Política

O santo nome em vão

 

14/04/2019 11:49

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
No Brasil irrisível e sombrio dos dias que correm vale a pena rever com atenção um momento recente, pouco comentado, mas de forte conotação simbólica, enquanto tentamos todos, de todas as formas possíveis, explicar o pesadelo em que nos afundamos. Trata-se do registro de dois minutos da Christian Broadcasting Network, a poderosa rede evangélica cumulada de privilégios pelo governo Trump, gravado no dia 19 de março de 2019 em Washington, durante a visita de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos.

Em torno da grande mesa do salão de reuniões da Blair House, o palácio destinado a receber chefes de Estado em visita ao país, quatorze ou quinze homens circunspectos, de mãos dadas e cabeça baixa, protagonizam uma cerimônia em que Bolsonaro é o personagem central. Em volta dele, de seu filho Eduardo, do chanceler Ernesto Araújo e de Olavo de Carvalho, o ideólogo de linguagem chula que lhes serve de conselheiro intelectual, estão pastores, políticos locais e sobretudo executivos de grandes empresas como a do anfitrião, o fundador e presidente da CBN Pat Robertson. Reuniram-se em torno de negócios, fundamentalmente em torno da "ajuda humanitária" à Venezuela e o apoio à Israel expansionista do primeiro ministro Benjamin Netaniahu.

No vídeo eles rezam, pouco antes do encontro oficial de Bolsonaro com seu líder e mentor Donald Trump. "Que o Senhor o proteja e o use pelos muitos anos que virão", clama o tele-evangelista Robertson. "Que proteja este novo amigo e irmão, desta grande nação chamada Brasil."

Desde então, Jair Bolsonaro tem insistido na ideia de que sua eleição é um "milagre". Que não nasceu para ser presidente, mas para ser militar. Não importa sua estupidez e mediocridade mundialmente comentadas, sua incapacidade de articular corretamente um pensamento, sua amoralidade, sua desumanidade, sua absoluta falta de compaixão para com os homens e as mulheres que formam a maioria esmagadora da nação brasileira e para os quais ele não governa, e jamais governará.

Jair Bolsonaro pode tuitar "kkkkkkkkk" sobre toda e qualquer avaliação sobre os 100 dias de seu desgoverno efetivamente sob o domínio dos perversos - expressão tão bem captada pela jornalista e escritora Eliane Blum para definir o poder que emana de Brasília atualmente. Pode simular oposição e crítica, e disseminar a barbárie impunemente. O vídeo da CBN grita a evidência de que Bolsonaro é, definitivamente, uma peça de encaixe importante na estratégia de segurança nacional mais desconcertante e perigosa jamais construída na história contemporânea dos Estados Unidos, porque desenhada a partir de um império que está prestes a perder sua posição de centralidade num mundo que caminha inexoravelmente para uma nova era asiática.

De acordo com a nova doutrina, a extrema-direita americana encarnada por Trump ancora suas ideias no neopentecostalismo que atinge milhões de corações e mentes para justificar os movimentos radicais de sua política externa. Seus alvos atuais se concentram fundamentalmente no Irã, novamente submetido ao embargo de seus produtos petroleiros e à interdição global do uso do dólar americano. O outro alvo imediato está bem mais próximo de nós. Igualmente estrangulada pelas sanções, a Venezuela se encontra isolada, blindada do convívio de seus vizinhos sul-americanos pelo grupo de Lima e às portas de uma violenta Guerra civil e uma possível invasão.

Entre os porta-vozes mais ativos dessa estratégia se encontram o Secretário de Estado Mike Pompeo e o vice-presidente Mike Pence, a quem se pode atribuir parte do verniz de pensamento neopentecostal do presidente brasileiro, católico que se tornou crente evangélico com um batismo espetacular no Rio Jordão três dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais. Mike Pompeo, antigo dirigente da CIA que guarda um exemplar da bíblia aberto em seu gabinete, compareceu à posse de Bolsonaro e foi seu primeiro interlocutor internacional em Brasília. Pompeo vem semeando aos quatro ventos a analogia entre Donald Trump e a lendária Esther, a mulher da Judéia que, de acordo com o Velho Testamento, destaca-se no harém do rei pagão da Pérsia para se tornar rainha e salvar seu povo judeu do massacre.

A repórter investigativa Sarah Posner, autora do livro God’s Profits : Faith, Fraud, and the Republican Crusade for Values Voters (Os lucros de Deus : fé, fraude e a Cruzada Republicana pelos valores de seus eleitores), constata que a lenda de Esther vem sendo usada há algum tempo pelos cristãos sionistas evangélicos americanos que pregam a proximidade da chegada do Armagedon, a batalha final entre Deus e os homens que trará Cristo de volta à Terra. A personagem Esther já vestiu a figura do tea-party republicano Sarah Palin, candidata a vice presidente em 2008. Vestiu também o próprio ex-presidente George W. Bush em sua cruzada contra o Afganistão e o Iraque, na sequência dos atentados às Torres Gêmeas em setembro de 2001.

Em 2019, a personagem Esther encontra um ator aparentemente disposto a assumir o perigoso papel que exige uma marcha acelerada em direção ao Apocalipse. No centro do tabuleiro das guerras definitivas dos próximos anos se encontra o Irã, justamente a Pérsia de Esther, hoje grande potência do Oriente Médio, e é por causa dele que Trump acaba de reforçar seu apoio incondicional à Grande Israel projetada por Benjamin Netaniahu, defendendo a soberania israelense sobre as Colinas de Golan surrupiadas à Síria. No ritual da asfixia da economia iraniana, que ainda respira graças ao apoio da Rússia e da China, o Iraque acaba de ser advertido que deve escolher entre "o setor financeiro" americano e a Guarda Revolucionária Iraniana, fornecedora, de petróleo ao país.

Ao analisar a nova doutrina de segurança dos americanos divulgada em dezembro de 2017, o cientista político e economista José Luis Fiori retomou o mito da Torre de Babel para explicar como os Estados Unidos decidiram abdicar de sua "universalidade moral" e do projeto iluminista de "conversão" de todos os povos aos valores da razão e da ética ocidentais.

O mito da Torre de Babel conta a história de homens unidos por uma mesma linguagem e um mesmo sistema de valores que decidem conquistar o poder de Deus erguendo uma construção que imaginavam abalar a sua força. Deus reagiu decidindo dispersá-los, dando a diferentes grupos uma língua e um sistema de valores diferentes, para que não pudessem mais se entender e se fortalecer conjuntamente. Fiori usa a alegoria da Torre de Babel para explicar a síndrome de um país hegemônico no século XX que decide no século XXI abrir mão de sua condição de "guardião da ética internacional", e se assume como "povo escolhido", que opta pelo exercício unilateral de seu poder, promovendo ativamente a divisão e a dispersão de seus concorrentes e boicotando todos os tipos de blocos políticos e econômicos regionais, seja a União Europeia, o NAFTA, o BRICS ou a UNASUL.

Está claro que o vértice europeu dessa dispersão procura se apoiar não exatamente no evangelismo judaico-cristão, mas no conservadorismo católico europeu. O principal elo de ligação com o chamado "populismo soberanista" é Steve Bannon, o estrategista da campanha de Trump. Bannon anima simultaneamente o fluxo de projetos teóricos visando uma unificação da Cristandade no monastério medieval de Trisulti - um think tank do pensamento conservador encravado no topo de uma montanha próxima a Roma - e a fundação que criou em Bruxelas sob o nome de O Movimento, destinada a organizar diferentes formações da direita radical europeia e favorecer uma ocupação maciça de cadeiras em Strasburg com as eleições parlamentares de 26 de maio próximo. “O primeiro cara a cara entre o populismo e o partido de Davos”, segundo suas próprias palavras.

Na América do Sul, esta “síndrome de Babel” rompe com a escalada de autonomia de seus países em relação aos Estados Unidos, construída lentamente na primeira década do século XXI, e promove um “realinhamento” de retrocesso ao velho equilíbrio entre país central e vizinhança periférica dependente e subalterna. Jair Bolsonaro é a expressão mais forte dessa subserviência que tanta espanta o mundo com o périplo internacional que realizou nesses 100 dias de governo.

Bolsonaro foi escolhido e eleito porque talhado para dividir, espalhar a discórdia, fazer a guerra, matar ; porque é desprovido da universalidade moral, do humanismo iluminista, e da ética para a realização de fins que não devem justificar os meios. Faltam a Bolsonaro justamente as qualidades às quais a doutrina de segurança nacional americana parece claramente renunciar, em nome de um projeto de poder que exige dos vizinhos deste Ocidente a recuperação incondicional de cada pedaço do quintal que serve à ainda mais poderosa nação de um mundo distópico.

Ao repetir como mantra o versículo bíblico de João, "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" - Jair Bolsonaro, pela aberração, materializa a peça fundamental da engrenagem. Nela se encontra a chave de ignição dos regimes totalitários que disseminam mentiras permanentemente, até que, em nome de Deus, as mentiras mais absurdas se tornem verdade. Bolsonaro e seus patéticos ministros estão no poder justamente para realizar uma proclamada e tosca "releitura histórica", para provar que a terra é plana, que o mundo é dominado por uma "cultura marxista", que os nazistas eram de esquerda, que o Brasil não viveu um golpe de Estado em 1964 e que a ditadura não é uma ditadura.

Quando lançou Decadência, em 2017, um livro bem documentado e profético sobre a morte iminente da civilização judaico-cristã, o filósofo francês Michel Onfray disse que sua obra não era nem pessimista nem otimista. Classificou-a apenas como trágica, porque, no momento em que a humanidade se encontra, não é mais o caso de rir ou chorar, mas de tentar compreender. Não há pesadelo que dure eternamente, mas o caminho será longo e penoso, e vai exigir firmeza e obstinação daqueles que insistem em manter a consciência e os olhos abertos.

Dolores Vasconcellos é pós-doutoranda em Ciências Políticas

Conteúdo Relacionado