Política

PT do Rio reclama de pouca presença no governo federal

30/01/2004 00:00

Rio de Janeiro - Quem é petista ou acompanha de perto a história do PT sabe que a relação entre a direção nacional e a seção do partido no Rio de Janeiro sempre foi problemática. Reduto da chamada esquerda do partido, o PT do Rio por diversas vezes se posicionou de forma contrária às políticas, sobretudo aquelas concernentes às alianças eleitorais, que eram elaboradas a partir da direção nacional. A distância política gerou inúmeras crises ao longo dos anos, como as duas impugnações de candidatura ao governo do Estado sofridas pelo então deputado federal Vladimir Palmeira. Em 1994 e 1998, Palmeira foi escolhido candidato, em convenção, pelas bases do partido, mas foi em seguida retirado da disputa pela ação política da direção que, na primeira oportunidade preferiu a candidatura de Jorge Bittar, e, em 98, impôs a aliança com Anthony Garotinho, sempre em nome de uma política nacional não muito bem digerida por militantes cariocas e fluminenses.
Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, estava colocada a oportunidade, na imaginação de alguns, para o PT do Rio ocupar um espaço mais respeitável na estrutura do partido. Quando foi anunciado o ministério de Lula, no entanto, a única representante do Rio presente era a ex-governadora Benedita da Silva. Alvo da gratidão de Lula por ter abandonado a seu pedido uma confortável eleição para o Senado para embarcar na canoa furada da disputa contra Rosinha Matheus, Benedita foi nomeada para a recém-criada pasta da Ação e Promoção Social. Dado como pule de dez para ocupar o Ministério das Minas e Energia, o carioca Luiz Pinguelli Rosa, acabou tendo que se contentar com a presidência da Eletrobrás.
A tímida presença dos quadros partidários do Rio no primeiro escalão do governo foi parcialmente compensada pelo Planalto com a indicação do deputado federal Jorge Bittar para relator do Orçamento de 2004, mas ainda assim a direção regional do PT reclamou mais espaço no governo. Não imaginava que, com a reforma ministerial, a representação do Estado ficaria ainda menor. Abalada pelo fraco desempenho e pelo episódio desgastante da viagem para um café da manhã evangélico em Buenos Aires paga com dinheiro do ministério, Benedita foi convidada por Lula a deixar o cargo. Para a ex-governadora foi oferecida a Secretaria Especial das Mulheres, mas ela recusou. O presidente então explicou que a secretaria era o único lugar onde ainda poderia encaixar alguém do PT do Rio no primeiro escalão. Sem alternativas, a direção fluminense do partido, com apoio de Benedita e Bittar, indicou para o cargo a ex-reitora da Uerj Nilcea Freire, que nem mesmo é especializada no tema.
Postos em estatais estão ameaçados
O pouco poder político do PT do Rio no governo corre o risco de ficar ainda menor se forem confirmados boatos de que um indicado do senador Renan Calheiros (PMDB) seria agraciado com a presidência da Eletrobrás, o que significaria a demissão de Pinguelli Rosa. Preocupada, a direção regional do partido fez novos contatos com Brasília e São Paulo: “Enviamos cartas ao presidente Lula, ao ministro José Dirceu e ao presidente do partido, José Genoino, reclamando de uma presença no governo que está aquém da capacidade técnica e política dos quadros do Rio”, afirma o presidente do PT no Rio, deputado estadual Gilberto Palmares, ressaltando que “não se trata de questionar as razões do presidente”, mas sim “alertar para o pouco peso do Rio de Janeiro’”.
Porta-voz das preocupações do petismo fluminense, Jorge Bittar esteve reunido com José Dirceu e Lula, antes do embarque do presidente para a Índia. O deputado lembrou a seus interlocutores que não apenas o PT, mas o Rio como um todo, saiu enfraquecido da reforma ministerial, uma vez que também perderam seus cargos os ministros das Comunicações, Miro Teixeira (PDT), e da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral (PSB). Bittar pediu a Lula que Pinguelli Rosa fosse mantido na Eletrobrás. Pediu também a manutenção do carioca Carlos Lessa (que não é petista, mas é próximo de petistas ilustres como os economistas Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares) na presidência do BNDES: “Lembrei ao presidente que o PT do Rio tem bons quadros para assumir postos no primeiro escalão. Pedi também proteção aos nossos quadros cujos cargos estão na mira de outros partidos da base do governo”, disse Bittar.
A curva de Benedita
Ninguém personificou melhor o ostracismo do PT do Rio nos últimos anos do que, justamente, a principal figura pública construída pelo partido no Estado: Benedita da Silva. Protagonista de uma ascensão política meteórica desde 1982, sempre campeã de votos como vereadora, deputada federal, senadora, vice-governadora e governadora, Benedita entrou em curva descendente ao liderar uma aliança, que viria a se revelar desastrosa para o PT, com o grupo político de Anthony Garotinho. Vice-governadora eleita em 1998, ela assumiu o governo em 2002, quando Garotinho deixou o cargo para enfrentar Lula nas eleições presidenciais. Sem dinheiro em caixa, sentada numa bomba-relógio armada pelo ex-aliado, Benedita fez um governo marcado pela confusão financeira. Acabou o mandato sem pagar o 13º salário do funcionalismo estadual e ainda viu as contas de sua gestão reprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado.
Como ministra da Ação Social, depositária da amizade e gratidão de Lula, esperava-se que Benedita desse a volta por cima em 2003. Não foi o que aconteceu: a ministra teve dificuldades para driblar a falta de verbas, e suas ações passaram despercebidas a ponto de ela ter sido eleita a pior ministra numa pesquisa feita com jornalistas ainda no meio do ano. Só não passou despercebida sua viagem a Buenos Aires, aonde foi - acompanhada de uma assessora e com tudo pago pelo governo - participar de um café da manhã de oração com evangélicos. Após o assédio da imprensa, os assessores do ministério ainda tentaram revestir a viagem de um caráter oficial, marcando um encontro de última hora com uma autoridade argentina. A emenda irritou mais Lula do que o soneto, e tudo piorou quando Benedita se recusou a devolver o dinheiro gasto na viagem e disse à imprensa que aguardaria o retorno do presidente, que estava viajando, para se pronunciar. Ao sugerir publicamente que o presidente poderia perdoar sua falha, a ministra começou a cair.
Sem cargo, Benedita ainda enfrenta a Justiça. O Ministério Público Federal deu entrada em 11 de dezembro do ano passado em ação por improbidade administrativa contra a ex-ministra, por causa da suspeita de mau uso do dinheiro público em três viagens internacionais feitas por ela (Buenos Aires é uma delas). No Rio, a ex-governadora também enfrenta uma ação de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público, por causa da diferença nas contas do Estado em 2002. Se condenada no âmbito federal ou estadual (onde responde juntamente com Garotinho), Benedita pode ter seus direitos políticos suspensos por até oito anos.
Benedita e Bittar disputam liderança
Fora do Ministério, Benedita da Silva ensaiou uma volta à luta política regional. No seu discurso de despedida dos funcionários, afirmou na frente de dezenas de repórteres que cultivava o sonho de ser prefeita do Rio. A repercussão dessa declaração mostrou as dificuldades que enfrentará até mesmo dentro do Campo Majoritário do PT no Rio: reunidos no dia seguinte, militantes da Articulação (tendência interna do PT da qual fazem parte Benedita e Bittar) soltaram nota reafirmando o apoio ao deputado: “Está mais do que consolidado o nome do Bittar”, disse Eugenio Soares, presidente do Diretório Municipal.
Para Gilberto Palmares, a candidatura de Bittar é a que apresenta “maiores chances de vitória” na disputa pela Prefeitura do Rio: “Ele é o que tem maior capacidade de aglutinação, seja num primeiro ou num segundo turno. Além disso, o presidente Lula e PT nacional estão firmes no apoio a Bittar”, garante. Consultado sobre a polêmica, o próprio Bittar deu uma resposta sintomática, pondo fim às pretensões da ex-ministra: “Ser prefeito do Rio é um sonho da Benedita, é um sonho meu também e, tenho certeza, é um sonho de milhares de cariocas”, disse.
Benedita chegou a divulgar uma nota de apoio a Bittar, afirmando que “o sonho de ser prefeita não precisaria ser realizado exatamente nestas eleições”, mas assessores garantem que ela ficou chateada com a dureza com a qual seu nome foi rechaçado. Estaria magoada, e por isso recusou a proposta de ser candidata a vereadora, puxando legenda para o PT. Procurada pela Agência Carta Maior, a ex-ministra afirmou que prefere não se pronunciar sobre este ou qualquer outro assunto. Na cerimônia de posse do novo ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, Benedita parecia nervosa e deprimida. Para os repórteres que perguntaram se ainda tinha vontade de disputar a Prefeitura do Rio, respondeu: “Vontade é coisa que dá e passa. Vou cuidar dos meus netos”.


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