Política

Projeto econômico de López Obrador é traição, diz ‘Marcos’

08/08/2005 00:00

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Créditos da foto: Arquivo

São Paulo – Depois de cinco anos recluso, durante os quais se limitou a falar à opinião pública através de comunicados, o líder zapatista subcomandante Marcos reapareceu no último sábado (6) no pequeno vilarejo de San Rafael, em Chiapas, para dirigir a primeira de uma série de seis reuniões entre o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e diversos movimentos e organizações sociais e políticas do país. Na pauta, a construção de uma agenda alternativa, apartidária e independente, que Marcos chamou de “uma outra campanha”, para as eleições presidenciais em 2006. 

Neste primeiro encontro, que reuniu organizações políticas como a Unidad Obrera y Socialista, o Colectivo Acción en la Reflexión Rumbo Proletário, o Partido Revolucionario de los Trabajadores, o Partido Obrero Socialista, a Intersindical Primero de Mayo e a Fuerza de Izquierda Revolucionaria del Pueblo, entre outras, o líder zapatista escolheu como alvo o “esquerdista” Andrés Manuel López Obrador, atual líder da corrida eleitoral de 2006 nas pesquisas, e seu Partido da Revolução Democrática (PRD), aclamados por boa parte das esquerdas mexicana e latino-americana como a grande alternativa progressista à caótica administração do atual presidente Vicente Fox, do Partido de Ação Nacional (PAN).

Frente a uma audiência eclética de centenas de ativistas de mais de 30 organizações, Marcos chamou Obrador de traidor e não colocou freios no discurso. “Vamos com tudo contra ele (Obrador)”, afirmou, arriscando uma cartada alta: "os assistentes a estes encontros devem ser honestos; se estão com López Obrador, não podem estar com o EZLN”. E desafiou: “os zapatistas estão dispostos a marchar sozinhos e inclusive morrer, mas não que lhes faltem com respeito como eles (o PRD e López Obrador) fizeram. Vamos cobrar o que nos fez [o PRD] durante estes 12 anos, esse partido que se diz de esquerda e que está conformado por um grupo de sem-vergonhas, que vão pagar por ter feito troça de nós”. 

Mais atrás 
A opinião desfavorável do líder zapatista sobre López Obrador não é novidade. Em junho deste ano, logo após uma entrevista do candidato presidencial à imprensa americana, na qual afirmava que garantiria a atual política econômica para acalmar o mercado financeiro internacional, Marcos acusou Obrador de planejar dar continuidade ao ‘liberalismo social’ do ex-presidente Carlos Salinas de Gortari, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), no poder à época do levante zapatista em 1994 e responsável pela adesão mexicana ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês). 

"A oferta de López Obrador é a estabilidade macroeconômica", afirmou Marcos, "são ganhos crescentes para os ricos, miséria e despojos para os despossuídos. Foi isso que López Obrador prometeu ao poder mais acima". 

Mas as desavenças entre os zapatistas e o PRD são mais antigas. Advêm do complicado processo de negociação de uma agenda para a região de Chiapas e os povos indígenas do país, demandadas pelo levante do EZLN em 94.

O longo processo de negociações entre zapatistas e governo, que culminou nos chamados Acordos de San Andrés, acabou encaminhado ao Congresso Nacional pelo então presidente Ernesto Zedillo (PRI) em 1996, quando, além dos partidos conservadores PRI e PAN, o centro-esquerdista PRD era peça-chave das decisões políticas. Uma série de agregações de emendas e modificações, no entanto, acabou desvirtuando o acordo de tal forma que das negociações originais não permaneceu praticamente nada, denunciaram os zapatistas.

Em 2001, última vez em que Marcos se mostrou em público, o movimento marchou sobre a Cidade do México em protesto contra a Lei Indígena em que foram transformados os Acordos de San Andrés, anunciando o rompimento definitivo do processo de negociações com o governo e acusando o PRD de ter sido parte fundamental da derrota das demandas indígenas.

Mais à frente
Os ataques de Marcos a López Obrador, considerado no espectro político mexicano o “menos pior”, capaz de aglutinar minimamente as esquerdas nacionais, podem ter sido um passo calculado que, além do profundo apelo político, teriam também uma função de “marketing”.

Desde seu levante em 1994, o movimento zapatista de Chiapas foi considerado o mentor do movimento altermundista e da antiglobalização neoliberal, foi festejado pela juventude mundial como uma reinvenção do anarquismo libertário, ocupou junto à academia o posto de mais importante movimento social da América Latina, foi alvo de acusações dos EUA, que o queriam no balaio dos terroristas, ocupou manchetes em jornais do mundo todo, mas também, nos últimos anos, foi gradativamente se esvaindo do imaginário internacional por não apresentar os chamados “resultados concretos” esperados pela opinião pública.

Eminentemente indígena, o movimento zapatista e o EZLN também acabaram recebendo críticas de alguns setores populares do México, por não estarem dispostos a ampliar a luta para outros setores, como os trabalhadores rurais e urbanos; e isto pode ter sido um dos motivadores da recém divulgada “Sexta Declaração da Selva Lacandona”, documento-base para o que Marcos e o EZLN estão chamando de “a outra campanha”. 

Em resumo, a idéia zapatista é que, estando falido o sistema político mexicano a partir da estrutura partidária, é necessário reconstruir um novo modelo de participação e construção políticas. Para isso e em vista da corrida eleitoral de 2006, propõe reunir organizações e movimentos sociais e políticos que queiram participar da Campanha Nacional com Outra Política (ou “a outra campanha”), por um Programa Nacional de Luta de Esquerda e por uma nova Constituição. 

"Queremos ouvir o que pensam as pessoas de seus problemas e como os estão resolvendo. Vocês conhecem suas lutas porque estão aí. O EZLN seguirá promovendo a aparição de novos sujeitos sociais, novas formas de organização e novos mundos. Não vamos oferecer uma estrutura, mas veríamos como natural que as correntes políticas da ´outra campanha´ as ofereçam”, afirmou Marcos aos militantes partidários. 

Segundo os zapatistas, nos meses de agosto e setembro serão feitas reuniões com 30 organizações políticas de esquerda (a que ocorreu neste sábado último), 32 organizações indígenas do México, 47 organizações sociais de esquerda, 210 ONGs artísticas e culturais, grupos e coletivos, e 636 ativistas individuais. Dia 16 de setembro, avalia o movimento, poderá ser feito o primeiro comunicado público oficial resultante desta maratona. 


Reações

Segundo o jornal mexicano La Jornada, as reações às declarações de Marcos foram variadas. Inclusive dentro do PRD. De acordo com o diário, o líder do partido no Senado, Jesús Ortega, qualificou as opiniões do subcomandante de intolerantes e resquícios de uma velha esquerda incapaz de escutar razões, de discutir e de aceitar a pluralidade de pensamentos. Ligado à corrente Nova Esquerda do PRD, Ortega representa a ala mais conservadora do partido.

 

É exatamente este conservadorismo presente no PRD que afeta as relações com os movimentos sociais, avalia a líder do partido na Assembléia Legislativa do Distrito Federal, Alejandra Barrales. Segundo ela, mesmo considerando injustas as declarações de Marcos sobre a totalidade do PRD, Ortega, a quem definiu como “direita dentro da esquerda”, através de sua atuação no Congresso contra a propostas dos indígenas contribuiu com o sentimento de traição do EZLN.

 

“Mas é lamentável que o subcomandante inclua todos os membros do PRD [nas críticas], já que ha companheiros e companheiras que têm lutado com os zapatistas por uma vida melhor para os indígenas”, afirmou a deputada.

 

Já para o historiador Carlos Montemayor, ouvido pela agencia DPA, “as críticas de Marcos não devem ser interpretadas como ofensiva contra um partido ou candidato, mas contra todo o sistema político que se distanciou do povo. O mais importante é que a política mexicana neste momento é um assunto de cúpula, das elites. O mais importante da convocatória de Marcos é que está possibilitando imaginar-se um país melhor através dos diálogos com as bases”.

 

E concluiu: “as mensagens do EZLN são um bom sinal para que todos que se sentem de esquerda reflitam o que significa ser de esquerda. O subcomandante Marcos é bom para a análise, e sua proposta de levar a política às bases é a única alternativa que terá o país de mudar para melhor”.


Com informações de La Jornada





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