Política

Por esquerdas plurais e democráticas

 

27/02/2019 15:48

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A primeira condição para ser de esquerda hoje é parar de falar “na esquerda” e passar a falar “nas esquerdas”. É preciso acabar com o que chamo de “síndrome do banco da frente”, descrita mais ou menos assim: na nossa Kombi (sou do tempo das heróicas Kombis) é de esquerda quem senta comigo no banco da frente; dali pra trás e pra fora é tudo traidor do proletariado e da revolução que está nos esperando já no primeiro cruzamento. O diabo deste tipo de pensamento, que vigorou e ainda vigora por áreas do sentimento de ser “vanguarda”, é que não há cruzamento: esta estrada não tem fim.

A segunda condição é reconhecer a democracia como um valor permanente. Houve correntes que falaram na democracia como um valor universal. Este tipo de pensamento tinha uma falha de nascença: democracia, nele, era a democracia formal, de inspiração liberal. Não que se deva desprezar a inspiração liberal, muito pelo contrário. Como me dizia mestre Antonio Candido, citando, acho, um seu conterrâneo, todo liberal que esquece princípios socialistas vira reacionário, mas todo socialista que esquece princípios liberais vira autoritário.

Meu argumento vai em outra direção. Houve tempo em que nós de esquerda acreditávamos que a democracia era uma boa arma para usar em nosso favor, e brandi-la enquanto estivéssemos na oposição ou na defensiva; mas, depois quando viesse a ditadura do proletariado… É claro que há situações excepcionais em que é necessário assumir responsabilidades e impor decisões imprescindíveis. Para valer-se de um caso extremo, não é possível fazer votações amplas, gerais e irrestritas em meio a batalha de Stalingrado. Ou lançar ali um manifesto pela paz e confraternização com o inimigo.

O que importa é reconhecer a excepcionalidade de tais situações, por mais repetitivas que elas se tornem. A regra deve ser a do respeito pela democracia nas decisões. Este é um dos principais elementos diferenciadores em relação às direitas golpistas, e as direitas hoje estão dominadas ou pelo golpismo híbrido (valendo-se de tudo, da repressão militar às guerras informativas), no estilo de Trump ou de Bolsonaro; ou pelo fanatismo em torno do pensamento único neo-liberal; ou por ambas as coisas. Há conservadores sérios que estão, entretanto, no limbo.

É claro que existem outras condições para ser de esquerda. Batalhar por uma cultura da inclusão social, educacional e econômica, bem como por uma cultura da paz; por uma diplomacia do softpower e não do "big stick”; pelas negociações pacíficas no cenário geopolítico; pela integração anti-imperialista da América Latina; batalhar pela memória das conquistas e lutas das esquerdas em nível nacional, regional e mundial. Por exemplo, no Brasil querem destruir a memória de tudo de bom que aconteceu nos últimos governos de centro-esquerda que tivemos. Há até gente que se acha de extrema-esquerda negando que tenha acontecido algo relevante, como se abrir o caminho para que dezenas de milhões de pessoas saíssem da miséria não tivesse a menor importância.

Por fim, ressalto a importância do rigor na análise e na divulgação de informações. Há uma tentação muito grande de imitar as artimanhas das direitas, disseminando boatos, suspeitas e até preconceitos como se fossem informações seguras e confirmadas. Nada disso. É necessário manter a credibilidade e a confiança, mesmo que isto custe um tanto de tempo para assegurá-las.

Por falar em tempo, lembro que a batalha neo-liberal se reflete também no esforço de roubar das pessoas o sentido do controle sobre seu próprio tempo. Esvazia-se o conceito de lazer: este passa a ser um intervalo entre tempos de trabalho alienado. Também se esvazia o conceito de sonho. Bombardeiam os meios de comunicação das direitas: “você não precisa sonhar; nós sonhamos por você; só é necessário ter o software adequado”.

É preciso dizer não à renúncia da subjetividade.

Termino estas ligeiras considerações com a ousadia de citar um poema de minha autoria, escrito décadas atrás, mas que penso ser de pertinente atualidade:

Elegia do nós

Seria mais fácil se calássemos a boca
se tivéssemos sempre o mesmo rosto
a mesma idade, o mesmo eu, a mesma cor
ninguém diria: tenho fome
ninguém ousaria: quero mais

Seria tão mais fácil se as perguntas se ausentassem
o silêncio seria menos constrangido
o som despertaria à menor ordem superior
e nunca ver íamos a face
do nosso algoz ou do nosso amor

Seria tão mais fácil se nós não nos amássemos
se não nos quiséssemos assim tanto de repente
ou tão devagar
o mundo seria uma só calma
e o prazer, uma cela solitária

Seria tão mais fácil se ninguém dormisse
a noite não seria esse espaço impenitente
não haveria despertar
nem esse efêmero abandono
a tudo aquilo que não fomos

Seria tão mais fácil se nós não existíssemos
mas acontece que nós somos
também aquilo que não somos
acontece que tudo está fora de lugar
a chacoalhar o mundo das certezas mortas

E acontece o amor e acontece o ódio
e nós gostamos do aperto
de nos esfregar pelos quartos, pelas ruas
pelos estádios e pelo tempo afora

Acontece que nós gostamos de gozar
de rir das pompas e solenidades
de ser em todas as idades

Acontece que é bom ter no rosto
a sensação de ter um rosto

E ver o vento, a noite
o sertão e o além-mar

Acontece que não é mais antigamente
quando hoje seria melhor

Acontece que há o fruto e a semente
e plantar e colher não é trabalho fácil

Acontece que nós somos gente

Aqui agora depois e para sempre

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