Política

PMDB tenta se unir para deixar de ser coadjuvante

12/03/2007 00:00

BRASÍLIA – O ex-deputado Mário Lima mal tinha começado a ler o discurso de uma página quando foi interrompido pelo vice-presidente do PMDB Maguito Vilela (GO), encarregado de conduzir os trabalhos da Convenção Nacional do partido que na tarde deste domingo (11) reconduziria seu presidente, Michel Temer (SP), ao terceiro mandato pelos próximos dois anos. Era para anunciar a chegada do presidente da Câmara, o petista Arlindo Chinaglia (SP), que comparecera para agradecer o apoio peemedebista em sua eleição e reafirmar os compromissos que assumira naquela oportunidade – uns mais outros menos conhecidos.

O movimento atrapalhou a oratória de Lima, que quase ninguém conhecia naquele auditório do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, cheio de jovens militantes ligados aos ex-governadores Orestes Quércia (SP), Joaquim Roriz (DF) e Anthony Garotinho (RJ). Ao se aproximar da tribuna, ele se apresentara como primeiro deputado preso e cassado pela ditadura militar em 1964. Presidente do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, na época, Mario Soares Lima realmente integrou a lista dos 44 deputados cassados em 10 de abril de 1964, sob o amparo do Ato Institucional nº 1. Estava na ilustre companhia de Almino Alfonso, Francisco Julião, Leonel Brizola e Plínio de Arruda Sampaio, entre os outros parlamentares.

Sem direitos políticos, Lima não pode participar da fundação do MDB, em 1966. Mas filiou-se ao partido, a convite do então presidente Ulysses Guimarães, logo que recuperou a condição de cidadão no fim dos anos 1970, como tantos outros políticos cassados pela ditadura. Emocionado, ele pediu a palavra apenas para compartilhar a felicidade de um velho militante ao ver o partido novamente unido por uma causa comum. Confessou que apoiava a candidatura do ex-presidente do Supremo Nelson Jobim, mas, com a renúncia deste (leia matéria), alinhava-se com a direção vitoriosa, na expectativa de que o partido, além de dar governabilidade ao país com apoio ao governo Lula, de quem se declarou amigo pessoal, preparasse o caminho de uma candidatura própria para a Presidência da República, em 2010.

Entrecortado por insistentes intervenções de Maguito, pela manifestação das claques no auditório e por uma entrevista ao vivo de Temer para uma TV a cabo, o discurso do velho militante ficou perdido na Convenção. Mas, o seu valor simbólico talvez seja uma das principais explicações de o presidente do PMDB ter conseguido legitimar sua reeleição com um quorum de 80% dos convencionais, mesmo com o boicote de líderes poderosos como o ex-presidente da República José Sarney, o antecessor de Temer na presidência do partido, Jader Barbalho, e o atual presidente do Senado, Renan Calheiros, os principais apoiadores de Jobim. O PMDB quer voltar a ter uma importância na vida política do país correspondente ao seu tamanho.

Desde que grande parte dos líderes peemedebistas sacrificaram a candidatura de seu timoneiro Ulysses Guimarães, na eleição de 1989, em nome de projetos regionais, o partido perdeu a condição de protagonista da política, passando a ser um coadjuvante contratado para servir de escada de partidos menores como o PSDB e o PT. Os meandros da política acabaram dando ao partido uma nova oportunidade de voltar ao topo do poder. Essa é uma percepção que alcança o PMDB de ponta a ponta. Dos mais governistas aos menos entusiasmados com o governo Lula. Dos cabos eleitorais aos dirigentes mais graduados.

É por isso que os governadores que estavam apoiando Jobim rapidamente aderiram a Temer depois da renúncia (confira matéria). Quem sonha com uma candidatura a presidente, como Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, e Roberto Requião, do Paraná, deu um jeito de entrar na chapa ou se fazer representar. É por isso que Anthony Garotinho saiu da campanha do “fora Lula” para uma defesa quase entusiasmada do governo. “Em todos os momentos que a direita se organizar, que o PFL e o PSDB tentarem armar contra o presidente Lula, o PMDB estará a seu lado”, assegurou Garotinho no discurso feito na Convenção.

Ao conseguir se unificar, o PMDB passou a ter perspectiva concreta de ter um filiado como sucessor de Lula. O velho discurso da candidatura própria, no qual ninguém acreditava em razão do histórico de disputas e armações, passou a ter credibilidade. “Estamos em uma coalizão governamental que pode se transformar em coalizão eleitoral. Nesse caso, como maior partido, o PMDB tem o direito de lançar candidato”, declarou Temer, durante a Convenção que o reelegeu com 598 dos 602 votos (dois brancos e dois nulos) – um quorum de 80% dos convencionais, o que não ocorria nem nos momentos de maior disputa partidária.

Integrar o governo Lula como o maior partido a lhe dar sustentação é o grande trunfo do PMDB para chegar em 2010 (veja matéria) com uma candidatura competitiva, depois de cinco frustrações: dois candidatos do partido abandonados durante a disputa (Ulysses e Quércia), duas eleições sem candidato (1998 e 2006) e uma candidatura a vice na chapa derrotada (da deputado Rita Camata, em 2002). Se o PMDB conseguir essa façanha, terá um grande débito com o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, que abriu canal de interlocução com a ala oposicionista do partido mediante uma proposta de coalizão com base em um programa mínimo de sete pontos. Uma formalidade necessária para disfarçar o adesismo oportunista.

O lado derrotado na disputa também tinha o mesmo objetivo de fazer do governo Lula uma alavanca para a candidatura própria. Mas queria estar no comando das articulações, tendo como base a interlocução privilegiada com o presidente. O grande complicador é que, como observa um antigo colaborador, Jobim não entende nada de política, mas acha que entende. Se entendesse, teria aceito a oferta de Temer para ser o vice da chapa e assumir o comando do partido daqui a 18 meses, quando o atual presidente se prepararia para voltar à presidência da Câmara. Só que essa solução não interessava ao grupo de Renan/Sarney/Jader, que teme ficar sem a presidência do Senado, na possível inversão de comando com o PT.

Se isso se concretizar, em 2009, Lula deixa de ser refém da bancada do PMDB no Senado e passa a ficar nas mãos da bancada do PMDB na Câmara. O ensaio dessa recomposição de forças será visto nos próximos dias, quando o partido negociará com o presidente Lula o espaço no Ministério e demonstrará nas votações no Congresso o seu grau de satisfação com o reconhecimento pelos serviços prestados.

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