Política

Pedidos para que Ministro da Justiça do Brasil renuncie após mensagens vazadas

Ordem dos Advogados do Brasil pede a suspensão de Sergio Moro depois que o relatório sugere que o ex-juiz era ''tendencioso''

11/06/2019 10:05

Moro chamou o relatório do The Intercept de 'sensacionalista' e negou qualquer irregularidade (Ueslei Marcelino/Reuters)

Créditos da foto: Moro chamou o relatório do The Intercept de 'sensacionalista' e negou qualquer irregularidade (Ueslei Marcelino/Reuters)

 

A Ordem dos Advogados do Brasil e um congressista pediram a suspensão do ministro da Justiça, Sergio Moro, após relatos publicados por uma revista online parecer questionar a imparcialidade de Moro em um caso que teve um ex-presidente de esquerda condenado por corrupção.

O relatório do The Intercept disse que, como juiz de combate à corrupção, Moro coordenou com os promotores no caso que  levou à condenação e prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula foi impedido de concorrer como candidato presidencial por causa da condenação de 2018. O líder esquerdista liderava as pesquisas de opinião para a eleição de outubro, que foi vencida pela extrema direita  Jair Bolsonaro  .

O site informou que estava apenas começando a relatar um "tesouro enorme " de mensagens vazadas entre Moro e promotores no Telegram, uma plataforma de mensagens criptografadas, que havia recebido de uma fonte anônima.

A Ordem dos Advogados recomendou ainda que todos os procuradores envolvidos na  investigação do escândalo da Lava Jato fossem dissolvidos "para que a investigação pudesse ser executada sem quaisquer suspeitas".

A investigação de cinco anos, conhecida como Lava Jato, revelou bilhões de dólares de suborno político envolvendo políticos e burocratas.

Moro negou qualquer irregularidade. "Não há orientação nessas mensagens", disse ele a repórteres na segunda-feira. Ele acrescentou que não poderia confirmar se as mensagens publicadas eram reais porque ele não as salvou.

Em uma declaração anterior, ele chamou os relatórios de "sensacionalistas".

"Em relação ao conteúdo das mensagens citadas por mim, não há sinais de qualquer anormalidade ou direcionamento de ações como magistrado, apesar de elas terem sido retiradas do contexto", disse ele.



O gabinete do presidente Jair Bolsonaro disse que o líder tinha "total confiança" em Moro [Adriano Machado / Reuters]

Investigação da Lava Jato

Moro, que deixou seu cargo como o juiz mais proeminente da investigação Lava Jato para se tornar ministro da Justiça em janeiro, também criticou o The Intercept por não nomear "a pessoa responsável pela invasão criminosa dos celulares dos promotores".

Os trechos, divulgados no domingo pelo The Intercept, incluíram trocas em que Moro fez sugestões aos promotores sobre o foco, ritmo e sequência das investigações.

Advogados de Lula, um ícone esquerdista que continua sendo uma das figuras mais influentes da oposição no Brasil, estão pedindo ao Supremo Tribunal Federal por sua libertação e aproveitando os relatórios para argumentar que sua sentença deveria ser revogada.

A equipe de promotores federais citados nas mensagens disse que eles agiram corretamente durante a investigação da Lava Jato.

Eles disseram em declarações por escrito que eles haviam sido alvos de um hacker, acrescentando que estavam preocupados com as mensagens tinham sido tiradas de contexto e possivelmente falsificadas.

Andrew Fishman, editor-gerente do The Intercept Brasil, disse à Reuters em comunicado que Moro e promotores disseram ao longo dos anos que não estavam colaborando, e "a reportagem mostra que suas ações privadas contradizem suas próprias declarações públicas na época".

Enquanto isso, legisladores em Brasília sugeriram que a controvérsia não retardaria seu trabalho em uma reforma do sistema de seguridade social do país, a qual o governo considera essencial para iniciar uma recuperação econômica.

O deputado Marcelo Ramos, que lidera o comitê de reforma da previdência na câmara dos deputados do Congresso Nacional, disse que ele e seus colegas têm a responsabilidade de não retardar o trabalho deles.

Ainda assim, ele disse à Reuters que Moro deveria se afastar temporariamente do cargo de Ministro da Justiça até que ele possa explicar sua colaboração com os promotores. Isso daria à polícia federal, que Moro supervisiona, a liberdade de investigar o ex-juiz, se julgasse necessário.



O líder esquerdista liderou as pesquisas de opinião para a eleição de outubro, vencida pela extrema direita Jair Bolsonaro [Ricardo Stuckert Filho / Instituto Lula / Divulgação via Reuters]

'Bloqueado da eleição do ano passado'

O escritório do presidente Jair Bolsonaro disse na segunda-feira à rede de TV Globo que o líder tinha "total confiança" em Moro.

Mais cedo, um porta-voz disse que Bolsonaro não comentaria a situação até que tivesse a chance de se encontrar pessoalmente com seu ministro na terça-feira.

A condenação de Lula por Moro foi o veredicto de mais alto perfil na investigação da Lava Jato, que levou à prisão de dezenas de políticos e empresários poderosos no Brasil e em outros lugares da América Latina, reformulando o panorama político da região.

Algumas conversas publicadas pelo The Intercept mostraram que promotores discutem como impedir que jornalistas entrevistassem Lula na prisão durante a campanha do ano passado.

Uma mensagem atribuída a uma das promotoras, Laura Tessler, sugeriu que tal entrevista poderia ajudar o candidato Lula a participar da chapa do Partido dos Trabalhadores.

Os promotores disseram em sua declaração na segunda-feira que a prisão envolve restringir as comunicações de todos os presos, independentemente de quem eles sejam. Tessler não respondeu a um pedido de comentário.

Em uma declaração por escrito, a equipe jurídica de Lula disse que o vazamento provou o que eles argumentaram no tribunal: que Moro e promotores federais se uniram para garantir que seu cliente fosse rapidamente considerado culpado e bloqueado da eleição do ano passado.

O The Intercept disse que havia garantido o arquivo de textos, áudio e vídeo fora do Brasil para que "muitos jornalistas tenham acesso a ele" e nenhum país possa bloquear o uso do material.

*Publicado originalmente em aljazeera.com | Tradução de Cristiane Manzato

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