Política

Os 30 anos do comício que a Globo transformou em festa

Após 20 anos de ditadura, 300 mil brasileiros foram à Praça da Sé pedir eleições diretas. Jornal Nacional disse que o ato era festa pelo aniversário de SP.

24/01/2014 00:00

 

 

Brasília - Há exatos 30 anos, cerca de 300 mil pessoas foram à Praça da Sé, em São Paulo, para reivindicar eleições diretas para presidente. No palanque, políticos, artistas, sindicalistas e estudantes. Era o maior ato político ocorrido nos primeiros 20 anos da ditadura brasileira, com todo o seu saldo de mortes, torturas, desaparecimentos forçados, censuras e supressões dos direitos individuais. Mas o foco da reportagem que o telejornal de maior audiência do país, o Jornal Nacional, da TV Globo, levou ao ar naquela noite, era a comemoração pelos 430 anos de São Paulo.

O histórico comício da Praça da Sé ocorreu em um momento em que o Brasil reunificava suas forças para tentar por fim ao regime de exceção, em um movimento crescente. Treze dias antes, um outro ato político realizado em Curitiba (PR), com a mesma finalidade, havia sido completamente ignorado pela emissora. Mesmo a chamada para o ato que os organizadores tentaram veicular na TV como publicidade paga não foi aceita pela direção. O Jornal Nacional nada falou sobre o comício que levou 50 mil pessoas às ruas da capital paranaense. Antes dele, outros, menores, já ocorriam em várias cidades brasileiras desde 1983. Nenhum mereceu cobertura.

Em 1982,  a entrada em vigor da Emenda Constitucional nº 22 permitiu eleições diretas para governadores. Entretanto, previa que, em 1985, fosse realizada eleição indireta para o novo presidente, a ser escolhido por um colégio de líderes formado por senadores, deputados federais e delegados das assembleias legislativas estaduais. Os brasileiros, porém, queriam enterrar de vez os anos de arbítrio. Oposição e movimentos sociais se uniram para pedir Diretas Já.

Aliada inconteste da ditadura civil militar, a TV Globo demorou a acertar na análise da conjuntura. Acompanhando a leitura rasa dos militares que ocupavam o Palácio do Planalto, acreditou que os atos por eleições diretas não passariam de “arroubos patrióticos”, como depois definiria seu então diretor de Jornalismo, Armando Nogueira. Mas a estratégia de ignorar as diversas manifestações que pipocavam em várias cidades do país já estava arranhando sua credibilidade. Decidiu mudar.

Quando a multidão ocupou a Praça da Sé, a Globo optou por maquiar o ato e alterar suas finalidades. No telejornal mais visto do país, o apresentador Sérgio Chapelin fez a seguinte chamada: “A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé”. A matéria que entrava a seguir, do repórter Ernesto Paglia, evidenciava os 30 anos da Catedral da Sé e os shows artísticos pelo aniversário da cidade. Só no finalzinho, o repórter dizia que as pessoas pediam a volta das eleições diretas para presidente, como se aquilo tivesse sido um rompante espontâneo no evento convocado para outros fins.

Apesar da postura da maior rede de TV nacional, a campanha Diretas Já ganhava o país. No dia 24 de fevereiro, um novo grande comício foi realizado em Belo Horizonte (MG), e reuniu um contingente ainda maior de pessoas do que o de São Paulo. No mesmo Jornal Nacional, apenas rápidas imagens da multidão que saiu às ruas e dos muitos oradores que pediam o fim da ditadura, acompanhados de um texto que desvirtuam o sentido do ato.

A hostilidade com que os manifestantes tratavam a emissora só fazia aumentar. Foi nesta época que os protestos de rua passaram a bradar o slogan ouvido até hoje: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Foi nesta época também que os repórteres da Globo passaram a ser achincalhado nas ruas. Alguns sofreram agressões físicas.

Roberto Marinho, o fundador da emissora, era comprometido com a ditadura até o pescoço. Afinal, foram os militares que encobriram as irregularidades que marcaram a inauguração da TV Globo, investigada por uma CPI Parlamentar por conta de ter recebido injeção ilícita de capital estrangeiro, no escândalo conhecido como Caso Time-Life. E também foram os militares que ajudaram a emissora a se tornar a maior do país, em troca de apoio sistemático ao regime de exceção.

Mas Marinho não era burro. Viu que era impossível conter a nova força política que se tornava hegemônica no país e, de uma hora para outra, virou seu jogo. No dia 10 de abril, duas semanas do Congresso votar a proposta de eleições diretas já, ele autorizou que sua emissora cobrisse à campanha. O comício realizado aquela noite, no Rio de Janeiro, que reuniu mais de 1 milhão de pessoas na Candelária, enfim ganhou espaço devido no Jornal Nacional.

A emenda que previa as Diretas Já, apresentada pelo até então quase desconhecido Dante de Oliveira, não foi aprovada. Mas Marinho já estava aliado comas forças que venceriam a eleição indireta: Tancredo Neves, o presidente eleito que morreu antes de tomar posse, e José Sarney, que por uma contingência do destino, iria assumir o posto. Naquela época, a família Sarney já controlava a mídia no seu estado de origem, o Maranhão. Reza a crônica política que, de olho em uma parceria de sucesso com a Globo, o novo presidente da república submeteu até mesmo o nome de seu ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, à aprovação de Roberto Marinho.

Erro histórico

O erro histórico da Globo de manipular a campanha Diretas Já até hoje assombra a emissora. Em setembro do mesmo ano de 1984, em matéria publicada pela revista Veja sobre os 15 anos do Jornal Nacional, Roberto Marinho já tentava minimizar o fato: “Achamos que os comícios poderiam representar um fator de inquietação nacional, e por isso, realizamos num primeiro momento apenas reportagens regionais. Mas a paixão popular foi tamanha que resolvemos tratar o assunto em rede nacional”, justificou.

Não foi suficiente. A história continuou rendendo acusações, livros e teses acadêmicas, além de correr mundo. No documentário “Muito Além do Cidadão Kane”, da emissora pública britânica Channel 4, de 1993, um trecho da matéria exibida pelo Jornal Nacional sobre o comício da Praça da Sé ajuda a comprovar a tese expressa no título pelo diretor, Simon Hartog. No filme Cidadão Kane, de 1941, considerado a melhor produção cinematográfica de todos os tempos, o genial Orson Wells narra a historia de um magnata das comunicações que, para assegurar lucro e poder, não tem escrúpulos em apoiar governantes diversos, indepentendes de partidos e ideologias.

Um trecho da polêmica “cobertura” da Globo pode ser conferida no documentário Muito além do Cidadão Kane. 

Foram necessários muitos anos de democracia e, principalmente, de pressão popular, para que a emissora voltasse a enfrentar o assunto. Depois que as primeiras edições do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS), colocaram o debate sobre a manipulação da imprensa na agenda nacional, outros caciques da Globo tentaram apaziguar a história. Em depoimento gravado em 2000, o ex-diretor da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, admitiu a fraude, ainda que apresentando motivações enviesadas. “Enquanto as outras emissoras cobriam isso, nós ficamos limitados, pelo poder de audiência que a Globo tinha, a cobrir isso como se fosse um show de cantores”.

Um ano depois, foi a vez do ex-diretor de Jornalismo da Globo, Armando Nogueira, revisitar a polêmica, em outro vídeo: “As passeatas, as manifestações, aquilo acabou se transformando em uma avalanche. E a Rede Globo, com o instinto de sobrevivência que sempre teve seu patrono, Roberto Marinho, não poderia ficar insensível a isso, embora tivesse duramente pressionada pelo Palácio do Planalto a não prestigiar o que se supunha, lá no Palácio do Planalto, apenas uns arroubos patrióticos, quando na realidade era a manifestação irresistível da consciência nacional”.

Em 2003, o diretor executivo de jornalismo da emissora, Ali Kamel, reabriu a polêmica ao colocar no ar uma chamada em comemoração aos 34 anos do Jornal Nacional que evidenciava o pequeno trecho da matéria em que o repórter falava em “eleições diretas para presidente”. E no artigo “A Globo não fez campanha; fez bom jornalismo”, publicado na sequência no jornal O Globo, ainda teve a ousadia de afirmar que a chamada servia “para rechaçar de vez uma das mais graves acusações que o JN já sofreu: a de que não cobriu o comício das diretas, na Praça da Sé, em São Paulo”.

Os muitos autores que, até então, publicaram obras rechaçando a postura da emissora contra-atacaram, evidenciando a desproporção com que o tema foi tratado no telejornal. Ninguém nunca conseguiu saber, ao certo, se a vinheta de Kamel exibia a reportagem que, de fato, fora levada à época ao Jornal Nacional ou se era uma das tais “reportagens regionais” a que Roberto Marinha se referiu na entrevista à Veja de 1984. De certo, ficou apenas que o assunto não teve, no principal veículo de informação da emissora, o tratamento que merecia. E que o Brasil verdadeiramente democrático jamais engoliu a manipulação.

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