Política

Os demagogos vencem ao estimular nossa fúria - descubra como derrotá-los

A linguagem da violência e do insulto está dominando nosso discurso. Para derrotá-la, precisamos aprender a não responder na mesma moeda

04/10/2019 15:02

(Ilustração de Eva Bee)

Créditos da foto: (Ilustração de Eva Bee)

 
Estaria a democracia numa espiral da morte? Estaríamos, neste país e em outros, caindo em um ciclo letal de fúria e reação, que bloqueia a discussão racional da qual depende a vida civilizada?

Em todas as épocas, houve mascates políticos abusando de agressões, mentiras e insultos para silenciar argumentações fundamentadas. Mas, desde a década de 1930, não se via tantos deles conseguindo.

Donald Trump, Boris Johnson, Narendra Modi, Jair Bolsonaro, Scott Morrison, Rodrigo Duterte, Nicolás Maduro, Viktor Orbán e muitos outros descobriram que a era digital oferece uma imensidão de opções. A raiva e o mal-entendido gerados pelas mídias sociais, e exacerbados pelas fábricas de trolls, bots e pela propaganda política financiada de forma opaca, acabam respingando na vida real.

Hoje, políticos e comentaristas usam uma linguagem de violência que seria impensável alguns anos atrás. No Reino Unido, Johnson zomba da memória da deputada assassinada Jo Cox. Nigel Farage, referindo-se a funcionários públicos, promete que "quando o Brexit terminar, passaremos a faca neles".

Brendan O'Neill, editor do site Spiked, publicação que recebeu financiamento dos irmãos Koch, disse à BBC que deve haver rebeliões pelo atraso do Brexit. Todos eles devem saber, particularmente diante das ameaças e agressões sofridas pelas deputadas, que uma linguagem violenta legitima a violência. Mas essas declarações parecem lançadas justamente para desencadear agressões irracionais.

Certamente agora os eleitores vão acordar deste pesadelo, rejeitar aqueles que fabricaram nossas crises e restaurar a política pacífica e racional da qual depende nossa segurança, certo? Infelizmente, a solução pode não ser tão simples assim.

Diversos ramos fascinantes da neurociência e da psicologia sugerem que a ameaça e o estresse na vida pública têm alta capacidade de autoperpetuação. Quanto mais ameaçados nos sentimos, mais nossas mentes são dominadas por reflexos involuntários e reações impensadas.

O mais estranho desses efeitos é descrito pelos neurocientistas Stephen Porges e Gregory Lewis. Eles mostram que, quando nos sentimos ameaçados, não conseguimos escutar vozes calmas, em tom de conversa. Se nos sentimos seguros, os músculos do ouvido médio se contraem, como quando se estica a pele de um tambor. Isso silencia os sons mais distantes, de fundo, e permite que sintonizemos as frequências mais comumente usadas na fala humana.

Mas quando nos sentimos ameaçados, são os ruídos mais profundos, ao fundo, que precisamos ouvir. Ao longo da evolução, foram esses sons (rugidos, berros, o som de patas ou o estrondo de cascos, trovões, a vibração de uma tromba d’água em um rio) que anunciavam o perigo. Nestas circunstâncias, os músculos do ouvido médio relaxam, calando as frequências de uma conversa. No contexto político, se as pessoas estão gritando, as vozes moderadoras são, fisicamente, desligadas. Todos precisam gritar para serem ouvidos, fazendo subir o nível de estresse e ameaça.

Quando nos sentimos particularmente ameaçados ou irritados, acende um alerta de luta ou fuga, sobrecarregando nossa capacidade de raciocinar – um fenômeno que alguns psicólogos chamam de sequestro de amígdala. A amígdala fica na base do cérebro e transmite fortes sinais emocionais que podem anular o córtex pré-frontal, impedindo-nos de tomar decisões racionais. Assim, passamos a fazer ataques de forma irracional, dizendo coisas estúpidas que depois acionam o sequestro de amígdala em outras pessoas. É mais ou menos assim que funcionam as mídias sociais.

Tudo isso é exacerbado pela maneira frenética e bitolada como buscamos um lugar de segurança quando nos sentimos inseguros. Segurança é o que os psicólogos chamam de "valor de déficit" clássico: algo cuja importância para nós aumenta quando sentimos que falta, sobrepondo-se a outros valores. Isso permite que as próprias pessoas que nos deixaram inseguros se apresentem como os "homens fortes" a quem podemos pedir refúgio do caos que eles criaram. Preocupantemente, uma pesquisa realizada pela Hansard Society em abril revelou que 54% dos entrevistados concordavam com a afirmação: "A Grã-Bretanha precisa de um governante forte e disposto a quebrar regras", enquanto apenas 23% discordaram.

Suspeito que os demagogos – ou seus conselheiros – saibam o que estão fazendo. Seja de forma instintiva ou explícita, compreendem que reagimos de forma irracional às ameaças e sabem que, para vencer, precisam nos impedir de pensar. Por que Johnson parece querer tanto um Brexit sem acordo? Talvez porque este cenário gere as respostas de estresse e ameaça das quais depende seu sucesso. Se não rompermos essa espiral, ela pode realmente nos arrastar para um lugar muito sombrio. Então o que podemos fazer? Como podemos discutir situações realmente alarmantes, como especificamente o Brexit ou o colapso do clima, sem desencadear reações irracionais a ameaças? A primeira coisa que a ciência nos diz é: trate todos com respeito. A coisa mais estúpida que podemos fazer, se quisermos salvar a democracia, é insultar um adversário.

Nunca se deixe arrastar para uma partida de gritaria, por mais ofensiva que a outra pessoa seja. Não se deixe distrair por tentativas de manipulação da indignação: traga a conversa de volta para os tópicos que você deseja discutir. Devemos imitar a firmeza e a calma com que Greta Thunberg responde ao maremoto de maldade que tem enfrentado: “Como vocês devem ter notado, os haters estão, como sempre, ativos – me atacam, atacam minha aparência, minhas roupas, meu comportamento e minhas diferenças... Mas não percam seu tempo, não lhes deem atenção”.

Depois de estudar o sucesso ou o fracasso de outros movimentos políticos, o movimento Extinction Rebellion desenvolveu um protocolo para o ativismo próximo de um modelo de boa psicologia política. O grupo usa humor para escapar das agressões, distribui folhetos explicando a ação e se desculpando por algum transtorno, treina ativistas para resistir a provocações e realizam oficinas com técnicas de como evitar conflitos, para ensinar a transformar potenciais confrontos em conversas fundamentadas. E defende o "respeito ativo" por todos, inclusive pela polícia.

Ao criar assembleias populares, procura criar um espaço cívico onde outras vozes possam ser ouvidas. Como aponto outro artigo de Stephen Porges, o neurocientista cujo trabalho foi tão importante para explicar nossos reflexos, nossos cérebros não nos permitem sentir compaixão pelos outros se não nos sentimos seguros. Criar espaços tranquilos para explorar nossas diferenças é um passo essencial para a reconstrução da vida democrática.

Tudo isso pode parecer senso comum. E é. Mas compreender como nossas mentes funcionam ajuda a ver quando elas estão trabalhando inconscientemente para os demagogos. Quebrar a espiral significa restaurar o estado mental que nos permite pensar.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Clarisse Meireles



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