Política

Olhar a realidade de frente para mudá-la

Nada ganhamos ao culpar o império por nossas debilidades. É impossível mudar o inimigo. A bola está em nosso campo e nos resta olhar a realidade de frente.

07/02/2015 00:00

The U.S Army / Flickr

Créditos da foto: The U.S Army / Flickr

Ainda é inquestionável que vivemos um período turbulento e, portanto, opaco e confuso. A diversificação dos pontos de vista e análises necessários para compreendê-lo não deveria deixar de lado princípios éticos sem os quais a atividade para mudar o mundo perde sentido. As modas intelectuais, assim como as ilusões na evolução gradual do sistema, pouco ajudam para nos guiar na turbulência.

Uma das modas é a geopolítica. Não são poucos os que buscam atalhos que evitariam as inevitáveis dores desta etapa. Os Brics fazem parte da nova realidade multipolar e caótica, chamados como estão para deslocar as potências do norte (Estados Unidos, União Europeia e Japão) como centros excludentes do sistema-mundo. No entanto, os países chamados de emergentes encarnam formas e modos de gestão do capitalismo diferentes das do modelo anglo-saxão, mas tão capitalistas quanto.

Se nos congratulamos pela transição em curso em direção a um mundo multipolar, é na convicção de que o caos sistêmico e a multiplicidade de poderes são um adubo para a luta antissistêmica. Nem mais nem menos.

As análises gradualistas não levam a sério o fato de vivermos sob várias guerras. Os 70 anos decorridos desde o fim da Segunda Guerra Mundial parecem ter convencido muitos analistas de que as guerras se extinguiram, quando na verdade elas são o modelo habitual do capitalismo em sua fase extrativista e de acumulação por despojo/roubo.

A análise zapatista sobre a quarta guerra mundial do capital contra os povos ajuda a compreender as agressões que os de baixo sofrem em todo o mundo – desde as guerras abertas de aniquilação, como no Oriente Médio, até as guerras silenciosas, que o modelo extrativista descarrega sobre os povos para instalar minas a céu aberto, monoculturas e represas hidrelétricas, só para mencionar os casos mais frequentes.

Existem guerras econômicas, monetárias, pelo controle das fontes de água; guerra contra as mulheres e as crianças; enfim, o mais diverso tipo de agressões sistemáticas e sistêmicas contra os mais diversos povos e setores sociais.

José Luis Fiori, professor de política econômica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do grupo de pesquisa Poder Global e Geopolítica do Capitalismo, esboça uma análise distinta sobre a economia atual. Devemos começar pela análise e compreensão de como funcionam os mercados internacionais, que se parecem mais com uma guera de movimentos entre forças desiguais do que um intercâmbio entre unidades iguais e bem informadas (página13.org.br, 30/1/15).

Inspirado no historiador Fernand Braudel, Fiori considera que estados e capitais atuam nessa guerra assimétrica como grandes predadores na luta pelo controle monopolístico de posições de mercado, inovações tecnológicas e lucros extraordinários.

As considerações anteriores (mercados como guerras de posições, estados/capitais como predadores) são mais consistentes do que considerá-los ferramentas quase neutras que podem ser utilizadas por classes, raças, gêneros e etnias em seu benefício. Posições desse tipo tendem a desarmar os de baixo num período no qual não eles podem nem devem confiar em outra coisa que não suas próprias forças e capacidades.

Gostaria de agregar três ideias que Fiori tem esboçado em seus artigos jornalísticos e que trabalha em seu último livro História, estratégias e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo (Boitempo, São Paulo, 2014).

A primeira tem relação com a China, mas pode se aplicar a todos os Brics. “O poder é sempre expansivo (…) Foi assim em qualquer tempo e lugar, durante toda a história da humanidade, independente da existência de economias de mercado, e muito antes da existência do capitalismo” (Outras Palavras, 25/4/13). Alerta-nos sobre a crença de que a Rússia, ou a China, possam ser e fazer coisas muito diferentes do que já conhecemos. Não são forças anticapitalistas.

A segunda tem a ver com a economia. Diz que esta se subordina aos objetivos de longa duração dos estados. “As políticas econômicas dos países variam no espaço e no tempo, e seu êxito ou fracasso depende de fatores externos à própria política econômica, e não à verdade ou à falsidade de suas premissas teóricas” (Carta Maior, 27/11/14).

Afirma que é inútil buscar políticas econômicas de esquerda. Trata-se de levar em conta os objetivos em função dos quais os estados adotam diversas diretrizes econômicas. Tem a virtude que nos torna alheios ao economicismo dominante nas esquerdas, nos progressismos e em muitos movimentos sociais. Em todo caso, essa premissa não deveria ser adotada ao pé da letra pelos movimentos antissistêmicos, pois é a ética que preside sua ação.

Por último, tem uma visão muito clara da política dos Estados Unidos. Lembra que foi Nicholas Spykman o teórico geopolítico que teve maior influência na política exterior norte-americana no século XX. Dividia o subcontinente latino-americano em duas partes. A parte norte inclui até a América Central, o Caribe, a Venezuela e a Colômbia, que devem permanecer em “absoluta dependência” dos Estados Unidos.

O resto da América do Sul conta com três estados, como Brasil, Argentina e Chile, que podem ameaçar a hegemonia imperial se atuarem em conjunto – ameaça que deve ser “respondida por meio da guerra”. Fiori considera que o problema não é o império, mas neste caso, na região e, muito concretamente, seu próprio país: Brasil. “Estes são os termos da equação e a posição norte-americana sempre foi muito clara. O mesmo pode ser dito da política externa brasileira” (Sin Permiso, 30/03/14).
 
Nada ganhamos ao culpar o império pelas nossas debilidades. É impossível mudar o inimigo. A bola está em nosso campo e só nos resta olhar a realidade de frente.



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