Política

Paris oferece boas alternativas de mobilidade, mas congestionamentos persistem

26/09/2012 00:00

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Créditos da foto: http://photos.parisinfo.com/
Paris - Em poucos anos Paris se transformou completamente com o surgimento de espaços específicos para a circulação de bicicletas, a criação de corredores exclusivos para ônibus, a irrupção de uma rede pública de carros elétricos e o redesenho global do traçado de circulação. No entanto, Paris continua sendo uma das cidades mais congestionadas da Europa.

Os esforços para romper o cerco do automóvel têm sido constantes nos últimos dez anos. Desde que o socialista Bertrand Delanoë ganhou as eleições municipais de 2001, Paris deu início a uma etapa de mudanças com duas metas: reduzir o fluxo de carros e a contaminação do meio ambiente.

A cidade conta hoje com 700 quilômetros de ciclovias. O “Plano Bicicleta” previa a construção de 800 quilômetros até 2020; portanto, como ressaltam as autoridades da prefeitura parisiense, “esse objetivo já foi praticamente alcançado”. Delanoë conseguiu criar o hábito das duas rodas com a instalação de uma ambiciosa estrutura que compreende não apenas os corredores para os ciclistas mas também um serviço público de aluguel de bicicletas disponível por toda Paris. Trata-se do famoso Velib.

A capital francesa e sua região metropolitana contam com 20 mil bicicletas de aluguel espalhadas por mais de 1.208 estações de autoatendimento. Os usuários podem utilizá-las mediante um abono mensal, semanal ou diário. No total, 224 mil pessoas estão vinculadas anualmente a esse serviço, que funciona 24 horas por dia. Segundo dados oficiais, entre 2007 e outubro do ano passado foram 135 mil aluguéis diários, responsáveis por 119 milhões de viagens.

No fim de 2011, a prefeitura de Paris criou ainda um serviço similar para carros elétricos, o Autolib, primeiro serviço público desse tipo oferecido em formato de autoatendimento por uma grande metrópole europeia. Os parisienses ainda olham com certo assombro para esses carros elétricos, pequenos e confortáveis, que permitem realizar deslocamentos curtos, estacionar sem dificuldades e, além disso, circular sem gerar contaminação. O Autolib é um serviço recente e está em pleno desenvolvimento. Hoje, Paris conta com cerca de 1.100 carros elétricos disponíveis nas cerca de 800 estações de autoatendimento.

Transporte público
Esses dois dispositivos urbanos se somam à rede de transportes públicos da cidade, uma das mais extensas e completas do mundo. Com a exceção dos táxis e, em menor medida, dos mototáxis, na França não existe transporte urbano privado. O conjunto do tráfego, o metrô e o sistema de ônibus é administrado pela empresa pública RATP. A primeira estação de metrô foi criada em 1900. Paris conta hoje com uma rede de linhas de metrô que cobre um total de 226 quilômetros e por meio da qual viajam mais de quatro milhões de pessoas por dia. A rede de ônibus públicos é igualmente densa: 351 linhas cobrem 3.861 quilômetros e transportam a cada ano mais de um bilhão de pessoas.

No entanto, a existência de uma sólida rede de transportes públicos, bicicletas e pequenos carros elétricos não pôde até agora melhorar sensivelmente a qualidade da circulação. A densidade do tráfego continua sendo um quebra-cabeças e os engarrafamentos uma tortura para os motoristas, que perdem cerca de 40 horas anuais no trânsito, principalmente nas avenidas periféricas que circundam a capital francesa e marcam o limite com os subúrbios.

Uma estatística elaborada pelo Inrix (organismo internacional de estatísticas sobre o tráfego mundial) mostra que a França ocupa o sexto lugar entre os países mais engarrafados da Europa, atrás de Bélgica, Holanda, Itália, Grã Bretanha e Espanha e à frente de Alemanha, Áustria e Portugal. Entre as cidades, a de pior tráfego é Milão (Itália), seguida por Bruxelas e Enveres (Bélgica) e Paris. Na capital francesa, após cinco anos de diminuição constante do número de acidentes, 2011 foi um ano de aumento dos casos. Foram 7.239 feridos, 710 feridos graves e 50 mortos, contra, respectivamente, 7.181, 707 e 43 em 2010.

Acidentes fatais
Uma análise mais detalhada dessas cifras revela que os pedestres continuam pagando o preço mais alto: são 54% das vítimas fatais. Mas os automóveis não levam toda a culpa: em 45% dos casos, os próprios pedestres são responsáveis pelos acidentes. A segunda categoria mais vulnerável são os motociclistas, que representam 32% das mortes (16). Os ciclistas, por outro lado, usufruem de um alto índice de segurança. Em 2009, morreram seis ciclistas na capital francesa, em 2010, dois, enquanto em 2011 não houve vítimas fatais. No entanto, os acidentes em que eles estão envolvidos aumentaram: 688 em 2011 contra 552 em 2010.

Além dos acidentes e engarrafamentos, a contaminação atmosférica perdura como um problema central. Os estudos científicos se contradizem de maneira radical e cada partido político os utiliza de acordo com seus objetivos. Aos que optam por medidas radicais como a redução de velocidade dentro da cidade (em Paris, o limite é 50 km/h), vários trabalhos científicos respondem dizendo que se a velocidade é reduzida em 30%, a contaminação se reduz apenas entre 3 e 5%. Um veículo contamina menos a uma velocidade de entre 30 e 70 km/h, enquanto o pico mais alto de contaminação se situa abaixo dos 30 km/h.

Vários estudos científicos realizados em Paris pela Airparif, a rede de supervisão da qualidade do ar, mostram que andar de bicicletas em corredores separados reduz a exposição à contaminação. A Airparif destaca que “a exposição à contaminação é duas vezes inferior para os ciclistas que circulam em um segmento distinto ao dos automóveis”. No entanto, a contaminação é um dado sempre desastroso. Segundo o Comitê Anticontaminação, em Paris “os picos de óxidos nítricos (51% provêm dos carros) acarretam um aumento de 8% da mortalidade e dos problemas respiratórios”.




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