Política

PT rebaixa programa ao apoiar Baleia Rossi pra Câmara, dizem deputados

Parte da bancada votou contra a adesão ao bloco articulado por Maia, acreditando que a oposição no Legislativo não é suficiente para derrotar de fato Bolsonaro.

07/01/2021 09:17

Baleia Rossi (MDB/SP) disputará presidência da Câmara com o apoio de pelo menos cinco partidos de esquerda (crédito: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

Créditos da foto: Baleia Rossi (MDB/SP) disputará presidência da Câmara com o apoio de pelo menos cinco partidos de esquerda (crédito: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

 
BRASÍLIA – O deputado federal Baleia Rossi (PMDB/SP) lançou oficialmente nesta quarta-feira (6) sua candidatura à presidência da Câmara dos Deputados, apoiado por um bloco de onze partidos: DEM, MDB, Cidadania, PV, PSDB, PSL e também PCdoB, PSB, PDT, Rede e PT. Vai disputar o cargo que ocupa o segundo lugar na linha sucessória presidencial contra Arthur Lira (PP/AL), que conta com o apoio do presidente Jair Bolsonaro. Enquanto PCdoB, PSB, PDT e Rede já haviam declarado apoio a Rossi, a bancada do Partido dos Trabalhadores tomou sua decisão nesta segunda-feira apenas, depois de um extenso debate entre os parlamentares e de uma votação apertada.

Na semana passada, o PT havia entregue a Rossi, em conjunto com os demais partidos de esquerda que aderiram ao bloco, uma carta contendo o compromisso de que, se eleito, o emedebista deveria “defender a democracia, a independência do Poder Legislativo e uma agenda legislativa que contemple direitos essenciais da população”. Em suas redes sociais, a presidenta do PT, Gleise Hoffmann, disse que o apoio não se confunde com o processo eleitoral de 2022, no qual a sigla seguirá confrontando a “agenda neoliberal, que esquece do povo”. Mas as justificativas dadas não reduziram o desgaste da escolha junto à militância e também ao eleitorado petista.

Em entrevista à CARTA MAIOR, deputados que votaram contra a medida afirmaram que o partido, ao agir assim, rebaixa seu programa, envia sinais contraditórios para a sociedade e perde uma oportunidade importante de disputar a macroconjuntura com Bolsonaro.

Rui Falcão (PT/SP): "Quanto mais desgastarmos o Bolsonaro, mais chances temos de abreviar o seu mandato" (Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

“Vivemos uma crise global, sem vacina, com mortes aumentando, com a redução do BPC à metade, com vetos a vários artigos da Lei de Diretrizes Orçamentárias, desemprego crescente, aumento da morte e miséria, congelamento do salário mínimo, continuidade da lei do teto - que vai tirar ainda mais recursos dos serviços essenciais - e fim do auxílio emergencial, que deu sobrevida à economia e a 60 milhões de pessoas em 2020”, explica o deputado Rui Falcão (PT/SP). “Com essa decisão, estamos abdicando de passar um mês defendendo o nosso programa para a atuação parlamentar, de falar da conjuntura, de criticar Bolsonaro. E quanto mais desgastarmos o Bolsonaro, mais chances temos de abreviar o seu mandato ou levá-lo à exaustão em 2022, para evitar um risco maior que seria um segundo mandato”, avalia.

Para a deputada Natália Bonavides (PT/RN), a gravidade da conjuntura é tamanha que não é apenas fazendo oposição parlamentar que a esquerda poderá reverter este cenário. “Não vamos derrotar o governo Bolsonaro somente com a oposição institucionalizada; precisaremos, e isso não é simples, aumentar muito o patamar de mobilização da classe trabalhadora. E isso fica ainda mais complicado quando a esquerda faz gestos que confundem, como se aliar com partidos e pessoas que denunciamos há meses, que estão protagonizando a retirada de direitos, que garantiram a estabilização do governo e se omitiram em pautar os pedidos de impeachment diante dos fartos crimes de responsabilidade que Bolsonaro cometeu. É um sinal muito ruim de passar, porque essa é uma disputa a ser feita na sociedade. Para derrotar o governo Bolsonaro, precisaremos nos conectar muito mais com a classe trabalhadora e isso é mais difícil quando a gente se alia com os algozes dela”, criticou.

Natália Bonavides (PT/RN): "A direita quer nossa adesão pra conseguir vencer e depois aplicar seu projeto" (Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

Para os petistas críticos da posição vencedora na bancada, o partido deveria ter ao menos uma candidatura própria para o primeiro turno, deixando para se somar a Rossi num segundo momento. A esquerda, em conjunto, teria mais de 20% dos votos em disputa e conseguiria levar a eleição para uma segunda rodada.

“Eu externei minha posição contrária na bancada. Minha opinião é que o PT deveria ter lançado uma candidatura no primeiro turno, colocando claramente seus pontos de programa, que são muito diferentes de parte dos partidos que compõem este bloco, como os partidos de direita. O partido fica desguarnecido em não ter uma candidatura agora”, disse o deputado Rogério Correia (PT/MG).

Justificativas

Aqueles que defenderam a adesão a Rossi desde o início a justificaram a posição com a carta-compromisso entregue ao emedebista e pelo fato de a integração do PT ao bloco dar melhores condições de negociação por cargos na mesa diretora, na presidência de comissões e na relatoria de matérias importantes – um dos cargos que podem ficar com o partido nessa condição é a primeira secretaria da Câmara. Só que, até agora, apesar de ter participado da negociação do documento, Rossi não assumiu publicamente o programa apresentado pelos partidos de esquerda. Além disso, não aceitou colocar na carta o compromisso de não privatizar empresas estratégicas para o desenvolvimento nacional.

“Suponha que, a partir da semana que vem, Rodrigo Maia diga que esses compromissos foram assumidos por Baleia mas que a Casa precisa continuar a votar sua pauta e que Baleia silencie diante disso ou vá na mesma direção. O que restará ao PT fazer? Por isso é importante ter a dimensão de que as coisas somente vão se resolver na luta popular”, acredita Rui Falcão.

Fontes ouvidas pela CARTA MAIOR dizem que Baleia Rossi teria se comprometido com a esquerda em não pautar temas como a autonomia do Banco Central e em não votar a privatização de qualquer empresa pública sem acordar seu rito com o conjunto dos partidos. Mas que não estaria publicizando isso para não perder apoio dos partidos de direita que integram o bloco. Seu oponente, Arthur Lira, tem dado declarações de que haverá defecções em todos os partidos que fecharam com Rossi e a disputa está apertada.

Outro ponto central para o PT e tampouco assumido por Baleia Rossi é a recepção de ao menos um dos pedidos de impeachment contra Bolsonaro. A avaliação dos petistas ouvidos pela reportagem é a de que o papel do presidente da Câmara não é analisar se há votos suficientes ou não para o afastamento do presidente da República, mas garantir que, havendo base legal, o processo seja aberto. Lembram, por exemplo, que mesmo sem sofrer o impeachment, o processo contra Donald Trump nos Estados Unidos foi importante para sua não reeleição. Sem candidato próprio da esquerda, sequer esta questão será pautada nos debates sobre a eleição da Câmara ao longo deste mês.

“Esses setores não vão se comprometer com as pautas que importam pra gente. Apenas dão sinalizações com eufemismos, que mostram que sequer podem assumir publicamente qualquer coisa minimamente central pra nós. É por isso que, com esse gesto, acabamos rebaixando nosso programa. A direita quer nossa adesão pra conseguir vencer e depois aplicar seu projeto”, afirma Natália Bonavides.

Para a deputada potiguar, tomar uma decisão com base apenas em benefícios para o cotidiano da Câmara é esquecer que essa conjuntura só poderá ser enfrentada com grande política. “É verdade que aderir no primeiro turno permite ter espaços melhores, mas considerar que isso é mais relevante na disputa que estamos fazendo nessa conjuntura é esquecer que toda a oposição parlamentar que fizemos no ano passado não foi suficiente para derrotar o governo Bolsonaro. Em 2020, fizemos de tudo, usamos todos os mecanismos institucionais disponíveis e terminamos o ano assim”, lembra a deputada.

Esquerda desunida

A pergunta que muita gente se faz é por que os partidos de esquerda não se uniram para lançar uma candidatura do campo ou ao menos para negociar programaticamente com a oposição de direita em melhores condições que as dadas neste momento. Olhando para o resultado das eleições municipais, parece um tanto óbvio que a constituição de uma frente de esquerda permanente é mais do que necessária para a sobrevida do campo progressista.

Ao longo dos últimos meses, houve várias reuniões entre PT, PDT, PSB, PCdoB, Rede e PSOL, em busca de uma tática conjunta para a eleição na Câmara. Mas o debate interno dentro de cada partido acabou fazendo com que as decisões de cada um de entrar no bloco costurado por Rodrigo Maia e, posteriormente, de apoiar Baleia Rossi, fossem tomadas de modo individual.

Um dos primeiros partidos de esquerda a aderir ao bloco, o PCdoB tomou sua decisão com o objetivo de garantir a derrota do candidato de Bolsonaro. Na avaliação do deputado Orlando Silva (PCdoB/SP), uma candidatura própria de esquerda nessa conjuntura, com o governo operando para eleger Arthur Lira, fragmentaria votos e iria produzir um resultado muito parecido com o de 2015, quando Eduardo Cunha (PMDB/RJ) foi eleito para presidir a Câmara enfrentando Arlindo Chinaglia (PT/SP).

“Lira está há dois anos construindo sua candidatura, e avançou na disputa dando aquilo que deputado gosta: emendas, recursos pra suas cidades, etc. Ele consegue penetrar inclusive em bancadas de partidos que formalmente apoiam o Baleia. Então é uma disputa difícil, em que a manutenção de uma candidatura pura e simples para reforçar nossa identidade poderia tornar muito frágil a alternativa da oposição de direita a ponto de Arthur liquidar a questão já no primeiro turno”, explica Orlando Silva. “Concordo com quem diz que Arthur Lira e Baleia Rossi são parecidos. O problema é que, na configuração da disputa, a vitória de Lira virou a vitória de Bolsonaro. Então isso mexeu no jogo”, relata.

Um dos líderes mais ativos na busca pela unidade da esquerda em torno do nome de Baleia Rossi foi o deputado Alessandro Molon (PSB/RJ). Ele tinha uma bancada dividida, e se empenhou a ponto de conseguir ampla maioria entre seus parlamentares além da decisão unânime da direção nacional do PSB pró-Rossi. “Sabemos que ele não é oposição. Não temos essa ilusão, mas não queremos ter um presidente da Câmara governista, queremos um presidente independente", declarou Molon ao Congresso em Foco.

Orlando Silva (PCdoB/SP): "Na configuração da disputa, a vitória de Arthur Lira virou a vitória de Bolsonaro. Isso mexeu no jogo" (Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados)

Para Rui Falcão, o ideal seria a esquerda sair unida disputando com candidato próprio. Mas como outros partidos já tinham ingressado no bloco de Rodrigo Maia e recusaram a possibilidade de uma candidatura de esquerda dentro do bloco, não houve alternativa. “Definimos que tentaríamos manter a esquerda unida, mas a esquerda se antecipou, correu para o bloco e passou, de dentro do bloco, a nos pressionar para apoiar o Baleia”, contou o petista. “Há quem imagine que Dória pode ser aliado para derrubar Bolsonaro e há quem diga que o golpe de 2016 não é um fato estruturante, simplesmente um fato do passado. Então há uma confusão de linha política, inclusive dentro do PT, que deveria ser clarificada”, acrescentou Falcão.

“Foi muito equivocado que desde este primeiro momento quase todos eles tenham optado por escolher entre duas candidaturas de direita, sob o pretexto de derrotar o candidato de Bolsonaro, quando na verdade esse debate poderia ser feito num segundo turno, após fazermos o debate com a sociedade do nosso programa e defender temas que sabemos que não vão ser pautados por nenhuma das duas candidaturas, que tem muito mais em comum do que tem diferenças”, completou Natália Bonavides. Para ela, seria o momento da esquerda ter se unido em torno de um programa que preservasse os direitos da classe trabalhadora e que denunciasse todo o desmonte que tem sido protagonizado por esses dois setores da direita.

“A esquerda perde protagonismo quando faz esse gesto, se anula em alguma medida e passa a influenciar menos do que poderia se se unisse em torno de um programa próprio. Fica assim em piores condições de ser instrumento de uma subida de patamar da mobilização social. Acabamos fortalecendo um setor da direita, que saiu muito vitorioso das eleições municipais, e que com essa decisão ficará em melhores condições para a disputa presidencial”, afirma Bonavides.

A falta de uma agenda comum da oposição de esquerda, que oriente a ação dos partidos de maneira permanente, foi um dos obstáculos para a saída conjunta. “O antibolsonarismo é um tema, mas negociar com Rossi em termos programáticos só seria possível se houvesse coesão da esquerda em torno de uma agenda. É um erro da nossa vivência; não tivemos capacidade de construir uma agenda comum para o país. Então este é mais um processo em que entramos sem a coesão necessária para a construção de uma alternativa de esquerda de verdade, que polarizasse setores mais amplos. Só a esquerda não adiantaria nesta disputa”, acredita Orlando Silva.

Antes de o PT definir seu apoio a Baleia Rossi, Rodrigo Maia declarou que o bloco de partidos até então formado era um bom início para a disputa 2022, reunindo o centro e parte da esquerda sem o PT.

A bancada do PSOL está dividida e a Executiva do partido deve se reunir no próximo dia 15 pra deliberar sobre o tema. É possível que os socialistas apoiem Rossi ou lancem candidatura própria. Um dos nomes cotados é o da deputada mineira Áurea Carolina. Se ficar no bloco, a esquerda sairá unida nas eleições da Câmara, só que apoiando um candidato da direita.



Conteúdo Relacionado