Política

Petrobras: a transgressão ameaçada

A quem devem servir as maiores reservas de óleo descobertas no planeta nos últimos trinta anos? À nação ou aos mercados?

08/02/2015 00:00

A importância da Petrobrás hoje talvez seja até maior do que nos anos 50, quando foi criada por Getúlio Vargas
 
Seu emblema deixou de significar apenas petróleo nacional.
 
Tornou-se o espelho de uma transgressão poderosa aos interditos ao desenvolvimento num tempo de mobilidade paralisante dos capitais na vida das nações.
 
A alavanca que lhe deu o poder de acionar esse derradeiro impulso desenvolvimentista e industrializante no século XXI chama-se pré-sal.
 
Seu outro nome é soberania com justiça social.
 
Ou estorvo, visto do ângulo de quem defende que o melhor para o país é entregar o seu destino, seu povo e suas riquezas ao  comando dos mercados.
 
A velha disputa em torno do petróleo nacional vive assim  um capitulo que ameaça dilacerar a estatal nascida das ruas e cuja sorte nelas talvez tenha que ser decidida novamente.
 
Nenhuma dúvida: a corrupção nesse aparato  singular deve ser extirpada.
 
O cupim aqui corrói não apenas recursos.
 
Ele ofusca  a centralidade de um confronto estratégico, cujo desenlace marcará a vida da nação, a sorte de sua gente e do seu desenvolvimento em nosso tempo.
 
O problema não é o jovem juiz urdido em naftalina reacionária.
 
Ele é uma gota no oceano de interesses que acossam o petróleo brasileiro.
 
A estatura do seu conceito de  isenção  não lhe permite enxergar o núcleo duro da disputa. 
 
A quem devem servir as maiores reservas de óleo descobertas no planeta nos últimos trinta anos? 
 
Claro que não aos corruptos, cuja ação remonta a 1997, na confissão de um deles.
 
Mas a disjuntiva histórica que descarta os corruptos é mais ampla, embora influenciada pela seletividade no combate ao cupinzeiro.  
 
À nação ou aos mercados?
 
Ou dito de outra forma, para significar a mesma coisa: o Brasil deve se construir como uma nação ou um anexo da lógica financeira?
 
Uma democracia dotada de vontade própria sobre a riqueza ou um piquete de engorda do dinheiro sem pátria?
 
A crise atual ressuscitou a pendência que parecia resolvida em 2010 quando o governo Lula regulamentou a exploração soberana das novas reservas.
 
O que se assiste agora sugere que a soberania não é um estoque, mas um fluxo.
 
Se não for reafirmada a cada dia, regride.
 
A crise atual é um pouco a sirene que cobra a lição de casa não feita.
 
Pelo PT, em primeiro lugar, que virou 'um partido de gabinetes, dissociado da base', como diagnosticou Lula, no evento dos 35 anos do partido.
 
Mas  um pouco por toda a esquerda também. Seu pecado capital é o divisionismo suicida, que elogia o Syriza, uma frente de esquerda, ao mesmo tempo em que se imagina o único syriza digno de figurar na história do país.  
 
O sectarismo é o atalho mais curto para irrelevância.
 
A disputa em curso passa ao largo dele.
 
Fortemente ancorada nas encomendas cativas de máquinas e equipamentos de toda a cadeia da extração, refino e usos sofisticados da petroquímica, a regulação do pré-sal faculta ao Brasil uma vereda histórica de valor inestimável.
 
Ela dá ao país um novo berçário industrializante e agiganta seu peso na geopolítica mundial, onde o 'ouro negro' ainda move interesses brutais, como se pode constatar, mais uma vez, pela guerra de preços atual.
 
Não há fetiche economicista nisso, mas sim o discernimento de que o pré-sal é o chão firme capaz de irradiar um salto tecnológico na produtividade da industria brasileira, ademais de reter as rendas de refino no país , gerar excedentes exportáveis, blindar as contas externas, produzir empregos de qualidade, prover recursos para uma educação pública e um sistema de saúde de qualidade, multiplicar o contingente de  trabalhadores dotados de organização, força e discernimento histórico para prosseguir.
 
Não é uma panaceia.
 
É uma possibilidade histórica guardada num bilhete premiado, que encerra uma poupança de 50 bilhões de barris de petróleo.
 
O que fazer com ela é o objeto da luta de classe dissimulada na atual crise.
 
A trava do conteúdo nacional na exploração desse tesouro, por exemplo, é uma espécie de controle de capitais via encomendas à indústria local. 
 
Um drible nos livres mercados num tempo em que todos os trunfos da luta pelo desenvolvimento foram postos de joelhos pelo poder de chantagem dos capitais em órbita global.
 
É uma das dimensões do ponto de mutação que está em jogo hoje.
 
Ser uma nação ou um mercado?
 
O jogo bruto dissimulado na Lava Jato consiste em reunir cirurgiões de sabida especialidade para purgar a banda podre da política brasileira.
 
Sugestivamente, eles isolaram os dois gens malignos do DNA nacional, como alardeia insistentemente a emissão conservadora.
 
Quais?
 
Ora quais.
 
O PT (leia-se, a esquerda).
 
E a Petrobras -- essa transgressão que o pré-sal empoderou para ser a parteira de um novo Brasil, acima e à frente frente dos interesses dos endinheirados.
 
O combate à corrupção nunca foi uma agenda solteira entre nós.
 
Vargas, Juscelino, Jango sabiam disso.
 
O cerco atual  à Petrobras transpira a mesma dualidade endereçada a um alvo mais amplo: extirpar uma transgressão de soberania antes que ela gere frutos e contamine todo processo político do país, em prejuízo dos paladinos da moralidade em seu intercurso histórico com o golpismo.
 
A ameaça devolve sentido popular aquele que talvez seja o mais brasileiro de todos os emblemas da nossa história:
 
‘O petróleo é nosso.’
 
Resta saber se haverá esquerda capaz de dar a esse imperativo a atualização econômica, social e mobilizatória que a história cobra nesta hora grave da vida brasileira
 
É para essa trincheira que este Especial convoca os leitores de Carta Maior.
 
Boa luta.
 
Joaquim Palhares
Diretor de Carta Maior



Conteúdo Relacionado