, às infindáveis culpas companheiras de jornada do velho e antigo pecado, romperam-se com estrondo e os espíritos tornando-se livres das amarras começaram aqui e ali a surgirem, a contaminarem outros acorrentados, a incentivarem o rompimento de outras amarras. E até mesmo a velha e querida Gaia Terra sabia que jamais voltaria a ser a mesma após tão sublimes e profundos momentos históricos de arrebatamento, de ruptura, de coragem, de dor e de criação.

Se eu falo dos Anos Sessenta, não posso deixar de ressaltar que estes momentos, com a intensidade devida a cada realidade específica, já ocorreram em diversos cenários na história da humanidade; alguns deles duraram períodos mais longos como o despertar dos espíritos livres do Renascimento; outros foram mais rápidos, e, em compensação a chama acesa brilhou com muito mais intensidade, como em 1789, na Grande Revolução Francesa, em 1848, durante a Comuna de Paris, em 1917, na Rússia libertária. São estes os momentos que tornam a presença do homem sobre a terra justificável, que empurram o niilismo para trás da cortina da vida, que transformam um mundo sem sentido em um universo em si e para si, uma aventura que valha a pena ser vivida.

Sempre que os espíritos ousaram se libertar eles assumiram a responsabilidade de mudar o mundo e sob sua ação nada mais permaneceu como era antes. Nem mesmo é importante o fato de que o sentido destas mudanças tenha se perdido ou se desvirtuado no seu próprio processo de vida, que os ideais revolucionários tenham sido substituídos pelo bem-estar pessoal e pelo espírito dos burocratas; o mais importante, o que definitivamente conta é que os espíritos livres fizeram a História da Humanidade e nela escreveram as linhas mais belas, as mais humanas, demasiadamente humanas.

Porque quando a jovem alma se liberta ela rasga o seu véu nauseante da rotina, arrebata e é ao mesmo tempo arrebatada e, talvez, seja por isso que ela mesma não compreenda muito bem toda a extensão do que se passa no momento dos seus atos. Um impulso, um ímpeto se torna senhor de sua ação, despertando um desejo de ir avante, seja para onde for a qualquer preço; uma jamais suspeitada, mas impetuosa e perigosa curiosidade, uma busca por um mundo inexplorado se inflama e crepita em todos os sentidos. “Antes a morte que a vida mesquinha de antes”- assim soa a voz imperiosa da sedução a negar tudo o que se havia amado até então!

Entroniza-se nos espíritos um súbito pavor e premonição contra o que antes era o antigo e como num relampejar surge o desprezo por tudo aquilo que os espíritos ainda agrilhoados consideravam “ser” e “dever”. O espírito liberto sorve, então, da fonte preciosa de uma nova criatividade antes insuspeitada; sente nas entranhas um desejo tumultuoso, arbitrário mesmo, vulcânico de andança e de negação de tudo que não acompanhe a sua própria mutação; seu ódio a tudo o que represente o antigo transforma-o em um iconoclasta e ele caminha destruindo até mesmo os seus próprios mitos e imagens.

Somente, então, que aqueles que ousaram e tiveram a ventura de serem penetrados pela liberdade do espírito, puderam sentir um regozijo, um arrepio de bêbado que se apaixonou pelo perigo e dele retirou o orgasmo que lhe deu toda uma nova vida e o prenúncio de vitória sobre uma sociedade esclerosada e dormente com seus ópios e opróbrios.

O espírito livre sorri conscientemente, mas que não se espere deste sorriso nada de angelical, pois ao libertar-se ele livrar-se-á de seu halo de inocência o qual, ao cair, se dissolveu no pó de um tempo já denominado passado. O sorriso do espírito livre tem um misto de maldade e malícia, e será a sorrir que ele irá revirar tudo o que estava encoberto e, desnudando-se, principia o grande ensaio de entender como seriam todos os conceitos da vida virados simplesmente “no avesso do avesso, do avesso, do avesso”.

Os espíritos livres e fortes foram os que obrigaram a natureza humana aos maiores progressos - eles reascenderam paixões adormecidas- aquelas mesmas que as sociedades repressoras as fazeram esquecer; despertaram o espírito das contradições, o gosto pelo risco, pelo inusitado.

Muitas vezes, os espíritos como os de Galileu Galilei, Danton, Marx, Lênin, Che Guevara, Marighella derrubaram marcos de fronteiras, violaram crenças e criaram novas morais. Para muitos espíritos que permaneceram agrilhoados eles abriram as portas para o mal, mas que importa isto para a história? Se de qualquer forma, o novo é sempre visto como o mal, pois é o que quer conquistar, aquele que deseja destruir antigas crenças, aquele que anseia criar novas ordens.

Os homens ditos de “ Bem” de todos os tempos nada criam, apenas aprofundam velhas idéias. A natureza de todos eles é vulgar, pois nunca perde de vista o seu benefício próprio, quer na sociedade capitalista ou no dito socialismo real, aquilo a que se de o nome de lucro, influência ou poder.

Mas os libertos, quando surgem, instituem-se em seu próprio e único árbitro - não mais aceitam nenhum valor, nenhuma moral que lhe seja imposta- e sua curiosidade esgueira-se para tudo o que sempre fora um dogma, para tudo o que antes lhes era proibido.

No fundo de sua agitação, o espírito livre é errante, intranqüilo, indomável e não segue um rumo pré-determinado. A história, ele a quer toda reescrever a seu modo.

E, então, ocorre um momento crucial: quando o espírito já negou os valores da sociedade em que vive, por serem falsos, ele vai mais além e, no limite de sua própria existência, coloca em cheque até mesmo os novos valores adquiridos. E isto ele o faz dialogicamente, numa seqüência de negar a realidade, negar a negativa, buscar uma síntese que, por sua vez, também será questionada.

E neste eterno questionar, os espíritos se perguntam: se todos nós temos sido sempre enganados, por que um dia não nos tornaremos também enganadores de outros espíritos que desejarão se libertarem?

Que sublime este instante! É quando os espíritos livres conseguem intuir a esclerose e morte de grande parte deles mesmos, pois sabem que, ao seu tempo, ela ocorrerá. Isto, somente um espírito realmente liberto pode intuir, pois ele banhou-se no templo purificador das águas primordiais da liberdade.

Ainda hoje, passados quarenta anos, quando fecho os olhos eu vejo aqueles espíritos livres surgirem nos momentos de explosão da Rua Maria Antônia, pressinto-os ao meu lado ao som do violão de um Vandré; é como se das barricadas erguidas nos Champs Eliseé eles ressurgissem; reconheço-os nos Panteras Negras americanos; farejo-os na resistência à Guerra do Vietnã, na presença de um homem-símbolo da decência humana: Bertand Russel; encontro-os nos movimentos hippies; sinto-me novamente participando das inúmeras reuniões no CRUSP, caminho lado-a-lado com Travassos na marcha dos 100 mil da Cinelândia; vejo-me atuando nas dezenas de organizações de contestação social- armadas ou não- que surgiram há 40 anos, frutos das mais saborosas e fecundas atuações dos espíritos livres de 1968, e de seus guias, de anteriores gerações, como Carlos Marighella.

Posteriormente, eu ainda os encontro, espalhados com a dignidade dos homens livres, pelos porões da Ditadura Militar e busco reencontrá-los nas covas sem nomes de tantos cemitérios clandestinos, onde seus maravilhosos corpos foram escondidos, mas o espírito não foi alquebrantado.

Saibam os que me lêem que até mesmo nos dias de hoje, de longe em longe, ainda me deparo com alguns deles, talvez apenas para demonstrar que nem todos se esclerosaram e morreram, mas que pena, já são tão poucos...

No entanto, a cada surgimento dos espíritos livres, jamais o mundo permaneceu o mesmo; e a história, que não se duvide, num futuro, que também ninguém sabe quando se dará, voltará a engravidar-se de novos e pungentes espíritos, daqueles que farão novamente a alma humana pulsar pela liberdade e rasgar as túnicas prostituídas de um passado medíocre, corrupto e corruptor.

E assim segue a história da humanidade, pontilhada de espíritos que fazem com que o mundo e a vida, que de outra forma nada mais seria que uma eterna luta animalesca pela exclusiva sobrevivência, ganhe sentido, torne-se, enfim, humana.

Que importa que experiências maravilhosas como a Revolução Soviética não tenham, ao final, conduzido os russos à felicidade utópica da sociedade comunista, da liberdade e da criação do homem novo? Que os Soviets tenham submergido na burocracia, abandonando os ideais libertários, instituindo uma ditadura em nome de uma classe social- que jamais teve poder direto, apenas o teve como representação? Que importa isto diante da pungente mudança instituída pelo povo em armas de 1917, quando o mesmo, sob a liderança de Lênin, assumiu nas próprias mãos o seu destino?

Demoramos ainda tanto a perceber que a história é movimento. A luta que parcela da geração dos 60 travou se constituiu em uma das páginas mais gloriosa dos tempos pós-guerra... O final feliz só existe nas estórias de Andersen. Não existe um final feliz na vida, nem no coletivo e nem no plano individual, pois afinal, ela sempre termina sob uma lápide. Absolutamente, nada na história da humanidade é pré-determinado e a previsibilidade é um vôo de baixa altitude.

A grande maioria daqueles que nos insurgimos, que buscamos nos anos sessenta destruir os grilhões que aprisionavam os espíritos, fomos cruelmente esmagados pela reação. Formou-se, de todo modo, uma geração de perseguidos, torturados, aprisionados, os melhores dentre nós, assassinados. E então, os esbirros dos porões da ditadura entoaram seus gritos de vitória. Mas, idiotas, enganaram-se a cada alma nobre que julgavam assassinar.

Porque, os espíritos livres de toda uma época, podem ser trucidados, mas não derrotados. Por terem existido, pautaram parcela da história da humanidade, deixaram o exemplo de rebeldia, sacudiram os preconceitos, descortinaram os caminhos para o retorno à democracia, denunciaram como criminosos aqueles que usurpam o poder que só pertence ao povo. Foram e sempre serão os arautos do amor e da solidariedade humana!

Que importa que tantos daqueles espíritos que um dia foram livres tenham se corrompido, se enredado nos benfazejos abraços da burocracia, transformando-se em simples celebridades?

Estes pobres espíritos, sim, assinaram em vida o próprio atestado de óbito e, afinal, que os mortos enterrem seus mortos..., mas o exemplo deixado pelos heróis libertários da humanidade sempre guiará aqueles que permanecem livres de espírito.

VIVA CARLOS MARIGHELLA, condutor e gerador de espíritos livres!

Carlos Russo Junior
Um Cidadão-Filósofo
NASCIDO EM RIBEIRÃO PRETO, 18/05/1949
Militante Político de 1960/1970, pertencente ao PCB, posteriormente DI e ALN.
Ex-Vice Presidente da UEE- 1968/1969
Preso Político de abril de 1970 a março de 1974
Exilado Político de 1974 a 1976
Estudante de Medicina da USP nos anos 60.
Posteriormente, em 1983, formei-me em Odontologia na USP
Profissionalmente sou Administrador de Empresas.
Fundador do Partido dos Trabalhadores do qual me defiliei


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