Política

PDT rompe com Yeda Crusius. PT cogita CPI da Segurança

12/04/2007 00:00

PORTO ALEGRE - A crise da segurança pública que atingiu o governo Yeda Crusius (PSDB) e provocou a demissão do secretário Enio Bacci (PDT) pode provocar uma aliança inesperada no Estado. Nesta quinta-feira, representantes do PT e do PDT falaram na possibilidade de instalar uma nova CPI da Segurança Pública para investigar as denúncias de corrupção envolvendo agentes policiais e a atuação do governo na investigação de tais denúncias.

Durante o governo Olívio Dutra (1999-2002), o PDT foi um dos principais articuladores da CPI que desgastou o governo petista nesta área. O relator daquela CPI, o então deputado estadual Vieira da Cunha, fustigou as principais lideranças do governo Olívio do início ao fim dos trabalhos da Comissão Parlamentar. Agora, ironicamente, o tema da banda podre da polícia caiu no colo do PDT e provocou a queda do principal nome do partido no governo Yeda.

Durante a entrevista coletiva que concedeu na manhã desta quinta, Bacci confirmou que o partido deve romper com Yeda e falou três vezes na possibilidade de instaurar uma CPI na Assembléia. A bancada do PT divulgou nota oficial, falando também na possibilidade de uma CPI.

Os primeiros cem dias do governo Yeda Crusius no RS ficaram marcados pela crise na segurança pública, que eclodiu quando Bacci e o delegado de Polícia, Alexandre Vieira, trocaram graves acusações pela imprensa. O secretário acusou o delegado de espalhar rumores e denúncias e associou-o à banda podre da polícia. O delegado, por sua vez, rebateu as acusações e chamou o secretário de canalha. Em meio a toda essa confusão, um dos principais assessores de Bacci e o motorista do secretário estão sendo investigados pela polícia por suposto envolvimento com a cobrança de propinas para a transferência de delegados e com o tráfico de drogas.

Yeda Crusius pretendia apresentar a segurança como a vitrine de seu choque de gestão. O plano foi por água abaixo. Após cem dias de choque, escolas sofrem com falta de professores, funcionários, giz e papel higiênico. Hospitais ameaçam fechar por falta de repasse de recursos. E, na segurança, a demissão do secretário acabou expondo sérios problemas nas corporações policiais.

Novas denúncias sobre "banda podre"
Falando já como ex-secretário de Segurança, Ênio Bacci fez uma série de acusações e denúncias contra integrantes da polícia gaúcha, na entrevista coletiva que concedeu na manhã desta quinta. Sem mencionar nomes, disse ter entregue um dossiê à governadora Yeda Crusius com detalhes sobre essas denúncias. Bacci pediu desculpas às corporações policiais por ter utilizado o termo “banda podre” dias atrás, mas, logo em seguida, mencionou episódios que confirmariam a existência, de fato, de uma banda podre nas polícias gaúchas.

Falou de vazamentos de informações, por parte de agentes do Estado, antes de operações policiais. Falou do caso de um policial que teria gasto 100 mil dólares em uma noite, em um cassino em Rivera. E mencionou o envolvimento de policiais com tráfico de drogas, roubos de carros e caminhões e, até, assassinatos. E reclamou da falta de apoio de Yeda:

"...no momento em que eu apontei o dedo para o combate ao tráfico de drogas, tive o apoio de todos, inclusive da governadora; apontei o dedo para o combate aos desmanches, tive o apoio da governadora. Imaginava que quando apontasse o dedo para uma ferida que muitos têm medo de apontar, que é a corrupção dentro das forças e das corporações, eu tivesse o mesmo respaldo. Mas aí me faltou aquele respaldo necessário para enfrentar isso. Sozinho não se enfrenta isso. Aí me faltou respaldo. Por quê? Eu não sei..."

“Não existe banda podre. O que existe é policiais compactuados com o crime organizado”, declarou, trocando, na prática, seis por meia-dúzia. Além da governadora, Bacci disse que o chefe da Casa Civil, Luiz Fernando Zachia, e o secretário da Justiça, Fernando Schüller, têm conhecimento dessas denúncias. Resta ver agora qual será o encaminhamento das mesmas, acrescentou.

Nos círculos políticos gaúchos ninguém acreditou, a começar pelo próprio Bacci, no motivo alegado por Yeda para a sua demissão: a entrevista que concedeu á rádio Gaúcha, terça-feira, quando acusou o delegado Alexandre Vieira, da 17ª Delegacia de Porto Alegre, de envolvimento com a banda podre da polícia. O secretário demitido disse ter documentos que provam suas afirmações e que encaminhou-os às “autoridades competentes”. Essas autoridades também estão investigando denúncias que envolvem ex-assessores de Bacci.

Contratos suspeitos
O secretário demitido bateu forte em Yeda. Insinuou que ela foi desleal (durante a campanha teria oferecido um cargo à neta de Leonel Brizola, Juliana, no Palácio Piratini; “até hoje ela não está no palácio”), vaidosa e autoritária. Além disso, levantou suspeitas sobre dois contratos mantidos pelo governo do Estado. Um que contratou uma empresa de segurança privada para trabalhar na vigilância do prédio da Secretaria da Segurança (um contrato que custa R$ 2 milhões por ano ao Estado). E outro que contratou uma empresa privada para fazer a limpeza em delegacias (no valor de R$ 6 milhões ao ano). Segundo Bacci, policiais do interior declararam que eles mesmo são obrigados a fazer a limpeza nas delegacias. Diante de tais acusações, aguarda-se a resposta do Palácio Piratini, que tem em mãos muito mais informações sobre a crise que derrubou Bacci do que aquelas que vieram à tona até agora.

Yeda quer delegado na PF na segurança
A governadora Yeda Crusius convidou o superintendente da Polícia Federal no Estado, José Francisco Mallmann, para assumir a Secretaria da Segurança no lugar de Ênio Bacci. Yeda consultou o ministro da Justiça, Tarso Genro, sobre o convite, perguntando se ele poderia ser liberado de suas atribuições na PF para assumir a pasta da segurança. A resposta de Tarso foi positiva. Segundo ela, o nome de Mallmann é uma unanimidade entre a cúpula da Segurança. Sobre a saída de Bacci e a entrevista coletiva que o ex-secretário concedeu na manhã desta quinta, Yeda foi lacônica, dizendo apenas que o deputado pededista “apartou-se do governo”, ausentou-se de reuniões importantes e que estava agindo em faixa própria. Ela também determinou o afastamento dos delegados envolvidos na crise, sem citar nomes de quem será afastado e para onde.

PT estuda possibilidade de CPI
A bancada do PT na Assembléia Legislativa do RS divulgou nota oficial nesta quinta-feira manifestando-se sobre a crise na segurança pública e a demissão do secretário Ênio Bacci. Na nota, a bancada petista anuncia que “irá conversar com outros partidos do Legislativo a fim de definir o melhor instrumento e o melhor momento para a ação parlamentar, considerando, inclusive a possibilidade de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito”. O líder da bancada do PT, Raul Pont, disse que as justificativas usadas pelo Piratini para a demissão de Bacci não são compatíveis com os fatos: “O governo alega incompatibilidade administrativa. O secretário sai dizendo que não teve apoio para combater a corrupção dentro das políticas. Isso é muito grave. Na ausência de uma manifestação formal, nossa bancada pretende buscar outras formas de esclarecer as denúncias”.

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