Política

Resultado do 1º turno sinaliza ameaça à reeleição de Lula

04/10/2004 00:00

Brasília – Não se trata mais de sinalização de pesquisas eleitorais. Neste primeiro turno das eleições municipais, o eleitor escolheu o PT e o PSDB para liderarem os dois blocos que disputarão o poder em 2006. A correlação de forças que sairá deste pleito ainda está indefinida, pois haverá segundo turno em 44 cidades. O PT está na disputa por mais 24 municípios e o PSDB, 20. Os dois partidos se enfrentam em 10 localidades, sendo a mais emblemática em São Paulo, onde o candidato tucano José Serra, que perdeu a eleição presidencial para Lula, larga com uma vantagem de oito pontos percentuais na frente da prefeita Marta Suplicy.

Os resultados do segundo turno podem inclinar a balança para um lado ou para outro, mas os números da primeira rodada da disputa já fornecem um bom rascunho do cenário político-partidário do país. Na primeira eleição após chegar ao poder central, o PT salta das urnas como o partido mais votado em todo o Brasil. Teve mais de 16 milhões de votos em seus candidatos a prefeito, o equivalente a 17,2% do eleitorado – já excluindo os votos invalidados. Nada mal para quem teve candidato próprio em menos da metade dos municípios brasileiros. Principalmente levando-se em consideração o crescimento nas duas últimas eleições municipais. Em 1996, o PT teve 10,7% dos votos para prefeito – era o quinto partido mais votado. Na eleição seguinte, subiu uma posição, alcançando 14,1% dos votos.

Com candidaturas fortes em dois terços dos 96 maiores municípios do país (denominado G-96 pelo núcleo de estratégia petista), onde estão concentrados mais de 40% do eleitorado brasileiro, o PT conseguiu manter sua base política nos grandes centros. E tornou-se um partido nacional, com a ascensão de lideranças nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste, onde a sua presença era pouco expressiva. Teve algum avanço nos rincões, mas não conseguiu alcançar a capilaridade que a direção do partido esperava, e que é necessária para sustentar uma hegemonia por período prolongado.

O PT governa hoje 29 cidades do G-96. Conseguiu reeleger ou eleger 12 prefeitos desse grupo no primeiro turno – as capitais Belo Horizonte (MG), Recife (PE), Aracaju (SE), Rio Branco (AC), Palmas (TO) e Macapá (AP) e as cidades de Guarulhos (SP), Suzano (SP), Gavataí (RS), Santa Maria (RS), Vitória da Conquista (BA) e Santarém (PA). Em tese, o partido pode chegar a 36 prefeituras do G-96, já que disputa o segundo turno em 24. Se não for um desastre completo na fase final da disputa, ainda poderá contar com um grande grupo de máquinas municipais fortes. Em São Paulo, o partido perdeu algumas prefeituras importantes, como Campinas, Ribeirão Preto, Franca e Piracicaba, mas pode compensar com Santos e Osasco, onde disputa o segundo turno. Para não sair muito pior do que entrou na eleição paulista, o PT precisa manter ainda as prefeituras de Santo André, Diadema, Mauá e, principalmente, São Paulo.

Caso não tenha sucesso no maior estado do país, não será uma tragédia, porque o partido ganhou musculatura em outras regiões, o que pode compensar ao menos parte do prejuízo. O perigo para o PT é se eventuais derrotas nas disputas paulistas forem acompanhadas por uma onda de eventuais derrotas nas disputas dos estados do Sul. O partido perdeu a prefeitura de Blumenau (SC) para o PFL e não conseguiu eleger os deputados Carlito Merss em Joinville (SC) e Tarcísio Zimmermann em Novo Hamburgo (RS). No Rio Grande do Sul, o PT tenta superar o desgaste natural de 16 anos da administração de Porto Alegre e luta para manter também as prefeituras de Pelotas e Caxias do Sul. No Paraná, o partido levou as disputas nas maiores cidades para o segundo turno. Enfrenta o PSDB em Curitiba e Ponta Grossa e tenta manter os prefeitos de Londrina e Maringá.

Em Minas Gerais, apesar da reeleição folgada de Fernando Pimentel, em Belo Horizonte, o PT não conseguiu sair da eleição com força suficiente para intimidar o governador tucano, Aécio Neves. Por 630 votos, o partido não conseguiu manter a prefeitura de Governador Valadares, que foi para o PSDB. Perdeu também Ipatinga por pequena margem. Não conseguiu que seus candidatos próprios ou apoiados pelo partido em outras cidades importantes como Uberlândia, Juiz de Fora e Montes Claros fossem além da terceira força local. Os melhores resultados, além de BH, foram em Uberaba, onde o ex-ministro Anderson Adauto, do PL, se elegeu fácil com apoio do PT, e Contagem, onde a petista Marilia Campos enfrentará em desvantagem o prefeito tucano, Ademir Lucas.

No Rio de Janeiro, o partido teve o pior desempenho dos últimos 20 anos na disputa pela capital. Para manter uma estrutura partidária mínima no estado, o PT precisa manter a prefeitura de Niterói, com Godofredo Pinto, e conquistar a de Nova Iguaçu, com Lindberg Farias. Ambos enfrentam aliados do ex-governador Anthony Garotinho, que está tendo trabalho para manter sua força política, desgastada com a aliança tática entre PT, PSDB e PFL. 

As dificuldades no Rio de Janeiro estão sendo compensadas com os resultados positivos do Espírito Santo. Nesta eleição, o partido conseguiu se recuperar do esfacelamento ocorrido por causa do choque entre a militância e o ex-governador Vitor Buaiz. Os candidatos do PT em Vitória e Cariacica seguem para o segundo turno em vantagem sobre os candidatos tucanos. Em Vila Velha e Serra os candidatos do PDT apoiados pelo PT levaram a eleição no primeiro turno.

Tucanos continuam fortes
Com 16,5% dos votos válidos para prefeito, o PSDB caiu para a segunda posição entre os partidos mais votados, mas sustentou o patamar da eleição passada. Em 2000, o partido teve 16% dos votos. A pequena queda em relação à disputa anterior, na qual os tucanos tiveram 17,6% dos votos, já refletia um certo desgaste do governo Fernando Henrique Cardoso, principalmente nos grandes centros urbanos do país, mais sensíveis ao ajuste fiscal imposto a partir da crise cambial de janeiro de 1999.

O PSDB elegeu no primeiro turno 10 prefeitos das 96 maiores cidades do Brasil. Nenhuma delas é capital de estado, mas são localidades importantes para a geografia política. Hoje, o PSDB governa 19 dessas cidades. Em Minas, mantiveram Betim e tomaram Governador Valadares do PT. No Sul, reelegeram os prefeitos de Joinville (SC), Marcos Tebaldi, e Canoas (RS), Marcos Ronchetti. Em São Paulo, os tucanos elegeram os prefeitos de Franca (tomada do PT), Carapicuíba, Taubaté, Mogi das Cruzes e Jundiaí. Também levaram São José dos Campos, que tem caráter simbólico porque é a base política do governador Geraldo Alckimin. O PT jogou peso nessa disputa mas não conseguiu levá-la sequer para o segundo turno.

O governador tucano pode sair ainda mais fortalecido da disputa. Das 20 cidades onde o PSDB levou candidato ao segundo turno, nove são paulistas – São Paulo, Campinas, Piracicaba, Osasco, Santo André, Diadema, Ribeirão Preto, Sorocaba e Bauru. Uma boa vitória na maioria dessas cidades já credencia Alckimin como virtual candidato tucano à sucessão de Lula. O PSDB ainda pode conquistar prefeituras importantes no Sul, como Curitiba, Florianópolis e Ponta Grossa. Em Minas Gerais, o governador Aécio Neves ainda trabalha para eleger os prefeitos de Contagem e Juiz de Fora e, no Espírito Santo, os tucanos podem receber uma força do governador Paulo Hartung nas disputas de Vitória e Cariacica. O governador já foi tucano e tem a característica de mudar de partido conforme a conveniência do momento.

Ao contrário do PSDB, que se fortalece nas regiões Sul e Sudeste, o PT expande sua força para o Norte Nordeste e Centro Oeste. O partido levou no primeiro turno as capitais Rio Branco, Macapá e Palmas, além de Santarém, a terceira cidade do Pará. Apoiou a reeleição da prefeita de Boa Vista, Tereza Jucá (PPS), e está no segundo turno para tentar manter a prefeitura de Belém e tomar a de Porto Velho. Mesmo tendo três governadores na região, do Pará, de Rondônia e do Tocantins, o PSDB não teve candidatos fortes nas capitais e principais cidades do Norte. Terá que se apoaiar em aliados nas disputas do segundo turno.

No Centro Oeste, PT e PSDB se enfrentam no segundo truno em Cuiabá, cidade estratégica para a tentativa dos tucanos recuperarem a derrota da eleição passada, na qual o grupo do ex-governador Dante de Oliveira estava com a vitória para o governo do estado e o Senado nas mãos e deixou escapar, por causa das denúncias de envolvimento com pessoas ligadas ao crime organizado. O candidato do PT, Alexandre César, deve contar com o apoio do governador Blairo Maggi, do PPS, pois o PT apoiou o candidato dele que conquistou a prefeitura de Várzea Grande, a segunda cidade do Estado.

Em Goiás, o PT tenta manter a prefeitura de Goiânia e conquistar a de Anápolis, a segunda cidade do estado. O governador Tunaco Marconi Perillo confirmou sua liderança no interior, elegendo dezenas de prefeitos tucanos, mas teve um comportamento dúbio na capital, ora pendendo para o prefeito petista, Pedro Wilson, ora para o candidato que Sandes Junior, do PP, que ficou fora do segundo turno. Perillo tem um namoro com o PP, partido que está lhe oferecendo a candidatura à Presidência em 2006.

Em Campo Grande, o governador Zeca do PT terá problemas na sucessão. Apesar de ter mantido a prefeitura de Dourados e conquista a de Corumbá, perdeu feio em Campo Grande para o candidato do PMDB. O atual prefeito, André Puccinelli, do PMDB deve ser o adversário em 2006. O PSDB não tem liderança no estado.

A situação no Nordeste
No Nordeste, o PT confirmou suas prefeituras de Recife (PE), Aracaju (SE) e Vitória da Conquista (BA). Com isso, o partido consolida lideranças como João Paulo e Marcelo Déda, que já foi líder do PT na Câmara dos Deputados e aumentou sua projeção nacional com uma vitória por mais 70% dos votos válidos - a mais expressiva das capitais. Em Fortaleza o partido teve a maior surpresa da eleição. A direção nacional pressionou pelo apoio à candidatura de Inácio Arruda, do PCdoB, que liderava as pesquisas mas foi bombardeado pelos adversários por sua fidelidade ao governo Lula, que lhe obrigou a apoiar a reforma da Previdência e rejeitar um reajuste maior do que R$ 260 para o salário mínimo. O fogo mais cerrado foi justamente da candidata do PT, Luizianne Lins, que enfrentou o partido e superou Inácio e o candidato do PSDB, Antonio Cambraia, conseguindo uma vaga para o segundo turno.

Por vias tortas, o PT mostra que no Nordeste já não depende mais dos partidos de esquerda com militância histórica na região, como o PCdoB e o PSB. Em Caruaru (PE), por exemplo, faltaram apenas 800 votos para o petista João Lyra Neto impedir a reeleição de Tony Gel, uma das principais figuras do PFL pernambucano. Em algumas localidades, no entanto, o PT preferiu apoiar candidatos desse arco de alianças com mais chances de vencer, como em Olinda (PE), onde a prefeita Luciana do PCdoB foi reeleita no primeiro turno, Maceió (AL) e Natal (RN), onde o partido está na coligação encabeçada por candidatos do PSB que disputam o segundo turno.

Pelo lado do PSDB, a derrota de Cambraia em Fortaleza foi demonstração de fraqueza do senador tucano Tasso Jereissati, que agora deve se aliar ao candidato do PFL, Moroni Torgan. O governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, também foi derrotado na eleição da capital, João Pessoa, onde o candidato do PSB venceu o tucano no primeiro turno. Cunha Lima também tem problemas em Campina Grande, sua base política, onde o candidato do PSDB enfrentará um peemedebista no segundo turno. Mas em Natal e Teresina, capitais de estados que não são governados por tucanos, o PSDB disputará o segundo turno, podendo melhorar o desempenho do partido na região.

Cabe registro também do apoio do PSDB ao candidato do PDT à prefeitura de Salvador, João Henrique. Os tucanos cogitaram apoiar o petista Nelson Pellegrino, que vinha de votações expressivas nas últimas eleições em Salvador. O objetivo era juntar forças para derrotar a oligarquia do senador Antonio Carlos Magaçhães, do PFL. Mas a polarização nacional entre os dois partidos acabou dificultando a aliança. Mesmo em campos opostos, tucanos e petistas estiveram muito perto de impor a ACM a humilhação de não levar seu candidato, o ex-governador César Borges, para o segundo turno. Faltaram 3.200 votos para Pellegrino superá-lo. Um pouco mais de unidade da esquerda teria sido suficiente, já que a ex-prefeita Lidice da Mata (PSB) e o deputado petista não abriram mão da candidatura.

Em busca dos rincões
ACM ainda tem muita força na Bahia. Elegeu a grande maioria dos prefeitos do interior e reelegeu o prefeito José Ronaldo, de Feira de Santana, no primeiro turno. Mas o PT por um lado e o PSDB por outro já começam a minar o poder do cacique baiano, ampliando suas prefeituras no interior e colocando-se como força alternativa em várias localidades onde a disputa se dava sempre entre dois aliados de ACM que se estranhavam na disputa local. O PT conseguiu eleger cinco prefeitos no grupo das maiores cidades baianas - Vitória da Conquista, Camaçari, Alagoinhas, Ilhéus e Lauro de Freitas. Além de Feira de Santana, o PFL só venceu em Juazeiro e Itabuna. O PSDB elegeu o prefeito de Barreiras e o PSB o de Paulo Afonso. ACM ficou com os rincões, mas o carlismo já está trincado no interior da Bahia. 

Essa infiltração do PT nos rincões ainda não é expressiva mas já está acontecendo em quase todos os estados do país. O partido conseguiu dobrar o número de prefeituras dobrando o número de candidatos a prefeito. É uma grande façanha, mas o número de prefeituras petistas - em torno de 400 - ainda é menos da metade das conquistadas pelo PSDB - cerca de 860. Os tucanos estão mais capilarizados no interior. Têm mais prefeituras que o PFL (780) e o PP (550), mas ainda não alcançaram o PMDB (1.050). O detalhe, no entanto, é que todos esses partidos conservadores estão perdendo entre 10% e 30% de seus prefeitos e vereadores. Enquanto os partidos de esquerda que apóiam o governo Lula e o próprio PL - o partido do vice, José Alencar - avançaram sobre essas perdas. O PT aumentou o número de vereadores em cerca de 50%.

Os números mostram uma expansão pequena dos partidos de esquerda liderados pelo PT. A direção petista imaginava que poderia repetir a façanha dos tucanos na primeira eleição municipal no governo FHC. O PSDB praticamente triplicou o número de prefeituras - de 317 prefeitos eleitos em 1992 para 921, em 1996. Mas o PT está percebendo que não é fácil pavimentar o terreno aberto pelo presidente Lula. Um bom exemplo disso pode ser pinçado no município de Anhanguera, no interior de Goiás, o segundo menor domicílio eleitoral do país com 838 eleitores. Na eleição passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o mais votado da cidade, com 262 votos. Mas a votação dos candidatos do PT para outros cargos - governador, senador, deputado federal e deputados estadual - não passou de 20. Enquanto isso, candidatos a deputado federal do PFL e do PMDB - Ronaldo Caiado e Luiz Bittencourt - apoiados pelos vereadores locais tiveram de 150 a 300 votos.

É dessa maneira que os políticos dos rincões ajudam a aleger as bancadas do Congresso, que podem ser mais ou menos progressistas a cada eleição. No pleito deste ano, o PT lançou três candidatos a vereador em coligação com o PFL, o PSDB e o PL. Não elegeu nenhum. Até poderia ter conseguido, pois faltaram apenas 12 votos para o petista Fatim conquistar uma inédita vaga entre os nove vereadores do município (seis do PMDB, dois do PFL e um do PSDB). O problema é que o tanto que faltou representa metade dos votos que teve. Não seria tarefa fácil conquistá-los.

Construir um partido como o PT em um lugarejo tão pequeno é espinhoso. Mas o resultado, mesmo sendo inexpressivo em números absoluto aponta para o que está acontecendo e municípios um pouco maiores. Os três candidatos a vereador do PT, juntos, alcançaram 39 votos. É o dobro que que tiveram os candidatos petistas para cargos estaduais e federais. Isso significa que na próxima eleição poderá haver mais gente trabalhando pelas candidaturas petistas nos pequenos municípios. O aumento da votação no partido leva a um movimento de alavancas que provoca um crescimento progressivo. Mas esse é um processo longo, que vai depender dos rumos do país, pois pode ser abortado no médio prazo, como sugere o resultado geral do primeiro turno da disputa municipal.

As eleições de 2006 ainda estão longe para se fazer prognósticos, mas o resultado das urnas municipais indica que a campanha pela reeleição de Lula não será um passeio sobre as ondas da recuperação econômica como se imaginava. O eleitor parece estar dizendo ao partido do governo que, se é para continuar a política anterior, talvez seja melhor trazer de volta ao poder o grupo que a colocou em prática primeiro.

Veja especial:
> Eleições 2004

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