Política

Patriarcado e capitalismo selvagem

 

05/10/2018 14:31

(Pablo Piovano)

Créditos da foto: (Pablo Piovano)

 

Quando um governo impulsa um ajuste econômico, se produz uma feminização da pobreza. Ao começar a faltar recursos e renda para sustentar a vida cotidiana, as principais afetadas são as que têm que dar resolução aos problemas concretos do dia a dia: a alimentação, a escolaridade, a limpeza e as compras dos produtos necessários para a sobrevivência. O emprego feminino será mais precarizado e flexibilizado, e muito mais em tempos de ajustes. Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), “a principal barreira de acesso para as mulheres ao mercado de trabalho tem a ver com a inequidade da distribuição do trabalho reprodutivo e a falta de políticas públicas para abordar esta situação por parte dos Estados”. Ademais, temos que pensar em todas as nossas dimensões sociais, como pessoas imersas neste sistema de classes no qual não há nada pior do que ser mulher, pobre e negra, ou pobre e travesti, ou pobre e índia – e assim poderíamos continuar quase infinitamente, fazendo terríveis combinações de exclusão.

Em plena crise do neoliberalismo, no final dos Anos 90 e começo de 2000, todas as organizações sociais criadas em cada canto da Argentina tinham um importante protagonismo das mulheres. Fomos capazes de dar respostas à ausência do Estado diante das necessidades básicas da nossa sociedade. Também conseguimos instalar demandas do feminismo e fortalecê-las, ampliando o debate ao conjunto dos setores populares, inclusive àqueles que nós não conhecíamos. Exigências fundamentais que logo assumimos como próprias, como a necessidade de decidir sobre nossos próprios corpos, viver uma vida livre de violências, o acesso à saúde como elemento fundamental para uma cidadania plena, o direito ao aborto legal, seguro e gratuito ou a livre escolha e desfrute da nossa sexualidade. Claro que esse movimento enorme de mulheres foi se cruzando com agrupações feministas, LGBTI, queers, travestis, trans, pessoas não binárias, que enriqueceram as lutas, as consignas e as conquistas políticas e sociais.

Atualmente, ocorre o mesmo nas organizações da economia popular, nos lugares de trabalho, nas feiras, nos centros comunitários. Contudo, surge como novo protagonista deste tempo político um novo movimento feminista que enamora as novas gerações e nos permite instalar discussões e transformações impensadas há alguns anos atrás, e no qual se conjugam reivindicações de implementação de políticas públicas com a exigência de maior democratização dos espaços próprios de participação social e política.

A partir dos feminismos populares, devemos trabalhar forte para que todos os nossos avanços sejam reais e certeiros para enfrentar as adversidades. Não temos como avançar realmente em transformações profundas se não modificarmos as formas da política tradicional. Nesse sentido, o machismo deve ser considerado como um inimigo interno que nos limita na construção coletiva.

Há claridade sobre quais são os principais inimigos externos do povo argentino: o FMI, as corporações midiáticas e econômicas, os governantes que representam seus interesses, o partido judiciário. Mas é difícil identificar outros inimigos que existem dentro do nosso DNA cultural e que também temos que combater.

Lutar contra o machismo não é somente se expressar contra os feminicídios ou acompanhar as marchas. É transformar estas práticas patriarcais dentro de nossas organizações, para poder conseguir qualquer avanço nos próximos anos, fazer com as organizações estáveis e fortes se nutram das melhores experiências do nosso povo, e dos novos fenômenos da Argentina de hoje e do amanhã.

A feminização da pobreza continua intacta. Já vivemos a feminização das organizações nos Anos 90. Agora temos que trabalhar pela feminização das decisões e das lideranças.

Por isso, não podemos dissociar as lutas pelo direito à legalização do aborto, contra os feminicídios, pela educação e saúde sexual, pela paridade nos espaços, da luta contra as políticas de endividamento, desvalorização e repressão, porque as múltiplas formas de violência e opressão que vivemos se manifestam em todos esses aspectos.

Construir um poder popular e feminista transformador, que inclua as classes baixas e as trabalhadoras assalariadas, também é uma forma de entender e construir a política.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli

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