Política

O surto de covid no Brasil é uma ameaça global que abre portas para variantes letais, dizem cientistas

Neurocientista da Universidade Duke pede que a comunidade internacional desafie o governo brasileiro sobre seu fracasso em conter a pandemia

05/03/2021 11:33

O Brasil vive o pior momento da pandemia do coronavírus, com explosão de casos (Raphael Alves/EPA)

Créditos da foto: O Brasil vive o pior momento da pandemia do coronavírus, com explosão de casos (Raphael Alves/EPA)

 
O surto devastador de coronavírus no Brasil se tornou uma ameaça global que arrisca reproduzir variantes novas e mais letais, um dos principais cientistas dos países da América do Sul fez o alerta enquanto sofre com o dia mais mortal da pandemia.

Em conversa com o The Guardian, Miguel Nicolelis, neurocientista da Universidade Duke que está rastreando a crise, argumentou que a comunidade internacional deve desafiar o governo brasileiro sobre seu fracasso em conter uma epidemia que já matou mais de um quarto dos brasileiros – cerca de 10% do total global.

“O mundo deve veementemente falar sobre os riscos que o Brasil está representando na luta contra a pandemia”, disse Nicolelis, que passou a maior parte do ano passado confinado em seu apartamento na zona oeste de São Paulo.

“Qual o sentido em resolver a pandemia na Europa ou nos EUA, se o Brasil continua a ser um centro de reprodução do vírus?”

Nicolelis disse que o problema não era simplesmente o Brasil – cujo presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, repetidamente rejeitou esforços para combater a doença que ele chama de “gripezinha” – sendo “o pior país no mundo no tocante à gerência da pandemia”.

Ele disse: “É isso se você permite que o vírus se prolifere nos níveis atuais daqui, você abre a porta para a ocorrência de novas mutações e o aparecimento de variantes ainda mais letais”.

Uma variante preocupante em particular (P1) foi rastreada até Manaus, a maior cidade na Amazônia brasileira, que sofreu um colapso devastador na assistência médica em janeiro depois de um aumento nas infecções. Seis casos dessa variante já foram detectados no Reino Unido.

“O Brasil é um laboratório a céu aberto para o vírus se proliferar e eventualmente criar mutações mais letais”, alertou Nicolelis. “Isso é sobre o mundo. É global.”

O alerta chega ao mesmo tempo que o Brasil entra no capítulo mais mortal da sua crise de covid que já dura um ano, com hospitais no país colapsando ou à beira do colapso e a média semanal de mortes atingindo novas altas. Um recorde de 1.726 mortes foi reportado essa semana, o número mais alto desde o início da pandemia.

“É um campo de batalha”, disse um médico de Porto Alegre à televisão local depois de a UTI do seu hospital e o necrotério ficarem lotados.

Nicolelis disse que o fracasso de Bolsonaro em deter o surto e lançar uma campanha de vacinação adequada criou uma tragédia doméstica que era improvável que a nação mais populosa da América Latina saísse até o final de 2022.

“Agora passamos das 250.000 mortes, e minha expectativa é que se nada for feito, poderemos perder 500.000 pessoas aqui no Brasil até março. É uma perspectiva horrível e trágica, mas à essa altura é perfeitamente possível”, ele disse, prevendo um mês traumático enquanto hospitais privados e públicos estão lotados.

“Minha previsão é que se o mundo ficou chocado com o que aconteceu em Bergamo na Itália e com o que aconteceu em Manaus algumas semanas atrás, ficará ainda mais chocado com o resto do Brasil se nada for feito.”

O cientista, que tem aconselhado governos estaduais sobre suas respostas à covid, pediu a criação de uma comissão especial contra a covid para preencher o vácuo da liderança deixado por Bolsonaro e um lockdown nacional imediato de 21 dias. Isso, no entanto, parece quase impensável tendo em vista o posicionamento de Bolsonaro. Era esperado que o presidente fizesse pronunciamento à nação na quarta-feira para novamente denunciar medidas de lockdown.

Nicolelis alegou que a crise no Brasil agora representa um risco internacional e doméstico e afirmou que Bolsonaro – que sabotou o distanciamento social, promoveu remédios não comprovados como a cloroquina e menosprezou as máscaras – se tornou “o inimigo público global número 1 da pandemia”.

Ele disse: “As políticas que ele não está estabelecendo prejudicam a luta contra a pandemia no planeta inteiro”.

Bolsonaro, ex-capitão do exército que tomou posse em 2018 surfando uma onda de raiva anti-establishment, defendeu sua performance, afirmando que seu posicionamento diante das restrições contra a covid é sobre proteger a economia brasileira. “Eu não errei nenhuma vez desde março passado”, disse o homem de 65 anos aos seus apoiadores.

José Gomes Temporão, ministro da Saúde do Brasil durante a pandemia de gripe suína em 2009, disse que a resposta de Bolsonaro tem sido tão falha que ele e outras figuras administrativas seniores teriam que eventualmente “ser culpados”.

“Até hoje, o Brasil não possui um plano nacional para combater a covid-19”, reclamou Temporão, atacando as falhas de Bolsonaro em assegurar um número suficiente de vacinas por meio de contratos com empresas como a Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson. Apenas 3.3% da população brasileira foi vacinada até agora, em comparação com 15.2% nos EUA, 18% no Chile e 29.9% no Reino Unido.

“Eu não acho que exista outro líder que seja tão retrógrado, obtuso, que tenha uma visão tão errônea e distorcida da realidade enquanto presidente do Brasil”, disse Temporão. “A história condenará essas pessoas.”

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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