Política

Onda moralista não combaterá a corrupção; é seletiva e partidária

Toda a campanha moralista que se estampa com clamor na mídia, da mesma forma não visa a combater a corrupção; é uma campanha eminentemente partidária.

16/03/2015 00:00

Paulo Pinto/Fotos Públicas

Créditos da foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

A corrupção no Brasil é realmente endêmica, cultural, uma prática generalizada que vem do tempo colonial, época em que muito provavelmente atingiu seu ápice em termos de generalização. Prática comum às colônias ibéricas que possivelmente tem ligação com o grau de tolerância maior da religião católica em relação ao rigor das seitas calvinistas.
   
A corrupção teve várias formas durante este longo período, sempre recaindo em termos de trocas ilícitas e secretas de favor ou de dinheiro, e era extremamente difícil, ou impossível senão pelo golpe armado, chegar ao poder sem se compor de alguma forma com a corrupção. O PT compreendeu esta realidade e se adaptou a ela para não permanecer eternamente como um Psol, aspirante com aura e prestígio mas sempre aspirante, nunca comandante do poder. Entrou no esquema pensando no ideal da justiça social, na promoção da ética dos fins, considerada superior à ética dos meios.
   
A Lei Moral, entretanto, não é preciso estudar Kant, a Lei Moral é um fundamento da sociedade humana, está acima de todas as leis e abrange também a ética dos meios, não somente a dos fins. E é dever de todos, por isso mesmo, combater todas as formas de corrupção.

O combate à corrupção, porém, sendo mandamento universal, não pode se transformar em posição político-partidária, o chamado moralismo político, que na verdade sempre enviesa para um lado e encobre outros objetivos não explicitados.

O moralismo udenista, por exemplo, serviu precipuamente para depor Getúlio Vargas. Carlos Lacerda, seu líder mais aguerrido declarou explicitamente que Vargas não podia ser candidato; se fosse, não podia ser eleito; se fosse eleito, não podia tomar posse. Getúlio foi candidato, venceu esplendidamente a eleição e tomou posse. Da impotência no voto democrático, surgiu então o moralismo udenista, denunciando um mar de lama, com o objetivo capital não de combater a corrupção mas de golpear o Presidente Vargas. Eu era jovem mas vi e compreendi.

Este mesmo moralismo esteve presente no golpe contra Jango, só que, no caso, misturado a outra bandeira mais forte no momento, que era a do anticomunismo, sustentada por poderosíssimas forças internacionais

Agora, toda a pesada campanha moralista que se estampa com clamor na mídia, da mesma forma não visa, primordialmente, a combater a corrupção; é uma campanha eminentemente partidária, seletiva, não considera outras denúncias, não fala no enriquecimento de tantos executivos com as privatizações dos anos noventa, não menciona a compra de votos para a reeleição de FHC, sepultou as denúncias sobre Sérgio Motta, não exige o julgamento do mensalão mineiro, um esquema anterior ao do PT, nem se lembra mais das acusações sobre Aécio Neves. 

É uma campanha evidentemente enviesada, cujo objetivo precípuo é mais uma vez o golpe, o terceiro turno, para tentar ganhar no tapetão o poder que buscaram e perderam na eleição.
               
Esta campanha, entretanto, pode abrir caminho para o aparecimento de resultados importantes, não esperados e até contrários aos interesses dos golpistas. Depois do estrago gigantesco já infligido à Petrobras e à engenharia nacional, que era um dos objetivos dos interesses forâneos infiltrados; depois do desarranjo da economia, que terá um ano fatalmente desastroso, o golpismo pode dar ensejo a uma mudança profunda na cultura dos negócios do País, ao lado de uma consagração da Presidenta Dilma como a mais destacada líder da verdadeira luta contra a corrupção no Brasil, pelo empenho honesto que tem demonstrado em levar à frente todas as investigações de todos os denunciados, de todos os lados, neste rumoroso processo e em vários outros. Um conjunto de processos em número e importância jamais antes registrados; todos descobertos e devassados pela polícia e pelo Ministério Público agindo livremente durante o seu governo.

Com a indiciação e a prisão de gente tão poderosa econômica e politicamente, como nunca havia acontecido, com tudo o que ainda vai aparecer nas contas secretas de brasileiros no HSBC da Suíça, o País efetivamente pode mudar essa cultura da corrupção e reduzir bastante  essa prática perversa que assola nossa vida pública e o nosso sentimento moral desde os tempos coloniais.

À custa de erros, de injustiças possíveis, de um prejuízo econômico enorme, de um desgaste terrível para algumas pessoas honradas, a História provavelmente registrará este momento como um ponto de inflexão retificadora, para baixo, da nossa trajetória ético-política. E este feito tão importante e edificante para a moral dos brasileiros será creditado, não aos moralistas golpistas, mas, principalmente, à Senhora Dilma Rousseff, Presidenta da República no período e propiciadora das apurações que vão atingir principalmente o PT, seu partido.

A política dá voltas desse tipo, e a lógica do processo histórico acaba se impondo e revelando o melhor caminho em termos de aperfeiçoamento humano. Uma dessas voltas ocorreu há poucos dias, com a extinção da absurda pena infligida ao líder político José Genoino, um dos brasileiros mais honestos e honrados que conheci em toda minha vida.
E aqui paro com muito respeito: chega a triste nota do falecimento do mais democrata e sensato entre os comunistas brasileiros, o honrado e preclaro Armênio Guedes.
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Roberto Saturnino Braga, 83, é engenheiro. Com votos da cidade e do estado do Rio de Janeiro elegeu-se vereador, prefeito, deputado federal e senador da República.



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