Política

PT-RJ aposta no pragmatismo e se alia a PFL, PSDB e PTB

06/07/2004 00:00

Rio de Janeiro – Após duas décadas de acirrado embate entre as alas mais moderadas e os grupos mais à esquerda do partido – com os últimos acabando por abandonar a militância depois de sucessivas derrotas – o PT do Rio de Janeiro aderiu de vez ao pragmatismo eleitoral. Sem sofrer nenhuma contestação dos militantes mais radicais, com a exceção de algumas reclamações ilustres, os diretórios municipais e o diretório regional do PT seguiram fielmente a orientação da cúpula nacional do partido, que recomendou o estabelecimento de alianças locais com reais chances de vitória. Imbuído desse pragmatismo, e dotado de um poder de sedução só experimentado por aqueles que estão no comando do governo federal, o PT inaugura no Rio alianças com adversários históricos, como o PSDB, o PFL, e o PTB.

As alianças firmadas nos municípios do Rio de Janeiro e de Nova Iguaçu são as que mais chamam a atenção do eleitorado e também as que mais causam apreensão na militância petista. Na capital, o candidato Jorge Bittar recebeu de última hora o apoio do PTB, partido que é inimigo histórico do PT na cidade. O acordo – costurado no Palácio do Planalto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado federal carioca Roberto Jefferson, que é presidente nacional do PTB – seguiu a lógica nacional de aproximação entre os dois partidos, mas não se sabe que efeito terá sobre militantes e eleitores no Rio de Janeiro, onde o PTB é muito mal visto pelos simpatizantes da esquerda.

O que causa mais estranheza nos militantes petistas, no entanto, é mesmo a aliança firmada em Nova Iguaçu, que é o segundo maior município da Baixada Fluminense e o quarto maior colégio eleitoral do Estado, com mais de 470 mil eleitores. Lá, o deputado federal Lindbergh Farias, que já foi militante do PCdoB e do PSTU e é ex-integrante do chamado grupo de radicais do PT na Câmara, terá sua candidatura apoiada pelo PFL e pelo PSDB numa frente ampla contra o grupo político do ex-governador Anthony Garotinho, que atualmente está alojado no PMDB.

Satisfeito com a caminhada no Centro da cidade que abriu oficialmente sua campanha de rua nesta terça-feira (6), Bittar prefere minimizar o eventual desgaste que pode significar a aliança com o PTB junto aos eleitores petistas tradicionais: "Pude constatar nesse primeiro corpo-a-corpo que os militantes e simpatizantes do PT apóiam nossa candidatura com fervor e entendem as alianças firmadas. O PTB é um partido coerente, está sendo firme aliado do governo Lula. É nosso adversário tradicional no Rio, mas não é nosso inimigo", disse o deputado federal, acrescentando que "o PT nunca esteve tão coeso e unido em uma eleição para a Prefeitura do Rio".

Voto na legenda é desaconselhado
A direção do PT aposta que, no decorrer da campanha, a militância do partido vai acabar aceitando a entrada do PTB na coligação ao perceber que ela se reverterá em benefícios para a candidatura de Bittar em termos de tempo na propaganda eleitoral do rádio e da televisão e da maior capilaridade que os candidatos a vereador petebistas darão ao nome do petista: "É preciso lembrar também que, além de ganharmos alguns minutos de propaganda, tiramos alguns minutos de Cesar Maia, a quem o PTB iria apoiar antes de fechar conosco", afirma o presidente regional do PT, deputado estadual Gilberto Palmares, para quem a militância petista "já compreendeu" a aliança com o partido de Roberto Jefferson.

A participação do PTB num eventual governo Bittar foi confirmada por Gilberto Palmares: "Quem se dedica e é leal durante a campanha tem que governar", afirma. O próprio Jorge Bittar faz questão de acabar com qualquer dúvida sobre essa participação: "O PTB é nosso aliado no plano federal, onde está ajudando o presidente Lula a governar. Se vencer aqui no Rio, vou querer logicamente que o PTB governe conosco", disse o candidato.

Tanta identificação com o PTB, no entanto, não é compartilhada por todos os membros da direção regional do partido. A ponto de o vereador Edson Santos, que foi candidato a senador em 2002 e será o puxador de legenda na chapa do PT para o legislativo, recomendar publicamente aos militantes que desta vez não votem na legenda do partido, o que é prática tradicional dos petistas cariocas: "Vamos escolher candidatos do PT, pois agora nosso voto de legenda poderá beneficiar adversários históricos", disse.

O deputado estadual Alessandro Molon foi ainda mais longe: "Essa aliança com o PTB nada traz de positivo para a candidatura majoritária do PT e, nas candidaturas proporcionais, irá produzir uma distorção na representação democrática da cidade. O eleitor petista não quer ajudar a eleger candidatos que não tenham compromisso com as mudanças sociais e com novas formas de se fazer política", disse.

Todos contra Garotinho
Em Nova Iguaçu, o objetivo alegado pela direção do PT para a concretização de uma "aliança do crioulo doido" que reúne PFL, PSDB, PSB e PCdoB é a necessidade de derrotar o grupo político de Garotinho na Baixada Fluminense. Sem um candidato natural que pudesse fazer frente ao prefeito Mário Marques (PMDB), candidato a reeleição, lideranças como o ex-governador Marcello Alencar (PSDB) e o prefeito Cesar Maia (PFL) acabaram se aproximando do deputado Lindbergh Farias, que já lançara publicamente sua candidatura. Com os inusitados aliados que conquistou, o petista terá 26 minutos na propaganda eleitoral gratuita.

O presidente regional Gilberto Palmares justifica a aliança também como "parte da preocupação do PT em criar um projeto político sólido na Baixada", coisa que o partido jamais conseguiu fazer. O deputado explica que, para conseguir esse objetivo em 2004, o PT apostou em "candidaturas com reais chances de vitória", citando Lindbergh e também as candidaturas do ex-deputado estadual Artur Messias (Mesquita), do deputado federal do PSB Alexandre Cardoso (Duque de Caxias) e do ex-chefe de Polícia Civil Zaqueu Teixeira (Queimados).

Pragmático como nunca, Lindbergh acha a aliança com PSDB e PFL normal, e classifica sua candidatura como "nem de esquerda nem de direita": "Vivemos em Nova Iguaçu uma situação em que o quadro municipal se sobrepõe ao quadro nacional. O que formamos aqui foi uma ampla frente de oposição à administração atual e ao governo estadual", define. Por sua vez, Palmares reconhece que a aliança com tucanos e pefelistas "é rara, mas pode acontecer em um lugar ou outro num país com mais de cinco mil municípios". Segundo ele, vale tudo para o PT obter um resultado expressivo nestas eleições: "Temos um bom candidato e não temos porque recusar apoios. Se essas forças vieram nos procurar, só podemos aceitar. É preciso explorar as contradições locais", acredita.

O problema é que, aos olhos dos eleitores, a maior contradição nas eleições de Nova Iguaçu pode ser a própria presença de Lindbergh Farias na disputa. Apesar de candidato a prefeito, o petista, que é baiano, jamais morou, trabalhou ou teve militância política na cidade ou em qualquer outro município da Baixada Fluminense. Esse distanciamento acabou fazendo com que o Tribunal Regional Eleitoral negasse no fim de 2003 a mudança do domicilio eleitoral de Lindbergh do Rio para Nova Iguaçu, mas o deputado recorreu e acabou conquistando o direito de estar na disputa. O calcanhar-de-aquiles do petista, no entanto, será habilmente explorado por Mário Marques durante a campanha: "Ele nunca participou da política de Nova Iguaçu, é um estrangeiro que caiu de pára-quedas. Onde quer que eu vá, vejo que a população sabe disso e vai saber reconhecer quem sempre lutou por essa terra", afirma o atual prefeito.



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