Política

O seqüestro das instituições brasileiras

 

14/02/2021 11:04

(Reprodução/bit.ly/2ZiW9mR)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/2ZiW9mR)

 
Nosso apego às relações primárias e familiares e nosso desprezo pelos vínculos formais e regras impessoais remonta às nossas origens históricas. No Brasil, não queremos ser cidadãos. Queremos ser filhos de fulano. Não admitimos o tratamento indiferenciado, como indivíduos; queremos ser reconhecidos como pessoas. Buscamos sempre contornar a lei, mas exigimos que nossos adversários a cumpram inapelavelmente.

A apropriação privada dos recursos do Estado e sua conversão em aparelho a serviço de interesses pessoais, ou seja, o patrimonialismo, encontram terreno fértil no Brasil. Não vemos problemas em nepotismos e nem na colonização de cargos públicos estratégicos por grupos diretamente interessados. O público é um anexo do privado. A perícia cede lugar à malícia.

Tal corrosão institucional se visualiza facilmente: obscurantistas e mal educados como ministros da Educação; um ecocida que passa sua boiada sobre o meio ambiente; uma ruralista à frente da agricultura nos envenena com seus mais de 500 agrotóxicos legalizados; uma evangélica fundamentalista cuida das mulheres e demais minorias com seu machismo e sua obsessão com a sexualidade alheia. Não nos esqueçamos do primeiro ministro da Saúde, lobista dos planos privados, a estender sua mão visível sobre o SUS. Um emissário do mercado financeiro dirige o ministério da economia. Um maluco, pária orgulhoso e antiglobalista (seja lá o que isso for), faz do Brasil vexame internacional nas relações exteriores. Um racista à frente da Fundação Palmares. Polícia federal convertida em guarda-costas particular da presidência e de seus filhos. A Procuradoria Geral da República a livrar a cara do empreendedor das rachadinhas. Um militar na Saúde dispensa maiores explicações.

E a novidade esperada: a independência do Banco Central. Significa que ele não deve ser mais passível de intervenções públicas, às quais respondem aos interesses econômicos dos cidadãos. Agora, passa às mãos de banqueiros. A diretoria do time escalou o juiz da partida.

Inclusive, falando em juízes que têm lado, vejam-se os novos vazamentos das tramóias nada republicanas de Moro, Dallagnol e seus comparsas. Absurdo, mas não surpreendente: a velha conversão das instâncias judiciais em arma de grupos dominantes. Para perseguição de adversários, para inviabilizar suas candidaturas em favor de outros e, assim, cavar-se uma vaga num ministério que seria trampolim para outra, no STF. Só no Brasil, mesmo.

O patrimonialismo é universal, indubitavelmente. No entanto, sua particularidade brasileira é a absoluta falta de controles institucionais a esta circulação de agentes entre o público o privado. Um estamento privilegiado ocupa livremente postos estratégicos, sem qualquer mediação pública, sem quaisquer dispositivos legais a prevenir conflito de interesses. Nossa especificidade é esta acomodação descarada de contradições nas entranhas estatais. O Brasil reafirma suas raízes, sua vocação colonial e sua sina de ser um negócio. Por aqui, é natural - e sempre foi - raposas gerirem o galinheiro.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia



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