Política

Para tucanato, Alckmin soube emparedar Serra

14/03/2006 00:00

BRASÍLIA - Depois de três meses resistindo aos apelos para assumir a candidatura à Presidência, o prefeito de São Paulo, José Serra, saiu do armário na tarde desta segunda-feira (13). “Eu já decidi deixar à disposição do meu partido a possibilidade da candidatura à presidência da República. Se o partido entender que eu deva ser candidato sem prévias, sem disputas, eu serei”, declarou Serra pouco antes de seguir para um encontro derradeiro com a cúpula do partido encarregada de encontrar uma saída sem traumas da disputa velada que ele travava com o outro candidato tucano, Geraldo Alckmin. “A questão de prévia, como tem sido posta, inclusive por um legítimo postulante à candidatura, muito legítimo, que é o governador Alckmin, ela, a meu ver traria problemas de divisão no nosso partido, de dividir forças numa hora que precisa estar todo mundo junto”, completou o prefeito, revelando que o poder de decisão estava nas mãos do governador de São Paulo.

Era tarde demais. “Se Serra tivesse dito ao Tasso (Jereissati, presidente do PSDB) que queria ser o candidato quatro meses atrás, ele teria como viabilizar o consenso interno”, considera o deputado tucano Custódio Mattos (MG), aliado do governador mineiro Aécio Neves. A avaliação geral entre os tucanos é que Alckmin soube emparedar Serra, utilizando como trunfo a principal vulnerabilidade do prefeito. Tendo assumido o compromisso público de que não estava fazendo da Prefeitura de São Paulo um trampolim para uma nova disputa da Presidência, ele não poderia postular a candidatura publicamente, como fez o governador.

Alckmin trabalhou essa fraqueza de Serra, costurando apoios no partido e no empresariado, e assegurando que não abriria mão da disputa. Não foi difícil. Serra tem características que provocam arrepios e antipatias. É considerado um economista heterodoxo, o que assusta quem está satisfeito com o modelo macroeconômico. É centralizador, autoritário e despreza os rapapés. O que deixa mágoas e ressentimentos espalhados pelo caminho circular da política. “É impressionante a divisão na bancada entre pró-Serra e anti-Serra”, observa o deputado neotucano Gustavo Fruet (PR).

Para se viabilizar como candidato em 2002, Serra foi atropelando muita gente no caminho. Inclusive o ex-ministro da Educação Paulo Renato e o então governador do Ceará, Tasso Jereissati, que, mesmo aborrecido com o rival, compareceu ao ato de lançamento da candidatura dele. Vivendo o outro lado do balcão quatro anos depois, Serra preferiu expor publicamente sua insatisfação com a decisão do partido. Não foi à festa de Alckmin e soltou uma nota em que considera o governador “habilitado para vencer a eleição”. “Esse é o jeito do Serra. Ele fica revoltado, mas depois passa”, relevou o deputado Bismarck Maia (CE), fiel seguidor de Tasso. Ele defende que Serra seja o “comandante do processo” de viabilização da candidatura Alckmin.

Custódio Mattos aposta na habilidade política do governador paulista para a reconciliação. “Se fosse o contrário, seria mais difícil”, avalia, comparando o temperamento dos dois. A recomposição passa, com certeza, pela escolha do candidato ao governo de São Paulo. Uma espécie de acordo tácito previa que o preterido para disputar a Presidência teria a prerrogativa de indicar um nome de sua preferência, uma vez que entre os postulantes tucanos ninguém se destaca por conta própria.

Há quem ainda defenda a candidatura do próprio Serra para o governo do Estado. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, vê “com simpatia” a possibilidade de Serra disputar o comando do Palácio dos Bandeirantes. De acordo com o vereador José Aníbal, um dos que concorrem à vaga de candidato ao governo do Estado, a direção estadual do PSDB vai definir os procedimento e a data da nova escolha na próxima segunda-feira (20). “Pode haver prévias, se for necessário. É melhor que não haja? Se as circunstâncias permitirem, se isso significar maior convergência e unidade do partido, sim”, coloca. O deputado “serrista” Alberto Goldman prevê uma outra “guerra” interna pela candidatura: “Minha opinião é que Aécio deve se preocupar com Minas Gerais e deixar São Paulo para nós”.

Paira também uma suspeita de que o prefeito tucano poderá fazer um apelo para que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso assuma a tarefa. Seja por falta de melhor opção ou por vingança. Tem tucano que enxerga o dedo de FHC por trás da candidatura Alckmin. O governador teria mais condições de lustrar a biografia do ex-presidente, ofuscada, especialmente, pela gestão da economia por parte do governo Lula.

Crédito e opiniões de adversários
Serra sai com crédito da disputa, mas o papel que ele irá desempenhar na campanha eleitoral ainda não está claro. Esta semana, deve ser divulgada uma nova pesquisa em que o prefeito melhora seu desempenho. A dúvida entre alguns tucanos é se ele estaria disposto a transferir o capital político a Alckmin. Outros acreditam que a preferência por Serra será transferida automaticamente para o governador tucano. “O voto no Serra é um voto anti-Lula”, afirma Mattos. Ele avalia que Alckmin é um candidato mais fácil de ser trabalhado na campanha, pois não está identificado com a aristocracia tucana. Acredita também que as “escaramuças” no partido tenham ajudado na construção da imagem que o candidato tucano apresentará na disputa, de um político determinado, que enfrentou a cúpula aristocrática do PSDB para se impor como candidato.

No PT, a escolha de Alckmin foi entendida como decisão “conservadora”. Para o presidente do partido, Ricardo Berzoini, a cúpula do PSDB não quis abrir mão da Prefeitura de São Paulo para se lançar em uma disputa sem a certeza de vitória. Esse foi um argumento usado pelos tucanos que defenderam a candidatura Alckmin. Pode ter sido positivo para a disputa interna, mas o efeito externo tornou-se reverso. Ao abrir mão do candidato mais competitivo, a cúpula do PSDB estaria preparando o terreno para 2010. Se houver mudança no cenário, qualquer dos dois tucanos seria beneficiado na eleição deste ano. Se a tendência a favor da reeleição de Lula prevalecer, o custo político seria pequeno, pois daqui a quatro anos, o PSDB teria vários nomes fortes para apresentar.

Berzoini assegura que a estratégia do PT para a eleição deste ano não se altera com a escolha de Alckmin. Ele diz que o partido estava preparado para qualquer hipótese e que as diferenças entre os dois candidatos tucanos não eram substanciais. O foco central do PT será a comparação entre o governo Lula e o de FHC. O líder do partido na Câmara, Henrique Fontana (RS), já ensaiou o tom: “Se fosse para escolher, o PT preferia que o candidato tucano fosse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele simboliza melhor o que foi seu próprio governo. Alckmin significa a volta ao passado. Quem defende a privatização vai votar no Alckmin. Quem não quer o Bolsa-família vota no Alckmin, que considera o programa demagógico e assistencialista. Quem acha que criar 104 mil empregos por mês é melhor do que 8 mil, vai votar no Lula. Ainda há muito por fazer, mas a situação do país, hoje, está bem melhor do que encontramos”.

*colaborou Marcel Gomes, de São Paulo.


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