Política

Quantas imagens mais de desastres por covid serão necessárias para fazer os países ricos agirem?

A crise na índia forçou o ocidente a responder. Mas sem um plano global ambicioso, outras nações podem sofrer com destinos similares

04/05/2021 10:02

(Ilustração de Matt Kenyon/Reprodução/The Guardian)

Créditos da foto: (Ilustração de Matt Kenyon/Reprodução/The Guardian)

 
Enquanto o número de casos de covid-19 cresceu dramaticamente na Europa e nos EUA durante o início do ano passado, algo estranho parecia estar acontecendo no sul global. O número total de mortos da África do Sul era menos que 100 ao mesmo tempo em que a Grã-Bretanha estava perdendo mais de 1.000 vidas por dia. A taxa de mortalidade da Índia durante esse período era tão baixa que foi tida como um “mistério”. Conclusões mais seguras foram traçadas sobre o destino da África; alguns pensavam que o continente teria sido poupado do pior da covid-19 por ter tomado ações decisivas no início da pandemia, enquanto outros diziam que o continente havia sido salvo por seu clima quente, sua baixa população de idosos e seus “bons sistemas de saúde comunitários”. Ainda houve uma breve exaltação sobre o potencial curativo da Artemísia caseira, uma planta que o presidente de Madagascar alegou servir como tratamento contra a covid-19.

A maior parte desse raciocínio era especulativa. Ao final do verão de 2020, duas tendências claras estavam emergindo. Enquanto partes da Europa ocidental estavam passando por uma primeira onda devastadora de casos de covid-19, a África e o sul asiático estavam vivendo uma taxa de infecção vagarosa, algumas vezes parada, e uma taxa de mortalidade baixa por comparação. Essas tendências agora estão revertendo.

Com programas de vacinação ganhando atenção no norte global, a pandemia nos países ocidentais finalmente parece estar minguando. O oposto está acontecendo em países de baixa renda. A maioria não pode contar com acesso à tecnologia para vacinas ou doações no futuro próximo. Instituições de saúde estão sobrecarregadas e sem recursos, e a coleta de dados é limitada, significando que as estatísticas de mortes não são confiáveis. A maioria da população mundial fora dos países ricos está enfrentando uma crise de covid prolongada. De fato, para muitos países não tem como saber quando a pandemia vai acabar. Ao invés, o que resta é uma incerteza sem fim, enquanto a população tenta, e inevitavelmente fracassa, conviver com o vírus.

Para cada medida que colocou a África e o sul asiático em uma boa posição no início da pandemia, há uma outra para prejudicá-la. Existem, de fato, sistemas de saúde comunitários fortes em partes África ocidental, um legado da crise de Ebola. Essas redes podem suscitar conscientização, mas sem a capacidade de testagem para o coronavírus, não conseguem ter uma ideia clara das taxas de infecção. O mesmo se aplica às taxas de mortalidade. Em áreas rurais, muitas pessoas não têm acesso à grandes hospitais, e algumas mortes não são formalmente registradas. O medo do estigma social que um diagnóstico de covid-19 pode carregar significa que algumas pessoas enterram seus parentes mortos às pressas, sem um diagnóstico ou sem alertar a família e redes de amigos.

Ao invés de dados confiáveis, aqueles de nós com família ou amigos em países de baixa renda possuem evidências silenciadas, baseadas em relatos pessoais que não correspondem à contagem oficial. Nós medimos as ondas a partir do acompanhamento do que ouvimos; aprendemos a reconhecer os sinais. Quando nossos parentes nos contam sobre uma doença rápida ou uma morte silenciada, a pessoa morta é adicionada à uma contagem informal e mental de casos de covid-19.

Para derrotar o vírus com sucesso são necessários números sólidos e um painel de dados. Sem eles, cientistas estão lutando contra essa doença no escuro, como disse Michelle Gayer, diretora de emergência salutar no Comitê Internacional de Resgate, à revista de negócios Quartz. Quando é permitido que um vírus se espalhe silenciosamente e os cientistas não têm os dados para mapear sua trajetória, é difícil dizer o que está de fato acontecendo até que um aumento traumático na taxa de mortalidade ilumine o número de casos. Essa é a realidade atual na Índia, e enquanto eu não espero ser uma fatalista, parece possível que esse venha a ser o caso em outros países também.

Uma breve pesquisa em poucos dos maiores países africanos por população mostra quão volátil a situação ainda é. A África do Sul e a Etiópia permanecem na lista vermelha do Reino Unido e estão em estágios diferentes de lockdown, enquanto seus governos improvisam juntos programas vacinais. O Quênia acabou de sair de outro lockdown, mas continua em toque de recolher rígido e permanece na lista vermelha. O Egito encurtou abruptamente o ano escolar e parece estar indo para o pico de sua terceira onda. As principais estratégias para lidar com a situação disponíveis para esses países são ciclos intermináveis de lockdowns e afrouxamento. Isso compra tempo para os governos e reduz a pressão em instituições de saúde limitadas, mas acabam com a economia no processo. Em países mais pobres onde o apoio estatal é limitado, lockdowns podem ser tão mortais quanto o vírus, porque tiram das pessoas a capacidade de ganhar a vida.

O desfecho não são somente desafios restritos ou surtos esporádicos, mas sim uma população inteira presa e condenada a viver com o vírus. O melhor cenário é um no qual os governos estão capazes de conter um pico alto de casos por meio de lockdowns, enquanto vidas e meios de subsistência são perdidos para restrições econômicas. O pior é o tipo de explosão que estamos vendo na Índia. Alguns observadores estimam que o vírus vai matar mais pessoas em 2021 do que matou em 2020.

 O que nos leva ao que pode e deveria ser feito. O fato de que a pandemia não está se desenrolando nos países pobres com a mesma virulência que vimos nos países ocidentais não significa que não existam incêndios vagarosos e mortais latentes, que ainda podem virar um inferno. Tem um atraso nas nossas respostas contra a covid-19, tanto em casa quanto fora. Ao passo que os governos ocidentais aprenderam com a primeira onda, quando a taxa de mortalidade pesada chegar, será tarde demais. Quando o mundo viu as imagens da Índia mostrando cremações em massa, o país já estava envolto em uma crise. Aquelas imagens motivaram Joe Biden a reverter seu posicionamento e prometer enviar “uma série de auxílios”. Eu diria que se o mundo tivesse tido acesso a imagens similares de outros países, teria sido insustentável para o ocidente manter esse apartheid vacinal.

Mas não deveríamos ter que esperar por imagens como essas para provocar ação. O que é necessário é algo bem mais ambicioso que doações de vacinas. O mundo precisa de um exercício logístico global, um tipo de Plano Marshall que forneceria apoio financeiro, força de trabalho especializada e tecnologia médica. Nos EUA, senadores Democratas, progressistas, ONGs e uma aliança de 175 ex-líderes mundiais e ganhadores do Nobel se uniram para pressionar Biden a abrir mão da propriedade intelectual sobre as vacinas. Enquanto o vírus recua no ocidente, agora é hora de pressionar líderes a retirarem o sul do seu destino quase certo. Quando o número real de mortes e infecções em países mais pobres ficar mais claro, será tarde demais para muitas pessoas.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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