Política

Por que o 'mercado' não derruba Bolsonaro?

 

23/02/2021 13:09

(Reprodução/bit.ly/3us0SAQ)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3us0SAQ)

 
Querida Vera Magalhães.

Eu li seu artigo de hoje, no jornal “O Globo”. Penso que você está expondo, honestamente, sua preocupação com o imobilismo da “elite econômica” diante do governo genocida e autoritário de Bolsonaro. A turma da “Faria Lima”, como você a chama, parece não ter sensibilidade alguma diante dos números de mortos e da queda do atual presidente nas pesquisas de opinião. E aí você tenta explicar para o “mercado” que retirar Bolsonaro seria melhor para a democracia, para a vida de todos nós e acusa-os de “covardia”.

É compreensível e razoável sua indignação moral como jornalista e cidadã, ainda que você tenha sido negligente quando os avisos foram dados de que Bolsonaro seria uma tragédia para a ordem liberal democrática. De igual forma, você não percebeu que a derrubada de Dilma Roussef — agora já entendeu que não foi por “pedaladas fiscais”? — era só o começo da erosão do Estado democrático de direito que nasceu com a Constituição de 1988. Mas tudo bem, não quero ficar preso ao retrovisor. Você errou e eu erro também, né?

Permita-me sugerir uma explicação simples, mas que considero profunda, radical, posto que ela tenta desvendar os mecanismos latentes sem ficar presa ao que é manifesto e visível. É preciso olhar para as estruturas se não queremos ficar ingenuamente patinando sobre os dados de superfície. Não é coisa fácil, mas proponho que pense o seguinte.

Todas as democracias eleitorais (você pode chamar de poliarquias, oligarquias eleitorais, democracia liberal, como quiser) são estruturas jurídico-políticas que administram as demandas sociais conflitantes numa sociedade de mercado (não vou te aporrinhar com sociedade de classes, sei que você considera esses termos barrocos demais).

Essa gestão do político, pelo Estado, que chamamos de democracias eleitorais, não estão na posição de árbitro desinteressado na partida. Ela não paira acima dos conflitos sociais concretos. Em outras palavras, nas democracias eleitorais encontramos outro poder que se utiliza dos seus mecanismos, reforça-os quando necessário ou golpeia-os quando se faz urgente. Este outro poder são as diversas frações da burguesia, perdoe-me, das “elites econômicas” (setores financeiros, comercial, industrial e agronegócio).

São essas elites econômicas, querida Vera, que em última instância sustentam ou não os governos nas democracias eleitorais. E as Forças Armadas são os seus braços repressivos, os cães usados em situações emergenciais, e os chamo de cães sem querer ofender. É apenas uma metáfora política.

Você deve estar se questionando. E os políticos? E o Congresso?

Sim, os políticos existem, mas eles não formam uma “classe”, não são alienígenas dentro do conflito social existente. Sei que é comum no jornalismo falar em “classe política”, mas na verdade, os políticos são vinculados concretamente a estes setores sociais em conflito na sociedade de mercado. Em outras palavras, os políticos não representam a si mesmos, suas consciências livres e atomizadas, mas sim os interesses sociais e econômicos que o elegeram e o sustentam lá no Parlamento, seus vínculos orgânicos com o social. Percebe isso, Vera?

Não por acaso, dizem os especialistas, quase 90% do Congresso Nacional é formado por empresários ou tem com estes ligações íntimas de vassalagem. Eles não representam o “povo”, mas a FIESP, CNI, FEBRABAN, CNA (agronegócio) etc.

É por isso que a turma da “Faria Lima” não irá, neste momento, derrubar Bolsonaro. Eles avaliam que o beócio mata, mas está garantindo lucros maravilhosos para os bancos, para os donos do capital. Não vou colocar os dados aqui porque você, como boa jornalista, poderá levantá-los com facilidade.

É verdade que a pequena burguesia (perdoe-me o jargão mofado, leia aqui classe média tradicional) anda desesperada. Reduziu a grana e suas médias e pequenas empresas estão falindo ou faliram. E nem podem ir para os EUA descansar. É chato viver aqui o tempo todo.

Também é verdade que a maioria dos jornalistas imploram todos os dias, através da grande mídia, que Bolsonaro seja afastado. Você questionou os senhores que assistem covardemente crimes, mentiras e autoritarismos da turma do Alvorada e nada fazem. Só que isso não é possível, pelo menos, por enquanto. Preste atenção.

O governo Bolsonaro goza de apoio entre os “ricos” (eu ira escrever burguesia), tem algumas antipatias na “classe média” (o pessoal do Sérgio Moro, Luciano Huck, Doria e arrependidos como Mandetta são ícones) que o considera “incivilizado” e, se o governo dele aprovar o novo auxilio emergencial, poderá recuperar algum apoio no subproletariado (você os chama de “os mais pobres”).

Eu sei que o proletariado (“trabalhadores de carteira assinada”, grosso modo) sofre com este desastre, mas não está organizado (lembre-se da destruição das estruturas sindicais no governo Temer), nem mobilizado para fazer frente ao bolsonarismo. Além disso, está desesperado e com medo de perder o emprego. São milhões e milhões e milhões de pessoas sem emprego Vera, sem nada.

O resultado é este imobilismo que você percebe, mas não por covardia do “mercado”, das “elites” que nada fazem para deter Bolsonaro. Não é um problema moral, mas se trata de questões objetivas, muito concretas Vera. A turma do “mercado” não tem razões para derrubar um governo que lhe garante ótimos lucros. Simples assim. Sei que muita gente está morrendo, mas como diz o pacóvio: E daí?

A lógica do “mercado” não se dá por ladainhas éticas, mas por interesses concretos. E sem o apoio do “mercado”, Bolsonaro permanecerá presidente. Se é que não será reeleito. Goste você ou não. O “Centrão” é apenas a face visível desta turma que joga com a tragédia, lucra com a morte e extorque dinheiro de governos fracos. Só tem “profissa” neste ramo.

Você ainda não está satisfeita e me questiona sobre o povo nas ruas, as forças de oposição, mas permita-me encerrar esta carta pública com duas notas.

O que você chama de “forças de oposição”, salvando uns e outros do campo de esquerda, que não chega a 100 parlamentares, é uma piada Vera. Veja a derrota acachapante para os candidatos bolsonaristas no Congresso. Além disso, você foi uma que contribuiu com a desmoralização das forças de esquerda, lembra? Mas tudo bem, prometi não ficar no retrovisor. Deixemos isso de lado e vamos nos unir contra o fascismo, certo?

Quanto ao povo, em sentido amplo, está lutando para sobreviver neste momento, sonhando com a vacina e rezando para que algum dinheiro surja para ir no mercado comprar um saquinho de arroz. É complicado exigir mobilização política de quem está em condições desumanas. Se as forças políticas mais consequentes não se organizam, não conseguem criar unidade para a ação coletiva, a massa amorfa de pessoas não sairá do sobrevivencialismo para fazer passeatas.

E Bolsonaro?

Bem, ele continuará nadando de braçada com a ajuda da maioria do Congresso e dessa turma que você chamou de “Faria Lima”, pois o governo é deles, os lucros são ótimos, o Banco Central segue a receita, as Bolsas estão bombando e há muito orçamento público a ser repartido. Mesmo que você grite todas as segundas em sua coluna de jornal, por que eles iriam derrubá-lo para colocar o abestado e ardiloso Mourão? Para que correr esse risco se o palhaço mantém os lucros?

Não se trata de fé, Vera Magalhães! Essa turma serve ao deus-mercado e não aos princípios republicanos que você julga ter. Compreenda isso.

Peço que me perdoe ter tomado o seu tempo, caso você tenha lido, mas é que eu senti honestidade na sua indignação e penso que poderia lhe fornecer estas pistas para sua compreensão do “jogo democrático”, sem nenhuma pretensão de verdade ou “lacração”, como dizem os jovens. Sei que posso estar errado, tenho consciência dos meus limites, mas te digo uma coisa. Aquele barbudo do século XIX ainda nos fornece bons instrumentos analíticos. Assim penso. E você?

Receba meu abraço carinhoso e respeitoso.

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador e sociólogo





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