Política

Cristina não tem medo do dragão chinês

Em meio de ataques desestabilizadores orquestrados pela direita, a presidenta Kirchner viajou à China, onde aprofundou a aproximação estratégica.

09/04/2015 00:00

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Créditos da foto: GoShow/wikimedia commons
Um fantasma sobrevoa a América do Sul. Brasil, Argentina e Venezuela, principais potências sul-americanas, enfrentam processos desestabilizadores encabeçados por personagens que repudiam a nova política externa de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Nicolás Maduro, ao mesmo tempo que recomendam restabelecer uma relação preferencial com Washington.


O desgaste político do governo brasileiro devido à guerra política alimentada pelos defensores do impeachment é comparável à situação observada em Buenos Aires, embora não sejam panoramas idênticos, pois na Argentina a direita evita falar em golpe, apesar de tentar incendiar o país até as eleições de outubro.


No cenário portenho, a guerra política foi forçada pela morte de um promotor que recebia ordens de Washington, algo diferente da também grave situação política que observada em Caracas, ameaçada por grupos de choque e milícias políticas de direita.


Apesar dessas diferenças parciais, o importante é que os três governos são vítimas de planos para quebrar a ordem institucional, através de novos tipos de estratégias. Golpes econômicos, golpes institucionais ou a renúncia antecipada dos governantes.


Observando a realidade regional em perspectiva, chega-se à conclusão de que, pela primeira vez neste século, as nações mais importantes da América do Sul enfrentaram ameaças simultâneas à sua ordem institucional.


É verdade que houve movimentos golpistas prévios, no Paraguai (2012, com sucesso), Equador (2010) e Bolívia (2008), mas dessa vez contra governos progressistas de menor importância geopolítica, e não foram simultâneos, como os que ocorrem nestes momentos no Brasil, na Argentina e na Venezuela.
 


O LONGO BRAÇO DE WASHINGTON


A propósito, qualquer analista rigoroso, seja de direita ou de esquerda, afirmaria que Washington não é alheio às mobilizações contra Dilma, Cristina e Maduro, assim como não o foi nos movimentos contra o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo e seus colegas Rafael Correa e Evo Morales, que puderam reverter suas crises e continuar no poder.


Os Estados Unidos jamais censuraram as insurgências no Paraguai, no Equador e na Bolívia, assim como, na atualidade, não dissimula sua distância diplomática com Brasil, Venezuela e Argentina.


Basta observar a hostilidade do Departamento de Estado contra Venezuela, aplicando severas sanções, por considerar o país uma ameaça à sua segurança nacional. Ou o permanente assédio diplomático contra o governo de Cristina Kirchner, que se viu obrigada a publicar nota oficial solicitando ao governo de Barack Obama que termine com a “ingerência” nos assuntos internos da política argentina.


No caso do Brasil, por um lado, Washington e Brasília se reaproximaram na recente Cúpula das Américas, no Panamá, na que Dilma Rousseff e Barack Obama agendaram uma reunião de trabalho, que acontecerá em junho, em Washington.


O encontro entre no Panamá ocorreu após quase dois anos de relações congeladas. Em setembro de 2013, a presidenta suspendeu uma visita de Estado em reposta à espionagem da NSA contra ela e a Petrobras. Até hoje, apesar das queixas apresentadas formalmente pela  presidenta, a NSA ainda não a excluiu da lista de líderes investigados.


Em resumo: os Estados Unidos esfriaram e até suas relações com os três governos progressistas mais longevos do continente: o do Partido dos Trabalhadores, o do peronismo de centro-esquerda o dol movimento bolivariano.


Paralelamente, o governo e os grupos de poder fáticos norte-americanos estimulam, com maior ou menor dissimulação, as forças conservadoras locais (banqueiros, mídia privada e partidos de direita), em sua conspiração contra as experiências progressistas.


Contudo, o acosso estadunidense contra o Brasil, primeira economia latino-americana, e seus sócios argentinos e venezuelanos, também é motivado pela aproximação dos com a China, um gigante que começa a ameaçar a hegemonia ianque na América do Sul.


A China vem exercendo uma estratégia na região sustentada numa diplomacia aberta ao diálogo e principalmente nas relações econômicas – Pequim já ultrapassou Washington em termos de comércio com Brasil e Argentina.
 


DRAGÃO HERBÍVORO?


China e Estados Unidos travam uma batalha na América do Sul, que pode ser comparada, apesar das diferenças, com a que já mantêm na África, outro continente rico em alimentos, minerais e petróleo.


Sendo, como são, as duas maiores potências mundiais, ambos os países dão prioridade às suas estratégias expansionistas.


Ninguém supõe que a China é um dragão herbívoro que desembarca no Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador e Chile para favorecer esses países sem pedir nada em troca. São relações de poder objetivas, marcadas por processos históricos.


É nesse ponto que a China se destaca, oferecendo um fator importante de estabilidade e apoio à continuidade dos governos de esquerda, com os quais reforçou as relações comerciais, financeiras e também diplomáticas.


Nos primeiros três meses de 2015, enquanto se tornaram mais agressivos os ataques desestabilizadores contra Brasil, Argentina e Venezuela, o presidente chinês Xi Jinping demostrou seu respaldo à continuidade dos respectivos governos.


Mais que isso, o fez com gestos políticos e iniciativas concretas. Em janeiro, enquanto os grupos desestabilizadores venezuelanos, financiados pelos Estados Unidos, redobraram sus ofensiva (liderados pela extremista María Corina Machado, amiga de Aécio Neves), Jinping se encontrou com o presidente Nicolás Maduro e assinou com ele alguns acordos importantes.
 


CRISTINA NÃO TEME O DRAGÃO


Dois meses depois do encontro com Maduro, o líder chinês se reuniu com Cristina Kirchner, com quem chegou a um acordo para a construção de represas hidroelétricas na Patagônia argentina, e confirmou uma ajuda financeira de um bilhão de yuans.


O dinheiro chinês ajuda a recuperar as reservas portenhas, e representa um balde de água fria nos especuladores que preparavam um ataque contra o peso argentino.


A poucos meses das eleições presidenciais de outubro, Cristina argentina colocou em prática uma agenda diplomática ousada, caracterizada pela autonomia com relação a Washington e em sintonia com as principais potências emergentes


Após viajar a Pequim, a presidenta argentina embarcou para a Rússia, onde assinou acordos nucleares com seu colega Vladimir Putin.


Desde a Cúpula dos BRICS, realizada em Fortaleza, em 2014, tanto Pequim quanto Moscou deixaram claro seu crescente interesse na América do Sul. Exemplo dessa política de boa vizinhança com a região foi a liberação de um crédito de 3,5 bilhões que a China entregou a Petrobras, através do seu Banco de Desenvolvimento, com o qual o Brasil poderá conter a pressão contra a petroleira, impulsada especialmente pelos acionistas norte-americanos.


Esses acionistas operam como os “abutres” econômicos, buscam sangrar a empresa e aproveitar o que sobra dela. Contam com o apoio de lobistas interessados em enterrar a legislação petroleira que concede prioridade à Petrobras na exploração dos campos do Pré-Sal.


Exemplos que apenas ilustram a estratégia chinesa, interessada na estabilidade regional e se situando como antítese dos Estados Unidos, que através da diplomacia formal e dos grupos de interesse privados, tenta manter contra as cordas autoridades democraticamente eleitas.


Talvez seja preciso analisar o dragão chinês – que não é herbívoro, mas sim absolutamente pragmático – como uma potencial ameaça imperial. Porém, no curto ou médio prazo, o colosso asiático pode despontar como um aliado imprescindível.


Isso porque a China vem demostrando, através de iniciativas concretas, seu compromisso com uma América do Sul cada vez mais independente dos Estados Unidos.


Tanto a China quanto os governos progressistas da região apostam na consolidação de uma ordem mundial multipolar, na qual as potências emergentes devem ganhar mais peso, como o Brasil e os blocos de diversa magnitude, desde a Unasul até o cada vez mais robusto BRICS.






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