Política

Pandemia e impeachment: novos ventos

 

27/01/2021 12:35

(Sergio Lima/AFP)

Créditos da foto: (Sergio Lima/AFP)

 
Os fatos não penetram no mundo onde vivem nossas crenças (Proust)

No fim de semana de 23 e 24/1, tivemos duas carreatas pelo impeachment promovidas por grupos ideológicos diferentes. A de sábado, uma carreata do campo democrático. A de domingo reuniu dissidentes bolsonaristas que até há pouco apoiavam o Governo.

Como chegamos até aqui? Muitos fatores se entrecruzam para explicar essa situação. Entre eles, destacamos os seguintes:

a) Golpe do impeachment da Dilma sem crime de responsabilidade, violando a Constituição;

b) criminalização do PT pela mídia que apoiou Bolsonaro e condenação de Lula pela Lava Jato, sem prova nenhuma, para barrar sua candidatura;

c) apoio entusiástico da mídia ao projeto neoliberal e ao movimento político da Lava Jato, que protegeu a corrupção de seus aliados do PSDB, dos juízes acusados de venderem sentença, afastou as empreiteiras brasileiras dos mercados africano e asiático - abrindo caminho para a maior expansão das empresas americanas - e condenou com ou sem provas seus adversários políticos.

É importante assinalar que não houve estelionato eleitoral: Bolsonaro sempre defendeu a tortura, armas para todos, guerra civil e a ditadura militar. Em 27 anos como deputado, nunca criticou a corrupção, pertenceu durante 20 anos ao partido de Maluf que, na época, era o maior corrupto do Brasil, posição essa agora ameaçada após a divulgação dos gastos alimentícios do atual Governo totalizando 1,8 bilhão em 2020, com destaque para 15 milhões em leite condensado, 2,2 milhões em chicletes, 32 milhões em pizzas e refrigerantes etc.

Não será fácil aos historiadores do futuro explicar como um candidato culto, competente e honesto como Haddad perdeu para uma caricatura ignorante, incompetente, corrupta e autoritária como Bolsonaro, ainda por cima vinculado aos criminosos das milícias no Rio de Janeiro.

É esclarecedor lembrar o que ele disse no início do seu Governo: “Vim para destruir, não para construir”. Está cumprindo sua promessa: promove a destruição da saúde, educação, cultura, ciência, meio ambiente, direitos humanos, política externa independente. E até agora tem contado com a cumplicidade da maioria do Judiciário na aplicação das leis. Em sua palestra na Mesa organizada em 25/1/2021 pela Carta Maior e Fórum 21 durante o Fórum Social Mundial, Noam Chomsky nos relembrou a famosa frase de Balzac: “As leis são teias de aranha pelas quais as moscas grandes passam e as pequenas ficam presas”.

O Governo Federal é ocupado por um bando de ministros incompetentes de extrema direita: destacamos Weintraub contra a Educação (substituído por uma nulidade), Salles contra o Meio Ambiente, diversos Secretários contra a Cultura, Araújo contra o interesse do Brasil e a favor de Trump, a pastora Damaris contra os direitos humanos, Teresa Cristina autorizando agrotóxicos proibidos na Europa.

Além desses, temos o Guedes, o grande vilão, o Robin Hood às avessas, que tira dos pobres para dar aos ricos. Foi didática sua intervenção na famigerada reunião ministerial de 22/4/2020, gravada e depois divulgada, quando afirmou: “Ganharemos dinheiro transferindo recursos públicos para as grandes empresas, e perderemos dinheiro transferindo para pequenas empresas”. Para ele, o Estado é um aparelho de saque a serviço das empresas, e não a serviço do interesse público.

Mas, na corrida da incompetência, o ministro Pazuello merece destaque especial. Um desastre a sua necro gestão da pandemia! Perdeu o prazo de validade de 6,8 milhões de testes de Covid e só conseguiu 1/3 das seringas e agulhas necessárias. Ele se apequenou diante da atitude estúpida do Presidente genocida, seu chefe, que negou a pandemia (gripezinha, conversinha) e sabotou a vacina (vira jacaré). Enquanto em junho passado o governo de SP negociava a vacina Coronavac, em novembro Bolsonaro dizia que não ia comprar a “vacina chinesa do Dória”. Somente agora, em janeiro de 2021, ele muda de opinião e mente, como sempre.

Além disso, a diplomacia do governo brasileiro atacou a Índia para agradar Trump, votando na OMC contra a proposta indiana de suprimir as patentes da vacina da Covid. A Índia é o maior produtor mundial de remédios e vacinas. Por outro lado, o ministro das Relações Exteriores, Bolsonaro e filhos atacaram várias vezes a China, produtor de insumos para a vacina. A submissão servil a Trump prejudicou gravemente os interesses do Brasil, confirmando a lenda de que os ventos do norte trazem desgraça.

Não há nenhum projeto nacional. Havia até agora uma submissão incondicional ao governo Trump que, ao perder a eleição, deixou Bolsonaro isolado. O país vive uma crise terrível com a escalada da pandemia. O colapso brutal do sistema de saúde em Manaus, onde os pacientes morrem por falta de oxigênio, ameaça se estender ao resto do país. Como o governo Bolsonaro negou a pandemia e sabotou a vacina, hoje estamos no fim da fila para aquisição da vacina. Sem o auxílio emergencial, a penúria atinge 100 milhões de brasileiros, cuja situação é ainda mais grave pela pesada inflação no custo dos alimentos de base. E a crise econômica que irrompe com a pandemia ameaça as pequenas empresas que já começaram a fechar com a queda no consumo.

Diante desse quadro, a oposição não pode se limitar à luta parlamentar pela eleição das Mesas na Câmara e no Senado. De vários setores da sociedade civil chega o clamor por uma agenda política para aprovar um novo auxílio emergencial, uma CPI da pandemia, um plano nacional de vacinação, um programa de produção e distribuição de alimentos básicos, e a criação de uma comissão científica para assessorar o Congresso. Por último, e igualmente urgente, uma campanha nacional pelo impeachment de Bolsonaro.

A tragédia de Manaus foi um ponto de virada que assustou a nação e aumentou o apoio a uma campanha de impeachment que os partidos da oposição não quiseram levar adiante ano passado. O colapso do sistema de saúde em Manaus ajuda a explicar o fato de setores da direita estarem desembarcando do Governo que, entretanto, ainda conta com o apoio de importantes empresários, militares e evangélicos.

Segundo alguns analistas, porém, esse apoio não vai durar muito. Ficará restrito ao “bolsonarismo raiz”, cujas crenças são imunes aos argumentos racionais. Esse núcleo irracional de apoio continuará fiel a Bolsonaro. Como afirmou Proust, a razão não penetra no mundo onde vivem as crenças.

Mas, ao que tudo indica, novos ventos começaram a soprar em 2021. A sociedade já pressiona pelo impeachment. E está ficando cada vez mais claro que é na luta política deste ano que será decidida a eleição do ano que vem.



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