Política

Para além da resistência democrática

 

26/01/2021 14:40

(Reprodução/bit.ly/2Mmva6B)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/2Mmva6B)

 
A democracia no Brasil resiste, e é não de hoje. Mas agora ela não apenas resiste, ela contra-ataca.

Não preciso acumular evidências para corroborar essa afirmação rombuda – estamos todos vendo e participando, de uma forma ou outra, desse movimento de revide, que não é inédito, mas ganha intensidade maior nesse começo de ano.

Nem preciso me deter aqui sobre os fatores que o explicam, e à conjuntura nova por ele inaugurada. São vários, mas um deles é óbvio: a incúria, a indiferença, o descaso criminoso face à situação que logo se converteria na tragédia de Manaus. O quadro imaginariamente projetado em nossa mente – e de tantos como nós -- foi demais. Mortes por asfixia devido à falta de oxigênio em hospitais são mais que simples passamentos, são mortes cruéis, crudelíssimas, dignas de cultores do mal, admiradores confessos de torturadores abjetos. A partir daí a convicção firmou-se: todos os limites foram ultrapassados. Basta! Não podemos conviver com esse estado de coisas, ou não conseguiremos nos olhar uns aos outros sem um sentimento de vergonha insuportável.

O morticínio manauara foi um marco, um divisor de águas. A indignação que ele provocou não explica a mudança de ânimo, mas desencadeia a inflexão presente, que não será “corrigida” fácil, ou rapidamente. O governo Bolsonaro não escapará da responsabilização pela catástrofe. É nesse momento de grande fragilidade do inimigo que a democracia contra-ataca.

Não vou insistir nesse ponto, mas devo chamar a atenção para dois aspectos um pouco mais sutis, que marcam a conjuntura atual e nossa posição (das forças democráticas) nela.

O primeiro é a duração da dita resistência. A democracia no Brasil resiste há tempos, desde muito antes do advento do governo genocida de Bolsonaro. Desde meados da década passada, pelo menos, quando foi arquitetado o golpe judicial-midiático contra Dilma Rousseff, operação que foi muito mais do que um complô para depor a Presidente recém reconduzida ao cargo em eleição limpa e fortemente disputada. Foi um golpe para anular a esquerda e os setores populares como forças relevantes na vida política nacional; um golpe contra a Constituição de 1988 e o pacto social que a alicerçava.

A democracia resistiu em 2015/16 – nós resistimos! – mesmo tendo cometido muitos erros. Mas fomos derrotados.

Esse é o primeiro ponto essencial a salientar. Hoje nós atacamos, mas esse movimento ofensivo é de natureza eminentemente tática. O que continua a caracterizar o período, do ponto de vista da democracia no Brasil, é a defensiva estratégica.

O segundo elemento a destacar é o que em grande medida torna possível – e ao mesmo tempo perigoso – o momento atual. Nós não estamos sozinhos ao resistir à ameaça específica à democracia representada pelo facínora e seus asseclas.

A necropolítica de Bolsonaro é e deve ser hoje o nosso alvo principal. O imperativo maior no momento é por um fim a seu desgoverno. Mas quando clamamos “fora Bolsonaro!”, não estamos sozinhos. O nosso brado ecoa e é multiplicado por vozes que até ontem estavam nos alvejando, na linha de frente do golpe contra a democracia. As expressões desse fato são várias, mas a mais eloquente foram as carreatas deste fim de semana: nossas, no sábado: no domingo aquelas convocadas pelo MBL e pelo Vem Pra Rua.

Trata-se de um fato. O homem faz a história, mas em circunstâncias que não são escolhidas por ele. É nesse ambiente turvo que atuamos hoje, e é nele que iremos bater Bolsonaro e seus comparsas.

Mas, porque não faremos isso sozinhos, porque nosso inimigo está sendo bombardeado igualmente por quem procurou nos ferir de morte em passado não distante, não podemos perder de vista que nessa luta precisamos operar um duplo movimento: 1) atacar vigorosamente o inimigo, derrubá-lo, ou no mínimo degradá-lo a tal ponto que não apresente uma ameaça real em futuro próximo; 2) construir a unidade em nosso campo, acumular forças, e prepararmo-nos para virar o jogo, isto é, transitarmos para a ofensiva estratégica.

Ao falar em unidade e ofensiva estratégica não estou pensando nas eleições presidenciais de 2022. A experiência nos lembrou dessa verdade que sempre soubemos – ou deveríamos ter sabido – que eleições não são varinhas de condão, que elas podem ser ganhadas e perdidas logo a seguir, pela inexistência de meios para dar realidade à promessa que elas encerram.

O que nos incumbe neste ano crucial não é – não é apenas --construir um arco de alianças capaz de assegurar a vitória na disputa eleitoral de 2022. É forjar um bloco político e social suficientemente amplo e integrado para fazer face ao desafio histórico gigantesco de reconquistar o Brasil, reconstruir esse país devastado, e devolver à sua gente sofrida um horizonte generoso de futuro em que ela tenha razões sólidas para confiar.



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