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Política

Por que Aécio perdeu em casa?

A projeção triunfalista de que Aécio ganharia as eleições presidenciais com grande folga em Minas acabou se transformando na principal debilidade do PSDB.

29/10/2014 00:00

Valter Camparato/Agência Brasil


Com forte controle da imprensa, cooptação dos poderes e um grande arco de alianças que, nas eleições municiais de 2008, chegou a envolver até mesmo a maioria do PT estadual, o PSDB passou quase uma década vendendo a imagem de uma Minas Gerais unificada em torno da figura do tucano Aécio Neves, que governou o estado de 2003 a 2010. Mas o partido enalteceu tanto a imagem do estado que vendia nas propagandas oficiais que acabou acreditando nela.

A projeção triunfalista de que Aécio ganharia as eleições presidenciais com grande folga em Minas acabou se transformando na principal debilidade do PSDB. Ao contrário dos piores prognósticos tucanos, o candidato perdeu na sua terra natal por mais de 500 mil votos no 2º turno. Foi derrotado no estado que, devido às suas imensas desigualdades sociais, é tido como um reflexo eleitoral do país e, tradicionalmente, indica o vencedor da corrida à presidência da república.

De acordo com o cientista político Juarez Guimarães, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a maioria do eleitorado mineiro, especialmente do ponto de vista social, se identifica mais com o nordeste do que com o sul. E isso, considerando a polarização social do voto verificada no país, acabou por favorecer a candidatura petista. “Das dez mesorregiões de Minas Gerais, a presidenta Dilma Rousseff foi a preferida em sete”, contabiliza ele.

O tucano Aécio Neves só obteve maioria no Sul de Minas, econômica e culturalmente ligado a São Paulo; na Grande BH, onde a máquina tucana segue firme e o antipetismo se consolida; e na Centro-oeste, região que reflete o pensamento médio da capital devido à proximidade e abarca terras históricas da família Neves, como o pequeno município de Cláudio, privilegiado com o polêmico aeroporto.

“Na capital mineira, Aécio teve uma vitória muito expressiva (64% a 35%), o que reflete uma sedimentação do antipetismo nas camadas médias da cidade e também o poderio das máquinas estaduais e municipais da coalização montada pelo PSDB, com grande domínio na Assembleia Estadual, somada às forças de correntes evangélicas, de grande peso. Até mesmo em Contagem, cidade industrial da grande BH onde a esquerda sempre foi majoritária, Aécio ganhou por 51% a 42”, acrescentou.

Motivações sedimentadas

O cientista político, entretanto, alerta que, para se entender, de fato, porque Aécio Neves perdeu na sua própria casa, é preciso considerar três importantes fatores, que refletem processos que foram se acumulando e se sedimentando nos últimos dois anos.

O primeiro diz respeito à dinâmica eleitoral instalada com a derrota do PSDB no 1º turno, que incidiu sobre o que havia de mais fisiológico na sua base. A segunda, devido ao fato que, pela primeira vez, o projeto do PSDB foi exposto a um forte contraditório público, em um estado que reproduz, em média, a polarização nacional. E, em terceiro lugar, ao acúmulo dos últimos anos de grandes mobilizações sociais e lutas.

Dança das cadeiras

Segundo Juarez, a vitória do candidato petista Fernando Pimentel para o governo de Minas, somada a derrota de Aécio para Dilma no estado, já no 1º turno, provocou intensa movimentação na base de apoio do PSDB, formada por mais de 20 partidos. Com a vitória do petista e a derrota de Aécio na sua terra natal, prefeitos do interior do estado de várias legendas começaram a migar para o PT.
“Uma das explicações fortes é que houve essa migração de bases fisiológicas do Aécio Neves para a candidatura da Dilma. Em uma vitória em 2º turno por 52% a 47% dos votos, esta migração teve grande relevância”, esclarece.

Além disso, o professor explica que os mineiros entraram no 2º turno frente às duas grandes derrotas para Aécio, o que dissolveu-se toda a aura e toda a simbologia política da sua condição de disputar as eleições nacionais com o discurso de que ele representava Minas Gerais, de que ele reafirmava a unidade de Minas Gerais.

“É importante lembrar, inclusive, que nas últimas disputas eleitorais no Estado, o PSDB chegava a afirmar que ‘Minas é Aécio’. Uma afirmação talvez mais forte do que aquela do Luiz XIV de que ‘O Estado sou eu’. Em Minas, é ‘O estado e a sociedade sou eu’. Uma afirmação muito triunfalista, que revelava essa ideologia do aecismo em Minas Gerais”, acrescenta Juarez.

Submissão inédita ao contraditório
Já a inédita exposição do projeto tucano ao contraditório no estado, ainda conforme ele, se deve a um processo mais amplo. Para o cientista político, o PSDB monopolizou o discurso eleitoral no estado por quase uma década, com base em um forte controle midiático e no enfraquecimento da oposição. Em Minas Gerais, ao contrário do resto do país, houve uma aliança entre a maioria do PT com o PSDB, em 2008, para indicar Marcio Lacerda, do PSB, à prefeitura de Belo Horizonte.

“Por alguns anos, a oposição ao Aécio ficou muito enfraquecida, pelo fato do seu principal partido apoiar o governo. Então, nós passamos de uma situação em que o Aécio não tinha que enfrentar o contraditório para uma situação em que ele teve que lidar com forte contraditório, com capacidade de vocalização pública. E, ao invés de conseguir unir Minas, acabou por revelar as forças sociais dividem o estado”, esclarece.

De acordo com o cientista político, como ocorreu no resto do país, em Minas também houve uma polarização social do voto. “A maioria do eleitorado mineiro não é propriamente nordestina, mas está mais próxima do nordeste do que do sul do país. Então, a medida que o contraditório foi publicamente instalado, a dimensão social dos projetos foi revelada”, afirma.

Conforme ele, também contribuiu para o resultado  o fato de que, pela primeira vez, o PT disputou as eleições para o governo do estado muito unificado em torno de uma candidatura competitiva desde o início. E, em contrapartida, a candidatura do PSDB, que indicou Pimenta da Veiga, um político há muito tempo afastado do estado, não caiu no gosto da população. “A candidatura dele foi fruto do triunfalismo do PSDB que acreditava que, qualquer candidato posto ao lado do Aécio, ganharia as eleições. O triunfalismo funcionou como fator de debilitação do aecismo em Minas”, reiterou.

Juarez Guimarães ressalta, por fim, que, nos últimos anos, no Estado, houve um acúmulo muito importante dos movimentos sociais de oposição ao projeto do PSDB, que conseguiram criar um espírito público de oposição no estado. Segundo ele, isso ocorreu durante a longa greve dos professores da rede estadual, que reivindicavam a aplicação do mínimo constitucional na educação e recebimento do piso nacional do magistério.

“Isso reorganizou a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e resultou na criação de um movimento de grande impacto, o ‘Quem luta, educa’, que faz campanhas permanentes em tornos de questões sociais, como um plebiscito sobre a elevação das tarifas da energia, uma das mais caras do país”, acrescenta.

Ainda de acordo com ele, os protestos de junho de 2013, em Belo Horizonte, ao contrário do que ocorreu em outros locais do país, teve uma clara direção da esquerda organizada, do princípio ao final. “As candidaturas de Pimentel e Dilma puderam se apoiar nos movimentos sociais, em um processo de acumulação de forças”, avalia.



Créditos da foto: Valter Camparato/Agência Brasil