Política

Quatro deputados federais, Plínio e Bicudo deixam o PT

26/09/2005 00:00

São Paulo – Depois de um fim de semana dramático para a esquerda do PT, quando vários deputados federais e correntes internas se reuniram com mandatos e filiados para discutir uma possível saída do partido, as decisões da maioria foram comunicadas nesta segunda (26). Dos nomes de maior destaque, se desfiliaram os deputados federais Ivan Valente (SP), Orlando Fantazzini (SP), Maria José Maninha (DF) e Chico Alencar (RJ), além do candidato à presidência do PT, Plínio de Arruda Sampaio (quarto colocado no Processo de Eleições Diretas - PED), e o ex-vice prefeito de São Paulo, o jurista Helio Bicudo. Outros, como os deputados Paulo Rubem Santiago, Walter Pinheiro e Dra. Clair, parlamentares que compõe o bloco de esquerda do PT e que também aventaram a desfiliação, devem permanecer por enquanto.

 

A principal motivação da saída de seu grupo, argumenta Plínio Sampaio, foi, além da manutenção da hegemonia do Campo Majoritário (ao qual são ligados a maioria dos petistas envolvidos no escândalo do mensalão) no diretório nacional e na executiva do PT, a prática de irregularidades, como pagamento de dívidas e transporte de eleitores no primeiro turno do PED.

 

“Em todas as reuniões, disse que o PED seria um teste. Não o resultado, mas a forma de proceder as eleições. O que mata o PT é a máquina eleitoral. Essa máquina eleitoral funciona em grande parte com a votação massiva de clientela. Ficou público que houve procedimentos típicos [do uso] da máquina. Achei que não tinha mais condição [de ficar no PT] quando vi que, apesar de toda a crise, da vigilância da imprensa e das nossas advertências, os mesmos métodos de conseguir votos foram empregados”, afirma.

 

PSOL

Concomitantemente à desfiliação do PT, Plínio, Valente, Fantazzini e Alencar anunciaram sua migração para o PSOL, partido que recebeu ainda no domingo (25) cerca de 500 petistas ligados à dissidência de correntes do partido e dirigentes da CUT e outros movimentos sociais.

 

Segundo Ivan Valente, cuja tendência, a Ação Popular Socialista (APS), optou pela saída em massa – o que deve acarretar perdas para o PT em cerca do 20 Estados -, o PSOL teria afinidades com o programa histórico do PT com o qual sua corrente e os demais dissidentes do partido se identificam. Sobre a linha programática do PSOL, tanto Valente quanto Plínio Sampaio afirmaram que não foi exigido dos novos ingressantes um compromisso definitivo, já que o próprio partido, recém registrado junto ao Superior Tribunal Eleitoral, ainda discute sua carta de princípios.

 

“O PSOL deixou claro que programa, estatuto e manifesto [do partido] são provisórios, para ficar mais flexíveis para o ingresso de pessoas que querem discutir essa nova agremiação. É uma filiação muito generosa que nos ofereceram, sem que isto implique desde já em um compromisso definitivo, porque nem eles têm cristalizadas as suas posições”, afirma Plínio.

 

Valente complementa: “é uma legenda que nós trataremos, nesse primeiro momento, de forma que isso não signifique perda de liberdade para as partes. Estatutariamente, no campo das deliberações políticas, haverá mecanismos para equalizar posições”. Em função do movimento de filiações de ex-petistas, o PSOL adiou a congresso do partido, originalmente marcado para fins de 2005, para o início de 2006.

 

A relação complicada entre o PSOL e o PT, marcada por pesadas críticas do primeiro ao segundo e ao governo Lula, deve assumir contornos diferentes agora, tanto pela força dos novos integrantes quanto por uma posição mais conciliadora da própria direção do partido. Pelo menos a esquerda do PT, garante o economista João Machado, membro da Executiva provisória do PSOL, será tratada como aliada, o que não significa aliviar para o governo. “Nossos aliados serão os que defendem posições de esquerda. Não dá pra falar do PT como um todo, parte do partido não se diferencia do PSDB; mas os setores de esquerda serão nossos aliados”.

 

Ivan Valente também garante que o PT não será o inimigo principal. “Existe uma direita que está ocupando espaço na sociedade e que nós combateremos duramente, e queremos que o PSOL assuma essa direção. O diálogo com a esquerda do PT é fundamental porque muitos companheiros valorosos permanecem no partido; mas mais do que isso, existem milhares de simpatizantes, ativistas e militantes do PT que nos interessa trazer para esta visão originária da transformação social”, explica.

 

Ainda segundo o deputado, a saída do PT não é litigiosa, mas um divórcio amigável. “Quero dizer que vou guardar minha estrela do PT com carinho; acho que o PT foi a maior experiência histórica da classe trabalhadora”.

 

Segundo turno do PED

A saída de Plínio Sampaio e seu grupo do PT deve atingir diretamente a candidatura de Raul Pont, da corrente Democracia Socialista, no segundo turno do PED, no qual, tudo indica, concorrerá com Ricardo Berzoini (Campo Majoritário) pela presidência do partido. No início do processo, as candidaturas de esquerda – Plínio, Pont e Valter Pomar – haviam acordado um apoio mútuo no segundo turno, o que se inviabiliza com a decisão de Plínio.

 

Em nota à imprensa, a APS e a candidatura Plínio afirmam que tiveram “a felicidade de merecer o apoio de quase 40 mil militantes nessas eleições internas do PT, aos quais agradecemos profundamente. Se optássemos por nele permanecer, nosso apoio inequívoco no segundo turno seria para o companheiro Raul Pont, que terá o apoio das correntes Brasil Socialista e Fórum Socialista, que permanecerão no PT”.

 

“Estamos manifestando nossa simpatia pelo Raul Pont porque nós não podemos mais dar apoio [a ele], pois nesse momento não somos mais PT. Dos 40 mil militantes que votaram em mim, uma parte certamente vai sair conosco. E uma parte vai ficar. A essa parte que vai ficar no partido nós estamos recomendando o voto no Raul”, afirmou Plínio.

 

Para Pont, no entanto, a opção pela saída do PT foi um erro político. "É lamentável que eles tenham tomado essa atitude, pois ela representa o caminho da pulverização e da atomização da esquerda no país, que não ajuda em nada a dar um novo rumo à experiência mais importante que a esquerda brasileira construiu", comentou.

 

Pont admitiu que a decisão pode trazer algum prejuízo para a sua candidatura no segundo turno do PED, mas ressaltou que acredita que a imensa maioria dos filiados que votaram na candidatura Plínio irão permanecer no partido e participar da votação do segundo turno.

 

O presidente do PT, Tarso Genro, também comentou a saída do grupo de Plínio. “A decisão de saída de um partido político é um ato de consciência; logo, uma tomada de posição unilteral de quem se retira de uma agremiação partidária. Desejamos aos companheiros que estão buscando outra sigla para sua militância que realizem o seu desejo de contribuir de uma forma mais eficaz para a construção de um país melhor. Da nossa parte, continuaremos construindo o Partido dos Trabalhadores e buscando resgatar o desejo de mudança e de justiça social que o partido sempre representou”, afirmou, em nota à imprensa.


As correntes Brasil Socialista e Fórum Socialista, ligadas a Plínio e que ficaram no PT,  devem indicar os membros que participarão da direção do partido de acordo com os 9% conquistados no pleito interno - sete representantes no Diretório Nacional e dois na Executiva do partido. Ambas as correntes garantiram à coordenação da candidatura Pont que se integrarão a sua campanha a partir de agora.

*Colaborou Marco Aurélio Weissheimer

 

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