Política

Qual Maio Comemorar?

Uma característica forte de Maio de 1968 foi sua simultaneidade. Como vimos, a revolta eclodiu em muitos países diferentes

22/05/2018 13:35

 

 
O maio de 1968 tem muitas imagens: a dos estudantes em Paris, a das greves operárias, a da luta contra a ocupação soviética em Praga, a da Revolução Cultural chinesa, o outono quente na Itália (embora tenha ocorrido no ano seguinte), os Panteras Negras nos Estados Unidos, os massacres no México e Senegal, a Rua Maria Antônia ou as greves de Osasco e Contagem.

Há muitas outras, certamente. Mas esquecemos de acrescentar que as imagens dominantes mudam. Como terá sido rememorado aquele evento dez anos depois no ABC paulista em que o movimento operário ressurgia? Ainda que ignorado por muitos dos operários brasileiros, as leituras dos anos 1960 estiveram presentes na fundação do Partido dos Trabalhadores. O ar libertário de muitos petistas, ao lado das correntes tradicionais do movimento socialista, permitiu que Guattarri viesse entrevistar Lula.

Se em 1988 o mundo não esperava a iminente queda do bloco socialista e revia as imagens de Dani le rouge agora como deputado do Partido Verde, dez anos depois o maio se fez acompanhar da luta contra os efeitos do neoliberalismo e da domesticação completa da social democracia europeia que buscava uma terceira via. Não entre capitalismo e socialismo. Mas entre capitalismo liberal e outro mais liberal.

Em 2008 o aniversário se fez acompanhar de nova crise mundial. Também em 1968 a revolta eclodiu depois do boom econômico do pós II Guerra Mundial. Os “trinta anos gloriosos” tinham conduzido a uma sociedade afluente, totalmente diversa daquela que os pais dos jovens soixante huitards tinham conhecido.

As privações materiais e as guerras haviam sido substituídas pelas preocupações com alienação, a sociedade do espetáculo e a exploração do tempo livre conquistado pela classe operária. Era o regime de acumulação em que a taxa de lucro aumentava com a mais valia relativa. Evidentemente, os mesmos problemas existiam no então chamado Terceiro Mundo que se industrializava. Mas agravados com a fome, a miséria e as guerras já superadas na Europa ocidental. É verdade que o mundo ingressava numa crise econômica que teria seu desenlace no choque do petróleo em 1973

A vida tinha melhorado? Sim. Mas exatamente por isso as reivindicações estudantis pelo impossível levaram a classe trabalhadora a conquistar o possível: uma maior participação na renda nacional. Se os jovens saíam às ruas, os trabalhadores podiam fazer o mesmo através de greves muitas vezes contra patrões e sindicatos.

Uma característica forte de Maio de 1968 foi sua simultaneidade. Como vimos, a revolta eclodiu em muitos países diferentes. Também as revoltas pós crise de 2008 aconteceram por motivos específicos, mas era possível encontrar o universal em cada situação particular. Houve um mal estar depois de um curto período de crescimento. De todas as revoltas (indignados europeus, ocupantes de Wall Street ou Primavera Árabe) a mais espetacular foi o junho de 2013 no Brasil. Pelas dimensões do país e dos protestos e por suas consequências.

A América Latina vivia o fim dos preços altos das commodities e a da base material para governos progressistas de conciliação com as classes dominantes. No ano de 2008 o preço do petróleo tinha passado de 130 dólares e caiu a 31 dólares em fevereiro de 2016. No interregno avolumaram-se os protestos, autênticos ou induzidos, e os governos latino-americanos foram sendo substituídos por golpes de Estado legalizados, como no Brasil, Paraguai e Honduras; por eleições, como no caso argentino ou uma mescla dos dois, como no Equador. E há ainda o caso da Venezuela sufocado pela pressão imperialista externa. Nesses 50 anos de maio vivemos um ataque terrível do capital sobre o orçamento público e os direitos trabalhistas.

Qual o maio de 68 comemoramos?

O Brasil viveu aquele ano sob uma ditadura e, 50 anos depois, rememora os acontecimentos numa situação incerta. Que talvez não seja uma ditadura, mas certamente não é uma democracia.

O fim dos anos Lula e o pós junho de 2013 estão marcados pela desilusão no curto prazo. E no longo, diria um grande economista, estaremos todos mortos. Mas um historiador pode afirmar que a tentativa de levar a classe trabalhadora de volta ao século XIX também tira dela todos os seus freios.

Novos maios virão.

*Lincoln Secco é Professor Livre docente de História Contemporânea na Universidade de São Paulo (USP)



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