Política

Quem tem medo do povo?

 

05/06/2020 17:40

Ato contra o rascismo em Curitiba, na segunda-feira, 01/06 (Pedro Carrano)

Créditos da foto: Ato contra o rascismo em Curitiba, na segunda-feira, 01/06 (Pedro Carrano)

 

Essa talvez seja uma das grandes perguntas do pensamento político moderno desde o surgimento da democracia. A ágora-fobia, como assim chama o pesquisador canadense Francis Dupuis-Déri, é caracterizada exatamente por esse medo pânico de que o povo se insurja como ator político fundamental na arena pública.

No século XIX, as chamadas Psicologias das multidões, lideradas por Gabriel Tarde e por Gustav Le Bon, tentavam dar conta do fenômeno das massas como aquilo que ameaça a ordem e, por conseguinte, todo o tecido social, pois guiadas por afetos intensos, irracionais e inconscientes. Assim, tenderiam inexoravelmente para atos bárbaros de violência, pois o furor despertado na multidão só conheceria paralelo nos selvagens.

Se voltarmos um século antes, localizaremos nos editos de Paris de 1754-1764, apoiado pelos fisiocratas, uma distinção sutil, e por isso ainda mais interessante, entre a população, como sujeito político sobre a qual o governo deve agir para extrair determinados resultados, e o povo, que se comporta como se não pertencesse a essa população ao agir como massa que resiste aos poderes estabelecidos e, por conseguinte, ameaça a ordem do sistema. A distinção se faz, portanto, entre população governável, dócil e ordeira, de um lado, e o povo irresponsável, irracional e ingovernável, de outro, sobre o qual deve atuar mecanismos de segurança. Vejamos que a matriz da Psicologia das multidões está revelada.

Essas histórias se cruzam no Brasil de 2020 quando o vice-presidente da República divulga artigo criminalizando as manifestações pró-democracia do último domingo, 31/05, e se cala quanto às manifestações que ocorrem reiteradamente, sobretudo em Brasília, com a participação do seu chefe capitão e que, de democráticas, nem verniz de retórica.

Não podemos esquecer que a chapa Bolsonaro-Mourão foi eleita como forte apelo populista, baseado na construção de um "povo" que se articula em torno da nação, e cuja principal fronteira se faz entre o "nós", brasileiros de bem, verdadeiros herdeiros dessa terra e semblantes do americano médio consumista e armamentista, e o "eles", inimigos parasitas que corroem o Estado Brasileiro e desmoralizam a sua população. Populismo de extrema direita que não cansa de reesquadrinhar o espaço político e social, estreitando cada vez mais as suas margens. "Brasil acima de tudo": do regime político, das instituições, da lei. "Deus acima de todos": do povo e da sua heterogeneidade, do povo e das suas demandas, do povo e das suas mortes.

Se foi preciso ao bolsonarismo usar o populismo como estratégia política para vencer as eleições, alinhavando várias camadas sociais e suas insatisfações com o sistema político, já não é preciso insistir nessa estratégia, pois a população brasileira foi achatada aos 30% dos apoiadores atávicos do presidente. Esses, os "verdadeiros manifestantes", são protegidos pelas forças do Estado, enquanto provocam os "bárbaros" do lado de lá. O povo, agora alargado para parcelas da sociedade antes ausentes desse conglomerado "incivilizado", vê-se excluído do debate político e do seu palco principal: a arena pública, as ruas como expressão máxima do questionamento e da revolta.

Não faz sentido ao bolsonarismo manter-se atado ao jogo democrático porque o povo, aquele que ele prometeu trazer de regresso ao campo político, já não existe. O que existe é O povo, essa massa irracional, inconsequente e infame cuja "opinião" deve ceder espaço aos "princípios" do Estado autoritário que reluzem, como espelho d'água, o brilho do poder.

O golpe de Estado não é a suspensão do ordenamento jurídico, mas a expressão máxima da racionalidade de Estado que se faz apoiada no aparato econômico-militar e invoca, em nome da necessidade, sua face teatral e violenta, marcando, como bem disse Michel Foucault, "o horizonte trágico da política e da história".

Para aqueles que ainda acreditam no "mercado" como poder moderador das sanhas golpistas autoritárias, não custa lembrá-los da declaração de Friedrich Hayek, um dos principais teóricos do liberalismo, em 1981, sobre a ditadura de Pinochet: "é possível para um ditador governar de forma liberal. E também é possível para uma democracia governar sem liberalismo nenhum. Pessoalmente, prefiro um ditador liberal a um governo democrático sem liberalismo."

Nesse enquadre se encaixam perfeitamente o novo slogan do governo em plena pandemia ("A economia não pode parar") e sua versão de porta de planalto ("Vão morrer muitos? Vão! Mas, paciência"). Nessa gramática podemos também incluir os cálculos mórbidos do ministro Chicago Boy, segundo o qual, quanto mais idosos morrerem, melhor para reduzir o déficit previdenciário. Paramos por aqui, pois os exemplos, além de exaustivos, são dolorosos.

Vivemos um novo momento populista, como define a cientista política belga Chantal Mouffe em referência à Europa Ocidental, e nos cabe, nesse momento, como tarefa política fundamental, redefinir as nossas fronteiras e construir uma nova noção de "povo" na qual caibam as diversas e inúmeras faces espalhadas por esse vasto território, somos mais de 70%. Recusar essa tarefa política em nome de essencialismos é não entender o perigo que cintila no momento. A fronteira que reorganiza o país separa os democratas, que defendem a liberdade, a igualdade, a soberania do povo, a separação dos poderes e o Estado de direito, dos autoritários, os quais confundem ditadura com regime político e a aplicação da lei com perseguição política.

Pedir-nos para recuar nesse instante é negar a política como campo agonístico; é nos pedir para que assistamos, como se assiste passivamente a um filme protofascista, a instauração do terror entre nós. Não seremos nós a temer o povo.

Tatiane de Andrade é Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social e Política e doutoranda em Teoria Psicanalítica pela UFRJ

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