Política

Por um socialismo radicalmente democrático

Para Tarso Genro, o grande desafio do PT hoje é pensar o conceito de socialismo humanista, libertário e radicalmente democrático

18/05/2001 00:00

(Antonio Cruz/Agência Brasil)

Créditos da foto: (Antonio Cruz/Agência Brasil)

 
O prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, acredita que, em nenhum país do mundo, as reformas e as políticas neoliberais foram feitas sem uma taxa de corrupção acima da média. A corrupção seria assim uma arma mortal contra as resistências jurídicas e contra as barreiras políticas, construídas nos últimos 200 anos. O principal papel dos quadros técnicos e políticos do neoliberalismo é, segundo a análise de Tarso, naturalizar tanto a desigualdade como a corrupção, "pois elas compõem os elementos de força, através dos quais, o projeto poderá construir sua hegemonia definitiva". Em entrevista à Carta Maior, o atual prefeito de Porto Alegre analisa os últimos acontecimentos envolvendo a CPI da Corrupção e os escândalos no Senado, projeta as tarefas que estão colocadas para a esquerda no início deste século e fala sobre as eleições do próximo ano. Tarso defende que o grande desafio do PT hoje é pensar o conceito de um socialismo humanista, libertário e radicalmente democrático. Na sua avaliação, tanto o socialismo real como a social-democracia são ineptos para responder aos desafios do presente, de uma sociedade informática, pós-industrial.

Carta Maior: Há alguns anos o sr. chegou a defender a saída de Fernando Henrique Cardoso da presidência a República. Como avalia o atual momento do governo FH?

Tarso Genro: Há dois anos e meio, defendi que FHC representava o mal para o país, que o presidente perdera a legitimidade e que, se ele usasse os mesmos critérios que usou para ficar, deveria sair antes que o Brasil se afundasse numa crise institucional, provocada por um governo nascido do estelionato eleitoral. Afirmei que o presidente estava pessoalmente responsabilizado por amparar um grupo fora da lei. A ações do governo FHC, lideradas pessoalmente pelo presidente, para abafar a CPI no Senado e na Câmara Federal só evidenciam isso.

Carta Maior: O Sr. vem defendendo há algum tempo que a corrupção é intrínseca ao neoliberalismo(ao capitalismo como um todo)? Qual a sua avaliação sobre os últimos acontecimentos envolvendo a CPI da Corrupção e os escândalos no Senado Federal?

Tarso Genro: Em nenhum país as reformas e as políticas neoliberais foram possíveis sem um taxa de corrupção superior ao "normal", porque ela se tornou uma arma letal contra as resistências jurídicas e contra as barreiras políticas , construídas nos últimos 200 anos, que identificaram o "público" com uma certa tendência à igualdade e o Estado como um "guardião de interesses" dos economicamente mais frágeis. O principal papel dos quadros técnicos e políticos do neoliberalismo é naturalizar tanto a desigualdade como a corrupção, pois elas compõem os elementos de força, através dos quais, o projeto poderá construir sua hegemonia definitiva. Nesse sentido, a letargia da sociedade diante dos desdobramentos da CPI da Corrupção e os escândalos no Senado Federal é preocupante.

Carta Maior: Há setores dentro do PT hoje que defendem que o partido deve retirar o conceito de socialismo de seu programa. Este conceito seria como uma peça de museu que teria perdido sua atualidade. Como o sr. se posiciona diante deste debate? Qual a tarefa central que cabe à esquerda brasileira hoje?

Tarso Genro: A atividade política deve ser balizada pelo projeto futuro. A ação prática que não nasce dessa mediação entre o presente e o devir, transforma-se em pragmatismo. Sem procurar antever um projeto de sociedade futura e sem um programa que remeta a ela, um partido do puro presente pode se tornar conservador. O grande desafio do PT hoje é pensar o conceito de socialismo humanista, libertário e radicalmente democrático. Tanto o socialismo real como a social-democracia são ineptos para responder aos desafios do presente, de uma sociedade informática, pós-industrial. Um projeto renovado, arejado e inovador de socialismo é tarefa central da esquerda brasileira hoje. É fundamental, por exemplo, que se tenha uma nova teoria da empresa, pois sem ela é impossível pensar uma forma de organização nova, social e econômica.

Carta Maior: O sr. vem defendendo uma radicalização no processo do Orçamento Participativo. Como se daria esta radicalização?
Tarso Genro: Depois de 12 anos de governo estamos, na verdade, perante um novo tipo de disputa. Ela é mais complexa e só será resolvida de forma adequada se voltarmos "às raízes da utopia" e conseguirmos dotar nossas ações de governo de um novo tipo de radicalismo. Mais compatível com uma sociedade que é, ao mesmo tempo, mais exigente pelo que já conseguiu com os nossos governos e, de outro, mais inorgânica, desarticulada e fragmentada, pelo que a vitória do neoliberalismo, em escala nacional, conseguiu contra nós. A mera visão de "bom governo participativo", na situação atual, choca-se contra uma realidade social, cada vez mais propulsora de insegurança, marginalização e individualismo. A "participação popular" deve ser ampliada, modernizada, aprofundada e principalmente politizada. Sob pena de que a consciência cidadã, que conseguimos desenvolver até agora, esgote-se numa relação puramente de "demandas locais" e o neoliberalismo nos seja grato por manter as tensões da cidade como questões meramente "municipais".

Carta Maior: Qual a sua avaliação sobre a atual conjuntura estadual? Como vê a reação dos partidos e forças adversárias das sucessivas administrações do PT em Porto Alegre e agora no governo do Estado?

Tarso Genro: O nosso governo estadual está apenas na metade do seu mandato e desenvolve um sólido e positivo trabalho de defesa do Rio Grande do Sul. O PT no Estado vem consolidado uma marca de governo, a partir das sucessivas administrações de Porto Alegre e da gestão de outras importantes cidades gaúchas. Travamos um embate cotidiano com setores neoliberais, desconstituindo a ideologia do "caminho único" e estimulando o fortalecimento de uma opinião pública independente. Através da intervenção da Prefeitura, com ações práticas do governo, alargamos a sociedade formal para impulsionar o exercício de uma cidadania verdadeiramente moderna, que só se realiza amplamente através da relação com o Estado.

Carta Maior: Na sua opinião, qual o melhor candidato hoje a presidência da República pelo PT? O sr. acha que o processo das prévias pode trazer algum desgaste para o partido?

Tarso Genro: Entendo que Lula é hoje a melhor possibilidade do partido na disputa à presidência da República. Ele pode aglutinar não só o PT, mas a oposição e a sociedade civil numa grande frente de combate ao neoliberalismo. A experiência do Partido dos Trabalhadores já nos revelou a riqueza das prévias, a revitalização política que a participação direta da militância gera e a oxigenação que isso traz às estruturas partidárias e às lideranças. Creio que o processo de prévias é o melhor caminho para que o nome de Lula deixe de ser uma candidatura natural para ser a melhor alternativa para o país. Caberá a Lula e a todos que defendem seu nome convencer, mobilizar e engajar a militância do PT. O processo das prévias pode ser vital para criar no partido e na sociedade as condições para a vitória de Lula na disputa presencial.






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