Política

O significado de ser feliz coletivamente

Em 1988 Gilberta Acserald escreveu sobre maio de 68 para o livro 'Um Rio em 68', da Secretaria Municipal de Cultura da época. Trinta anos depois, ela fala do legado daquele período na educação dos filhos da sua geração e no que restou do espírito de luta, de crítica e solidariedade

09/05/2018 10:42

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1968: clímax de um processo que vinha se gestando, já prenunciando tempos graves de um fechamento ainda maior do regime e que a nossa paixão não permitia avaliar.

Lembro da tentativa de um modo de ser diferente: corajoso, criador. ‘’Estudante é para estudar’’, era um ditado repetido por aqueles que negavam o direito de pensar e atuar do cidadão. E, no entanto, como estudávamos os livros e a realidade cotidiana.

A sensação de poder criar era indizível, num espaço que não nos fora dado, mas que ousávamos conquistar.

Pensávamos uma sociedade sem desigualdades sociais no futuro, mas pensávamos desde então as questões imediatas: mais vagas para que a universidade fosse de todos; mais verbas para que houvesse espaço de criação de um saber nosso. (Escrito em 1988)

Coragem, solidariedade, a generosidade vividas naqueles tempos. O que ficou de herança desse espírito combativo de 68? Ela ficou um tanto comprometida porque a memória daquela época não foi apropriadamente transmitida, discutida, cultivada. Quando converso com alguns jovens sobre aqueles anos, muitos se surpreendem - o tema não faz parte da História que aprendem nas escolas.  Talvez, de alguma forma, aquele espírito combativo permaneça no imaginário coletivo.

A disposição de luta, acredito que seja inerente à experiência humana, mas não obrigatoriamente se transforma no desejo de mudar as condições da vida social e política como aconteceu em 1968.

Lembrar reflexivamente das experiências do passado fortalece as opções de ação no futuro. Mas a mídia prefere abrir espaço para os que afirmam que em 1968 “não houve uma luta por mudanças políticas e sociais; houve apenas uma luta para mudar os comportamentos”, o que é reduzir demais o tamanho do sonho que tivemos.

Em 67 e 68 eu morava na casa dos meus pais, no Rio de Janeiro e estudava na Faculdade de Letras da UFRJ. Estava no último ano com previsão de ter a graduação em Letras em novembro de 1968, tendo cumprido tanto as disciplinas e o estágio didático no

Colégio de Aplicação. Estudava literatura e o mundo. Na Faculdade de Letras, não havia tradicionalmente muita ligação com a política; mas os estudantes começaram a se mobilizar.

Minha militância estudantil começou ali, como representante da faculdade no Diretório Central dos Estudantes, órgão legal que tinha assento no Conselho Universitário da UFRJ. A partir de 68, minhas liberdades como cidadã, assim como de muitos outros companheiros foram sendo brutalmente tolhidas.

Sobre o fato de, eventualmente, ter se perdido, na pós-ditadura, na redemocratização, a energia dos jovens daquela época, penso que não dá para falar dos jovens em geral. Energia, os jovens têm de sobra, mas não obrigatoriamente na direção de construir um mundo melhor, sem desigualdade e com justiça. Alguns jovens pobres, não brancos e moradores de periferia, sem nenhuma perspectiva de futuro em meio à miséria, e sem reconhecimento como cidadãos de direitos constituídos, optam pelo sinistro comércio ilícito de drogas e são assassinados.

Outros, mesmo trabalhando, são ditos “confundidos com traficantes” e também são mortos pela polícia. É toda uma geração que desaparece nessa espiral de violência.

Outros ainda, jovens de classe média, inebriados pela tecnologia e pelo consumo, se tornam verdadeiros “cavalos de corrida”, ardorosos defensores do status quo – “se está bom para mim, que o mundo siga igual”.

E outros, finalmente, olham o mundo de hoje e o vêm tão diferente daquele que fora sonhado nas lutas da geração anterior, e buscam inspiração nas experiências do passado, alternativas para construir um futuro solidário, com um ardor semelhante ao daquela época.

Não é possível falar dos filhos dessa “geração de 68’’ em geral. Alguns de nós, quando se tornaram pais mudaram, se acomodaram  e educaram seus filhos na busca do sucesso sem pensar nos demais. Mas há sempre a possibilidade desses filhos se redescobrirem de outra forma e se reinventarem.

Outros pais se mantiveram críticos e continuaram cada um na sua área, ao seu modo, nas suas lutas; e seus filhos, eventualmente, poderão compreender, se identificar, criar e recriar suas próprias lutas.

De toda forma, combatividade, crítica e projeto libertário não se transmitem por DNA, mas são opções social e historicamente construídas. Não cultivar reflexivamente a memória daqueles tempos promove esquecimento e conformidade.

O que eu escrevi e disse vinte anos depois de 68 (acima)  permanece atual. A paixão, a sensibilidade diante do cotidiano, o senso crítico, a crença na urgência de uma construção de um mundo sem desigualdade e com justiça permanecem.

Entretanto, diante da realidade do Brasil de hoje, aumentou muito a melancolia.

Naqueles anos não se imaginaria o estado de desconstrução política, social, econômica e cidadã a que hoje chegamos. Em 1968, tive a ventura de imaginar que seria possível viver uma felicidade coletiva, onde todos tivessem as mesmas possibilidades de um futuro com justiça social.

Tenho até hoje, na memória, o momento em que, numa manifestação estudantil no centro do Rio, olhei para trás e vendo aquela multidão de gente se manifestando e exigindo seus direitos em plena ditadura, experimentei a sensação do que significa ser feliz coletivamente.

Foi uma sensação indizível, e até então desconhecida; você não se sente mais um, mas se torna nós e esse sentimento tem outra força, porque vai além daquela felicidade individual, temporária ou, por vezes, duradoura, de ter família, um parceiro/a amoroso, filhos saudáveis e estudiosos, que vale, sem dúvida, mas é ainda muito pouco diante do que pode almejar a humanidade.

Hoje, fica a melancolia de não só não termos conseguido construir o mundo que sonhamos, mas termos que conviver com miséria e violência.

Jovens daquela época, e idosos hoje, de incendiários se transformaram em bombeiros, como diz o ditado? As generalizações não dão conta da realidade. Alguns se tornaram bombeiros, outros ousam ainda. As mulheres se organizam mais e melhor do que em 68 porque suas reivindicações atuais se diversificaram, vão além das que tínhamos na época.

Hoje, jovens e militantes de 68 estavam juntas nas ruas quando do assassinato de Marielle exigindo liberdade de pensamento e ação contra o genocídio da juventude negra, pelos direitos das mulheres, e denunciando a opressão dos despossuídos.

Acreditando, assim como em 68, que eu sou eu porque somos nós e é esse nós que nos dará força para construir outro mundo possível.

*Gilberta Acselrad é enfermeira na UERJ. É autora dos livros Quem tem medo de falar sobre drogas? e Avessos do prazer: drogas, Aids e Direitos Humanos




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