Política

Pont quer novos rumos para o PT e fazer governo avançar

27/09/2005 00:00

Porto Alegre – O deputado estadual Raul Pont (PT-RS), da tendência Democracia Socialista (DS), disputará o segundo turno das eleições internas petistas, marcado para o dia 9 de outubro, contra o deputado federal, Ricardo Berzoini (PT-SP), do Campo Majoritário. Saindo atrás no início da apuração do primeiro turno do Processo de Eleições Diretas (PED), Pont travou, a partir da segunda metade da apuração, uma disputa voto a voto, praticamente até as últimas urnas, com o candidato Valter Pomar, da Articulação de Esquerda (AE). Agora, o ex-prefeito de Porto Alegre, prepara-se para uma nova batalha, com o desafio de unificar os setores da esquerda partidária, conter dissidências que ameaçam deixar o partido e conseguir também o apoio de setores mais moderados do PT para tentar derrotar o Campo Majoritário no segundo turno.

 

Será mais um desafio político na vida deste gaúcho de Uruguaiana que está no PT desde sua fundação. Pont iniciou sua militância política no movimento estudantil no final dos anos 60, quando foi eleito presidente do Diretório Central de Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em História e pós-graduado em Ciências Políticas pela Universidade de Campinas (Unicamp), foi professor universitário nos cursos de Economia e Sociologia Política. Deputado estadual e federal por quatro legislaturas, foi também prefeito de Porto Alegre, onde ajudou a implantar o Orçamento Participativo.

Firme defensor da participação popular como política de gestão pública e promoção da cidadania, Pont é autor de livros como “Da Crítica ao Populismo à Construção do PT”, “Breve História do PT – das origens ao 1° Congresso: 1979/91”, “Democracia, Participação, Cidadania – Uma visão de esquerda”. Em 2002, foi eleito mais uma vez deputado estadual no Rio Grande do Sul, o mais votado do PT e o segundo mais votado para a Assembléia Legislativa, com 69.453 votos.

 

Em entrevista à Carta Maior, Raul Pont analisa o significado dessa disputa com Ricardo Berzoini, no momento em que o PT enfrenta a mais grave crise de sua história. Ele rejeita a polarização que vem sendo levantada pelo candidato do Campo Majoritário, segundo a qual, a disputa no segundo turno será entre aqueles que defendem e os que não defendem o governo Lula. “Berzoini está tentando criar um debate viciado e falacioso”, diz Pont, indicando qual deve ser o tom de sua campanha que tentará convencer a maioria da militância petista de que é preciso dar novos rumos ao partido.

 

Carta Maior: Na sua avaliação, qual o significado dessa disputa em segundo turno, no momento em que o PT enfrenta a mais grave crise de sua história?

Raul Pont: Uma das principais conclusões que podemos tirar do primeiro turno é que ele foi uma demonstração de força e de vitalidade dada pela militância do partido. A base militante petista respondeu ao chamado de enfrentar não só o tema da sucessão interna mas, principalmente, a campanha que foi construída nos últimos meses, em meio à onda de denúncias de corrupção, que se transformou em um ataque direto ao partido. Para muitos de nossos adversários, essa campanha passou a ter o objetivo de destruir o PT como agente político. E a nossa militância deu uma resposta vigorosa contra isso. Agora, no segundo turno, trata-se de reforçar essa mobilização e trabalhar para dar um novo rumo ao partido.

 

CM: Como encara as chances da sua candidatura nesta disputa?

RP:  Se somarmos a votação das seis chapas que fizeram oposição ao Campo Majoritário, temos cerca de 170 mil filiados que votaram em teses críticas à atual direção do partido, ao modo pelo qual o PT vem sendo conduzido e a determinadas políticas do governo Lula, especialmente na área econômica. Esses votos expressam claramente uma vontade de reorientar os rumos do partido e do governo. Temos críticas, queremos corrigir esses rumos, sem sair do partido ou deixar de defender o governo. Essa foi a resposta positiva dessa massa de filiado que, acreditamos, possa se expressar também no segundo turno. Não há nenhuma garantia de que isso ocorra, mas as condições são favoráveis.

CM: A decisão de Plínio de Arruda Sampaio deixar o partido, juntamente com um grupo de parlamentares e militantes, prejudica sua campanha no segundo turno?

RP: Considero essa decisão do Plínio, do Ivan Valente e de outros companheiros um erro político. É lamentável que eles tenham tomado essa atitude, pois ela leva a um caminho de pulverização e atomização da esquerda, que não ajuda em nada a dar um novo rumo à experiência mais importante que a esquerda brasileira construiu. Isso nos trará algum prejuízo, mas acredito que a maioria dos filiados que votou na candidatura Plínio permanecerá no partido e nos apoiará no segundo turno. Por isso, achamos que não perderemos a maioria desses votos. Pelo que foi anunciado até agora, a decisão de sair restringe-se à APS (Ação Popular Socialista). Setores amplos ligados à Igreja Católica e as tendências Fórum Socialista e Brasil Socialista (que apoiaram Plínio) permanecerão conosco no segundo turno. Agora, é lamentável. Em vários debates que realizamos no primeiro turno, Plínio disse que apoiaria a candidatura de esquerda que passasse para o segundo turno. As outras candidaturas desse campo firmaram o mesmo compromisso, caso ele fosse para a disputa. Ao retirar o seu nome do partido, ele enfraquece essa unidade.

 

CM: E como pretende superar esse obstáculo para imprimir um novo rumo ao partido?

RP:  Defendemos a unidade de todas as forças que se opõem ao modo pelo qual o Campo Majoritário vem conduzindo o partido, com o objetivo de dar um novo rumo para o PT. Para tanto, defendemos que é preciso, inicialmente, chamar um congresso do partido até o final do ano e concluir o processo de averiguação das irregularidades que foram cometidas e de punição dos responsáveis por elas. Em relação ao congresso, não se trata apenas de proceder a uma atualização do nosso programa e de preparar o partido para as eleições de 2006, mas também de definir uma política para incidir, no curto prazo, nos rumos do governo. Queremos incidir, por exemplo, na política que estabelece um superávit primário impressionante, mecanismo através do qual uma parte importantíssima da  poupança do país está sendo transferida para o rentismo financeiro. Queremos preparar o governo e o partido para disputar um segundo mandato. Para isso, defendemos que precisamos de uma política de alianças diferente da praticada até agora. Defendemos também a retomada de um debate estratégico sobre o socialismo petista. Precisamos retomar o norte de uma utopia estratégia. Sem isso, não iremos a lugar nenhum.

 

CM: E qual deve ser a estratégia da campanha do segundo turno, considerando que ela será muito breve?

RP: É verdade. Teremos poucos dias para fazer campanha. Creio que seria importante realizarmos pelo menos um grande debate transmitido nacionalmente, tal como ocorreu no primeiro turno, no debate promovido pela CBN. Não teremos tempo para visitar todos os estados. Pretendemos visitar aqueles onde não conseguimos estar no primeiro turno, mas vamos ter que concentrar nossas forças nos principais colégios eleitorais. Não tem jeito. São Paulo, por exemplo, é o maior colégio eleitoral do país e é onde está a principal força de Berzoini. Além de São Paulo, temos outros grandes colégios eleitorais como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, que concentram o maior número de filiados. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, já temos o apoio declarado das outras correntes da esquerda partidária, como é o caso da Articulação de Esquerda. Temos que recuperar espaço em São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro, pelo fato de eles serem os maiores colégios eleitorais. Temos cerca de uma semana e meia para fazer isso e tentar ir onde é possível.

 

CM: O candidato Ricardo Berzoini tem dito que o segundo turno será uma eleição polarizada entre aqueles que defendem e os que não defendem o governo Lula. Como avalia essa afirmação?

RP: Essa é uma falsa polarização que está sendo tentada pelo Berzoini. Ele está tentando criar um debate viciado e falacioso. A questão não é ser contra ou a favor ao governo Lula. A questão a ser debatida pelo conjunto do partido é a crise vivida hoje. É se a política de alianças adotada deu bons resultados, nos conduziu a um bom objetivo. E essa resposta é negativa. É isso que precisamos debater e responder. Berzoini foi ministro do governo e tem que responder sobre isso. Afinal de contas, essa política de alianças foi positiva para o partido? A governabilidade construída com essas forças que estão aí ajudaram o nosso governo a aprovar as reformas e as políticas que pretendia aprovar? Parece evidente que não. Agora mesmo, estamos mais uma vez encalacrados nessa eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. É em cima dessa avaliação que fazemos a nossa crítica e o nosso balanço e não a partir dessa polarização falaciosa. Todo o PT elegeu e vem defendendo o governo. O que precisamos discutir é como fazê-lo avançar e como não repetir erros que foram cometidos aqui e que estão custando muito caro para todos nós.

  


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