Política

PSDB e PFL também sacaram das contas de Marcos Valério

Tucanos e pefelistas de MG também beberam nas fontes de recursos disponibilizadas por contas de empresas do publicitário Marcos Valério. Ao justificar uso do dinheiro, o deputado Roberto Brant (PFL) resumiu: ''quem não tiver recebido dinheiro não contabilizado que atire a primeira pedra''

21/07/2005 00:00

(Roberto Stuckert Filho)

Créditos da foto: (Roberto Stuckert Filho)

 

Não foi preciso nem um mês para a crise chegar também à oposição. A devassa nas movimentações financeiras da SMP&B mostraram que além da extensa lista de petistas e integrantes da base aliada, algumas pessoas ligadas aos principais partidos da oposição, PSDB e PFL, também sacaram o “dinheiro podre” do publicitário mais conhecido do Brasil. Embora represente uma bomba que coloca o desenvolvimento da crise em um novo patamar, a noticia mereceu uma reação que variou entre o “não é comigo” do PSDB e a confirmação arrogante do PFL, além de ter recebido muito menos destaque nos veículos da grande mídia do que a presença de um ex-assessor do senador Delcídio Amaral (PT-MS), presidente da CPMI dos Correios, na referida lista e uma gravação que pode indicar um suposto envolvimento do caixa 2 do PT com um grupo criminoso que atua com fraudes na Previdência Social.

Ex-ministro da Previdência no governo FHC, o deputado Roberto Brant (PFL-MG) confirmou que seu assessor Nestor Francisco Oliveira sacou R$ 102 mil da conta de uma das empresas do publicitário, na já famosa agência do Banco Rural, em Brasília. Já o tucano Paulo Menecucci, que também fez saques na conta da SMP&B, informou, quinta-feira, que o dinheiro foi usado para a campanha de João Leite (PSB), que concorreu à prefeitura de Belo Horizonte, em 2004. Os tucanos faziam parte da coligação que apoiou João Leite. Segundo já apurou a CPI dos Correios, Menecucci sacou R$ 205 mil na conta do Banco Rural. Há um outro nome ligado aos tucanos mineiros que também já foi identificado como usuário das contas de Marcos Valério. Cristiano Paiva Nunes sacou R$ 300 mil da conta da SMP&B. Ele é funcionário da deputada estadual Vanessa Lucas (PSDB-MG), que é casada com o ex-prefeito de Contagem, Ademir Lucas, também do PSDB.

As explicações: atire a primeira pedra...
Ao justificar o uso do dinheiro, Roberto Brant saiu-se com uma explicação que vem fazendo escola: “quem não tiver recebido dinheiro não contabilizado que atire a primeira pedra”. Brant informou à direção do PFL que recebeu também uma doação “por fora”, da empresa Usiminas, no valor de R$ 150 mil. Esse dinheiro, segundo ele, uma vez deduzidos os impostos, resultou no saque de R$ 102 mil feito por Nestor Francisco Oliveira. Esse tipo de doação, segundo Brant, “faz parte do sistema eleitoral brasileiro”. Ele disse ainda que usou o dinheiro para pagar Iran Pessoa de Melo, coordenador de seu programa de televisão na campanha para a prefeitura da capital mineira. Brant garantiu que vai fazer uma retificação em sua prestação de contas.

Citada por Brant como fonte de doação de dinheiro não contabilizado, a Usiminas afirmou, quinta-feira, que ainda não tem um posicionamento oficial sobre o assunto. Ao comentar o caso, o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), garantiu que o deputado Roberto Brant “continua a merecer a confiança integral” do partido. “O Roberto Brant reconhece os seus erros, e o PFL tem confiança integral nele e ele não será punido”, resumiu Bornhausen. A assessoria do partido falou que, por enquanto, a posição oficial do partido é a manifestada por Bornhausen mas que a direção da sigla deve reunir-se na próxima semana para discutir o asunto.

No PSDB, a estratégia foi a inversa. A assessoria da Executiva Nacional do partido afirmou que a instância máxima dos tucanos não iria se manifestar por não ter tomado ciência destes atos, os quais caracterizou como “ações isoladas e sem relação com o partido”. Consultado, Cristiano Paiva Neves, assessor parlamentar do gabinete da deputada mineira, Vanessa Lucas, divulgou nota declarando que “nega que tenha efetuado qualquer saque na conta SMP&B e informa que jamais manteve quaisquer contatos com representantes da citada empresa”.

As revelações mostram um tratamento bem diferente da cúpula tucana e pefelista quando se trata destes casos. No caso do caixa 2 admitido pelo tesoureiro licenciado do PT, Delúbio Soares, duas importantes lideranças da oposição, os líderes do PSDB, Artur Virgílio (AM), e do PFL, Agripino Maia (RN), foram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) protocolar um pedido de suspensão do repasse do Fundo Partidário para o PT (estimada em R$ 35 milhões para este ano). Será que Virgílio e Maia irão também protocolar o mesmo pedido ou aceitar que outros o façam em relação às suas siglas? Pelo que pode ser percebido da declaração de Jorge Bornhausen, tudo indica que não. Mas, se tomado o argumento apresentado por eles junto ao TSE e a declaração do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), na quinta-feira, de que “a crise política no país, em conseqüência de um gravíssimo desvio ético por parte de integrantes do PT exige rigor nas punições dos envolvidos”, seus partidos também deveriam sofrer corte no repasse.

Diferença de tratamento na mídia
Para o deputado petista José Eduardo Cardozo (SP), os indícios da presença de PSDB e PFL nas denúncias de irregularidades no financiamento de campanhas mostram que a promiscuidade nas arrecadações de finanças é um problema do sistema eleitoral e atinge todos os partidos. “O episódio ressalta a hipocrisia dos discursos do PFL e PSDB quando sugerem que a corrupção eleitoral nasceu com a chegada do PT ao governo”, critica. Para Cardozo, a diferença entre o PT e, por exemplo, o PFL está nas reações aos fatos. De acordo com o parlamentar, é ruim que ao invés de buscar a punição, partidos como o PFL prefiram, com falsidades, colocar a questão no prisma da disputa político-eleitoral. “Temos que ter coragem de fazer uma investigação transparente e radical, independente de partido”, defende.

Na opinião do deputado Ivan Valente (PT-SP), a diferença de tratamento dado ao PT e aos partidos de oposição nas denúncias é também reforçada pela mídia. “A grande mídia tem interesse em focar o PT nas denúncias por que o partido possui uma história diferenciada de defesa da bandeira da ética na política e da transformação social, e os veículos têm lado e interesses diferentes, geralmente ligados a grandes empresários e à direita”, analisa. Segundo Valente, não há disposição da grande mídia de investigar os casos das gestões passadas, como a de FHC, e as irregularidades ligadas a outros partidos que não os de sustentação do governo.

Na avaliação dos dois deputados, a situação tem se tornado crítica e deve piorar, envolvendo todos os partidos. “Tanto este episódio quanto os casos de governos anteriores não são apenas caixa 2. É evidente que estas empresas foram beneficiadas para doarem a quantia que doaram. A questão é conseguir provar como se deram estes benefícios”, comenta Ivan Valente. Na análise de José Eduardo Cardozo, atingindo todo mundo é difícil que haja uma sanção, o que evidencia a “necessidade de alterar o sistema de financiamento de campanhas”.

Outro tucano envolvido em caso de corrupção
Outro episódio ocorrido na quinta-feira evidenciou a visão de dois pesos e duas medidas dos tucanos. Enquanto todos os escândalos envolvendo petistas, principalmente a prisão do assessor do irmão de José Genoíno, José Guimarães, levando quase R$ 500 mil na cueca de São Paulo para o Ceará, foram tratados com espetacularidade de dentro do contexto das denúncias do mensalão, a prisão do ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena Filho, foi caracterizada como “crime de motivações políticas”.

Nesta quinta, Lucena, que ocupa atualmente a Secretaria de Planejamento e preside o PSDB na Paraíba foi preso, acusado de integrar uma quadrilha que, desde 1999, vinha fraudando licitações na prefeitura de João Pessoa. Lucena foi ministro do Planejamento no governo FHC. Segundo informou a PF em Brasília, serão cumpridos 27 mandados de busca e apreensão relativos à operação da quadrilha, que já teria desviado R$ 13 milhões em licitações. Ainda segundo a Polícia Federal, as investigações começaram em março deste ano, com base em uma auditoria feita no ano passado pela Controladoria Geral da União.

Em nota oficial, o presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo (MG), disse que os tucanos receberam com “estranheza” a notícia da prisão de Lucena. “É estranhável que o Ministério Público e a Corregedoria-Geral da União tenham buscado a medida extrema de um mandado de prisão sem sequer ouvir o ex-prefeito na esfera penal”, diz a nota. O líder do PSDB no Senado, senador Arthur Virgílio Neto (AM), procurou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para protestar contra a prisão de Lucena. Virgílio não encarou a prisão como “apuração rigorosa”, pelo contrário. O líder do PSDB advertiu Thomaz Bastos de que “a saída para o governo não é ficar criando culpados para tentar se salvar das acusações de corrupção” e chegou a ameaçar o governo. “Se este é o caminho que o governo escolheu, o Brasil passará por situações de enorme inquietação”.

Na reunião com Arthur Virgílio, o ministro Márcio Thomaz Bastos prometeu enviar ao senador toda a documentação que justifica a ação da Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público. Na tribuna do Senado, o líder do governo na casa, Aloízio Mercadante (SP), saiu em defesa da ação da PF. “A operação da Polícia Federal tem amparo judicial e é resultado de uma investigação prolongada”. Mercadante assumiu que a PF às vezes comete abusos, como no caso das investigações sobre irregularidades no Ibama no Matro Grosso, mas considerou que o saldo final é positivo. “Às vezes, pode ser um rigor abusivo, mas é um rigor republicano, que atua com a mesma eficácia diante de qualquer pessoa, seja um funcionário público ou um governador, por exemplo. A Polícia Federal não pode perseguir ninguém, mas também não pode proteger alguém apenas porque esta possua prestígio, poder ou dinheiro”.

Longa relação de Valério com o PSDB
Os saques feitos pelo funcionário ligado à deputada estadual mineira Vanessa Lucas (PSDB) não são o início da relação do partido com Marcos Valério. Uma importante denúncia que corre no Supremo Tribunal Federal e que envolve o publicitário e o presidente nacional do partido, Eduardo Azeredo, vem passando desapercebida pelos olhares da mídia. De acordo com informações do deputado estadual Durval Ângelo (PT-MG), a SMP&B teria recebido cerca de R$ 1,5 milhão da Comig (Companhia Mineradora de Minas Gerais) para fazer uma campanha publicitária a partir da cota de patrocínio paga pela estatal para o Enduro Internacional da Independência, realizado em setembro de 1998, quando Azeredo era governador do Estado.

Até aí nada de errado. O problema é que a cota de patrocínio estipulada pela Rede Globo somava R$ 150 mil, que somados aos R$ 10 mil de despesas da agência somam montante quase 10 vezes menor ao recebido pela Comig. O caso ganhou maiores proporções quando foi descoberto que a SMP&B havia recebido iguais R$ 1,5 milhão de outra estatal mineira, a na Copasa – Companhia de Saneamento de Minas Gerais, para o mesmo evento. “Para aumentar ainda mais a gravidade dos fatos, um relatório de checagem das veiculações de publicidade pela televisão, no período entre 15 de agosto e 7 de setembro de 1998, demonstrou que não foi transmitida nenhuma propaganda das Comig ou da Compas, como patrocinadoras do
enduro”, informa o deputado.

Segundo Durval Ângelo, a relação entre a SMP&B e o governo de Azeredo é mais complexa. O parlamentar revela que Clésio Soares de Andrade, então candidato à vice na chapa em que Azeredo disputava a reeleição e hoje vice de Aécio Neves, operou uma triangulação para repassar as cotas que sua empresa, a Holding Brasil, possuía na agência de Valério de volta para o publicitário e os outros sócios, Cristiano de Mello e Ramon Cardoso. “A triangulação, comprovada por documentos levantados no Cartório de Registro de Pessoas Jurídicas, é a demonstração de que o vice-governador de Minas, Clésio Andrade transferiu para seus próprios sócios as quotas da SMP&B, exatamente às vésperas de a empresa ser indicada para receber um repasse milionário [a indicação da SMP&B para a campanha do Enduro ocorreu em 7 de agosto]”, sustenta Ângelo.

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