Política

Pelo direito de votarmos em Lula

O ato realizado na Casa de Portugal reuniu intelectuais, lideranças de movimentos sociais, sindicais, partidos de esquerda e artistas de várias áreas. Todos unânimes na defesa não apenas do direito de Lula ser candidato, mas do povo brasileiro votar em Lula.

19/01/2018 21:36

Maria Alice Vieira

Créditos da foto: Maria Alice Vieira

 

* Assine o manifesto "Eleição sem Lula é fraude"

Líder nas pesquisas de intenção de voto, após ter deixado a presidência com 87% de aprovação e tirado 36 milhões de brasileiros da linha de pobreza, o ex-presidente Lula foi contundente no ato “Pela democracia e pelo direito de Lula ser candidato”, nesta quinta-feira (18.01.18), na capital paulista: “se o PT quiser, estarei como candidato à Presidência, aconteça o que acontecer”.

O ato realizado na Casa de Portugal reuniu intelectuais, lideranças de movimentos sociais, sindicais, partidos de esquerda e artistas de várias áreas – música, teatro, cinema, literatura, performance, circo, stand up –. Todos unânimes na defesa não apenas do direito de Lula ser candidato, mas do povo brasileiro votar em Lula.

Um direito que está sendo ameaçado por uma “sentença que não reflete a realidade dos fatos, constituída em cima de hipóteses e sofismas para atribuir um apartamento registrado hoje e sempre em nome de uma empresa chamada OAS”, conforme apontou Cristiano Zanin, advogado de Lula.

“As provas coletadas na ação mostram que Lula não passou um dia, uma noite, sequer recebeu as chaves do imóvel. Achou-se uma forma de construir uma propriedade que não existe. Não há um documento, um depoimento, absolutamente nada”, complementou (veja a íntegra do depoimento de Zanin).

Na próxima quarta-feira, dia 24 de janeiro, Lula será julgado no Tribunal Regional Federal da 4ª. Região, em Porto Alegre. Por quê? O professor emérito da Faculdade de Direito da USP, Fábio Konder Comparato sintetiza: “depois de cinco séculos de domínio da oligarquia está acontecendo uma novidade espantosa na vida brasileira: a oligarquia está com medo. A razão desse processo na Justiça Federal contra Lula é exatamente devido a isso”.

O caráter persecutório do julgamento também foi mencionado pelo diplomata Celso Amorim. Citando o manifesto Eleições sem Lula é fraude, Amorim destacou:

“É uma fraude não apenas contra o direito dele [Lula ser candidato], mas fraude contra a soberania popular que é a base da democracia; contra a inserção altiva do Brasil no mundo que não seja submissa aos interesses do capital financeiro e da grande mídia. Eleição sem Lula é fraude contra o combate à desigualdade e o combate ao racismo, ainda um dos maiores males da sociedade brasileira” (veja a íntegra do depoimento).

“Nós, população negra, sabemos o que são as injustiças cotidianas, de cada dez que morrem, oito são negros, alertou Rosane Borges, jornalista, professora universitária e membro da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP), mencionando o genocídio da população negra no país.

Em 2003, quando Lula assumiu o governo, “nós tivemos a sensação de que a democracia estava consolidada. Tínhamos, de fato, o povo no governo, no poder, exercendo a soberania. Com a quebra dessa condição, busca-se impedir que o povo volte a ser governo”, destacou Rosane Borges, ao defender a necessidade de um novo pacto democrático no país.

Um pacto que, na visão do filósofo e pedagogo Dermerval Saviani passa pela educação. “Sem democracia a educação não avança e sem educação a democracia não avança (...) Arbitrariedades vieram e se sucederam e elas acabaram por romper o cenário do Estado Democrático de Direito”. Em sua avaliação, criou-se no Brasil uma situação que faz lembrar o que era dito durante o Estado Novo: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. “Hoje, vivemos uma situação em que essa máxima foi transformada em ‘aos amigos tudo, aos adversários a violação da lei”.

Violação explícita na “perseguição judicial que ocorre contra Lula, quando o Judiciário resolver fazer política de maneira descarada”, destacou Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ao lembrar que não só de uniforme militar se veste uma ditadura, “a ditadura pode se vestir toga também como estamos vendo acontecer no Brasil”.

Farsa judicial

“O lugar de todas aquelas e aqueles que defendem a democracia, que são progressistas, é aqui. O lugar de quem é de esquerda, concorde ou não com Lula, é defender o seu direito de ser candidato contra essa perseguição”, complementou Boulos.

Citando a encruzilhada em que se encontram os três desembargadores que julgarão Lula na próxima semana, a principal liderança do MSTS avaliou: caberá a eles “dar fim e sepultar uma farsa judicial ou optar por levá-la adiante”, salientando a necessidade neste momento de muita mobilização popular.

Necessidade também destacada por Gilmar Mauro do MST que passou o recado aos perseguidores de Lula: “no dia 25 de janeiro (após o julgamento), não só o PT, mas o movimento social em geral e o MST em particular, vai lançar a candidatura Lula Presidente, independentemente do resultado e não nos acusem de fazer eleição paralela. Quem vai ter de fazer eleição paralela são eles. Nós queremos manter a democracia”.

Mauro ponderou, também, sobre as oportunidades abertas neste momento. “Estamos tendo a oportunidade de discutir quem é o Judiciário, quem são os lacaios do capital e politizar a sociedade. Para alguns de esquerda que achavam que não existia luta classes: bem vindo ao século XXI”, provocou.

Uma luta destacada pelo professor de Relações Internacionais da UFABC, Gilberto Maringoni, ao lembrar que “as reformas do golpe vão continuar arrebentando com os nossos direitos”. Ele também destacou o que está em jogo na próxima quarta-feira: “se o golpe se aprofundará ou não, se a Petrobras será entregue ou não. Essa causa é do povo brasileiro, da América Latina, do mundo”.

“Para onde vamos? Nos afundar no pântano do golpe e do neoliberalismo ou o Brasil vai dar outro exemplo de como romper com essa asfixia do capital? O mercado está nervoso? Que vá comprar Rivotril”, ironizou.

“Você é de verdade, irmão”

Além de lideranças sociais e intelectuais, vários artistas participaram do ato na capital paulista como o ator Aílton Graça que lembrou da primeira vez que viu “o barba” na “pracinha do Jardim Míriam, em cima do caminhão”. “Pela primeira vez, eu vi uma pessoa semeando esperança. Eu, jovem, tentando entender o meu lugar neste mundo, o lugar deste corpo preto no mundo, tentando cavucar espaço”.

“Essa esperança que ele semeou chegou no meu coração e no coração de muita gente preta nascida na periferia (...) Eu vi irmãs e irmãos se formando em Medicina, Engenharia, tornando-se bons cidadãos e cidadãs e brigando pelos seus direitos. Vi renascer, com muita força, o movimento negro a partir de muita coisa que a gente brigava lá trás, mas durante esses treze anos, eu vi isso e isso eu não abro mão. Eu não abro mão desse momento de ter essas conquistas e uma das conquistas é a democracia”, complementou.

O rapper Thaíde também marcou presença no encontro: “eu vim não apenas para mostrar que sou um eterno amante da democracia, mas para me juntar com as minhas e os meus para poder defender um dos nossos, que é o Lula”. O cantor Odair José também justificou sua presença: “estou aqui para ter a consciência tranquila”.

Citando versos de uma de suas canções – “o presente está tentando pegar o futuro para levar ao passado” –, ele disse ter “certeza que a força e o poder estão com as pessoas, ao contrário do que se possa pensar. O meu destino está misturado com o destino do povo brasileiro. Eu sou pró-povo, por isso sou pró-Lula”.

Thiago Ramos da Liga do Funk falou sobre a voz das periferias. “A gente tem escutado que a periferia não tem voz. A periferia tem voz sim e o primeiro favelado foi o Lula e ele transformou a história. Tem que continuar transformando”. Dirigindo-se a Lula, afirmou: “você é de verdade, irmão, você é ´pica das galáxias´, trouxe orgulho para quem é preto e pobre da periferia”.

Personalidades do mundo do teatro comprometidos com a luta pela democracia, como Augusto Boal e Heleny Guariba, foram lembrados por Celso Frateschi em uma fala sobre a forte ligação entre teatro e democracia. “É pela democracia que estamos aqui defendendo o direito de Lula, mas não só o de Lula, é o nosso direito de eleger o nosso presidente por sermos irmãos da democracia”.

Já a cineasta Laís Bodanzky destacou como os anos Lula permitiram a entrada de novas cineastas mulheres e mulheres negras no cinema nacional. “Nós artistas e intelectuais não vamos aceitar não termos Lula nas próximas eleições”, afirmou.

O humorista Gustavo Mendes, também presente no ato, afirmou que “a democracia está doente, o remédio é a eleição e a cura é Lula ter o direito de ser candidato”. Emulando os vídeos da Rede Globo com artistas da emissora falando sobre o futuro do país, o humorista deu sua resposta: “Meu nome é Gustavo Mendes e o Brasil que eu quero para o futuro é com Lula sendo candidato a presidente” (veja a íntegra).

Confira aqui a fala de vários outros artistas e lideranças sociais presentes no ato.

Saudades da Era Lula

Com apresentações artísticas, inclusive a performance de um longo beijo entre dois bailarinos, o ato contou com a presença de dirigentes partidários, parlamentares e do ex-prefeito Fernando Haddad que destacou sobre os golpistas: “o que eles querem é uma eleição muito esquisita. Decidir entre eles quem vai ganhar o Jaburu”.

Mencionando a total ausência de legitimidade do governo Temer e a necessidade de termos um presidente “com garra, que ganha [as eleições para valer] para tirar o país da crise”, Haddad ponderou que “não dá para imaginar o Brasil de 2019 sendo governador por um presidente sem legitimidade, escolhido entre eles próprios”. O ex-prefeito também mencionou a saudade que sente da época do Lula, “uma saudade que todo mundo tem”.

Sentimento sintetizado na fala da cantora e deputada Leci Brandão (PC do B) que destacou o respeito à diversidade dos governos Lula:

“Qual é o seu partido, pouco me interessa; sua religião, seu segmento artístico, sua orientação sexual, quanto você ganha, sua conta bancária. A comunidade brasileira, todas as comunidades deste país, estão morrendo de saudade de você. Muita saudade. A covardia está aí e a gente sabe que os golpistas não aceitam o seu pecado que é tratar as pessoas com respeito. Você respeita a diversidade do Brasil. É Lula presidente, Lula candidato.”

“Mais consciente e mais maduro”

Lula fechou o ato desta quinta-feira na Casa de Portugal afirmando sua disposição e energia para concorrer nas eleições deste ano. “Quero que o PT me indique como candidato à Presidência da República. Se meu partido quiser aceitar o desafio de querer Lula candidato (...) estarei candidato à presidência da República, aconteça o que acontecer”.

“Eles resolveram fazer uma cirurgia no Brasil. Venderam à sociedade que o Brasil tinha uma doença grave chamada PT, chamada Dilma e que era preciso tirar essa doença”, afirmou Lula. Uma ideia massificada pelos meios de comunicação que criaram a narrativa de que o governo era “um desastre e de que era preciso tirar o governo. Deram uma anestesia coletiva na sociedade brasileira”. Agora, apontou o ex-presidente, “o povo brasileiro está acordando dessa anestesia, quanto eles já fizeram o desmonte das conquistas trabalhistas”, direitos conquistados há sessenta anos.

Afirmando-se tranquilo em relação ao julgamento – “eu duvido que os juízes que já me julgaram e os que vão me julgar estejam neste momento com a tranquilidade que estou” –, Lula destacou que aos 72 anos, mais consciente e mais maduro, está pronto para realizar muitas coisas.

“A Petrobras vai voltar a ser do povo brasileiro para financiar a educação, ciência e tecnologia e saúde”, afirmou ao lembrar que a descoberta do pré-sal não foi por acaso, mas resultado de investimentos do seu governo. Sobre a crise, foi categórico: ‘quero provar para eles que não tem jeito de consertar o país se o povo trabalhador e pobre não estiver inserido na economia do Brasil”.

“Eles têm que aprender que democracia não é a gente ter direito de gritar que está com fome, mas o direito de comer”, complementou.

Assista abaixo a íntegra da fala de Lula (25 minutos):







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