Política

Reunião de Tarso com bancada indica descolamento político

10/08/2005 00:00

Brasília - Em uma reunião que deixou a nítida impressão de que o processo de descolamento político entre os diversos grupos que compõem o PT começa a se acelerar, o presidente do partido, Tarso Genro, pediu à bancada petista na Câmara ajuda na tentativa de construir uma nova maioria no partido. Mesmo com o consenso obtido em torno do nome do deputado Fernando Ferro (PE) como líder interino da bancada, o diálogo acabou não acontecendo como previsto. Alguns deputados do Campo Majoritário que tiveram seus nomes ligados ao esquema de Marcos Valério optaram pelo silêncio durante a reunião, caminho também seguido pelo bloco de esquerda do partido. Os membros do bloco marcaram presença, mas evitaram tomar a palavra, preferindo aguardar a reunião em separado que terão com Tarso na quinta-feira (11). O ex-ministro José Dirceu apareceu, como prometido, mas falou por apenas quatro minutos.

Tarso abriu a reunião dizendo que o partido precisa se recompor com urgência para encontrar saídas para a crise. O presidente do PT, segundo o relato de alguns deputados, ressaltou a necessidade de se criar no partido um novo grupo hegemônico capaz de substituir o atual Campo Majoritário, abalado pela crise. Esse novo grupo hegemônico seria composto por membros do Campo não envolvidos diretamente pela crise, pelas tendências de centro e por alguns setores da esquerda: “Temos condições de criar um campo dirigente que englobe 70% das forças do partido”, disse.

 

Depois de ouvir várias intervenções - feitas pela senadora Serys Shlessarenko (MT) e pelos deputados Dr. Rosinha (PR) e Durval Orlato (SP), entre outros - pedindo transparência aos petistas que eventualmente tenham se envolvido com o esquema de Valério, o presidente do PT afirmou que “todas as respostas que o partido deve dar à sociedade, devem ser dadas rapidamente”. Outra queixa ouvida na reunião - a falta de diálogo entre o partido e o governo - foi respondida por Tarso com a promessa de marcar em breve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniões com a Executiva Nacional do PT e com as bancadas do partido no Congresso: “Já tentamos nos reunir com Lula dez vezes, sem sucesso. Esse seu pedido será a décima primeira tentativa”, reclamou o deputado Ivan Valente (SP), integrante do bloco de esquerda.

 

Tarso garantiu aos parlamentares do PT que o PED (Processo de Eleições Diretas do partido) será mesmo realizado em setembro e pediu que cada um colaborasse para isso em seus estados. Ele desmentiu os rumores surgidos na imprensa de que estaria pensando em desistir de ser candidato à presidência do PT pelo Campo Majoritário: “Continuo candidato porque acredito nesse trabalho de reconstrução do PT”, disse. Tarso recebeu na reunião com a bancada o apoio público de José Dirceu, que rechaçou as desavenças surgidas entre eles após a reunião do Diretório Nacional do último domingo e reafirmou que vai votar no gaúcho para presidente do partido.


Ampliar alianças para o PED

A estratégia que Tarso evidenciou durante a reunião, no entanto, demonstrava menos preocupação em consolidar apoios dentro do Campo Majoritário e mais em ampliar a aliança em torno de sua candidatura ao centro e à esquerda do partido. A tarefa, ao menos no que concerne à esquerda do PT, não será nada fácil. Na reunião que fará com integrantes do bloco de esquerda e da dissidência parlamentar PT Livre, Tarso ouvirá que sua candidatura só conquistará apoios naquele setor se adotar postura mais crítica ao governo e ao atual grupo dirigente do PT: “Deram ao Tarso uma margem operacional somente na questão da ética, e é por aí que ele quer trabalhar a reconstrução do partido. Se ele quiser sinalizar alguma coisa para a esquerda, no entanto, terá que ir além da discussão ética e formular propostas contra a política econômica e a política de alianças do governo”, disse Ivan Valente.

 

Entre as tendências de centro, a proposta de unidade feita por Tarso teve uma acolhida maior. Segundo alguns parlamentares que participaram da reunião, o novo apoio que o candidato do Campo Majoritário quer pode vir das forças que atualmente situam-se em torno da candidatura da deputada Maria do Rosário (RS). A deputada pertence à tendência Movimento PT, a mesma de Tarso originalmente, e um acordo não é impossível: “Não será surpresa se a Maria do Rosário entregar os pontos na última hora para fortalecer a candidatura do Tarso. Não seria a primeira vez que ela adotaria uma postura assim”, comentou um deputado do bloco de esquerda.

 

Maria do Rosário afirma que “continua candidata”, mas não nega completamente a possibilidade de acordo com Tarso: “O que o PT precisa agora não é de uma nova maioria, mas sim de mais democracia entre as forças que compõem o partido. O Campo Majoritário precisa fazer sua autocrítica e criar espaços de diálogo e avaliação política no partido”, disse. A deputada busca se diferenciar tanto da esquerda quanto da direção do PT: “O grupo moderado que dirigia o PT contaminou o partido com isso tudo enquanto o bloco de esquerda quer legitimar fração pública logo numa hora dessas. O PT é mais que essa turma que estava na direção e mais que essa esquerda”, disse.


Campo Majoritário pouco fala

A postura dos parlamentares representantes do Campo Majoritário durante a reunião com Tarso Genro variou da intervenção discreta ao absoluto silêncio. Deputados que aparecem na lista de sacadores das contas de Marcos Valério - como João Paulo Cunha (SP), Professor Luizinho (SP) e Paulo Rocha (PA) - entraram mudos e saíram calados do plenário que leva o nome de Florestan Fernandes. Figura mais aguardada do encontro, José Dirceu concentrou sua fala na explicação de que “não está interferindo nem quer interferir” nos próximos passos seja do partido ou mesmo do Campo Majoritário.

 

Dirceu afirmou que vai lutar por sua defesa “no Congresso e na Justiça”, mas, para frustração de vários parlamentares, disse que não pretende prestar esclarecimentos formais ao partido: “Já falei no Conselho de Ética e ainda vou falar em duas CPIs”, teria se justificado o ex-ministro, segundo relatos. A recusa desagradou ao bloco de esquerda: “A instância onde ele deveria estar mais interessado em dar satisfações seria o Diretório Nacional do PT e, conseqüentemente, a militância do partido”, disse Ivan Valente.

 

Na saída da reunião, o deputado e secretário-geral do PT, Ricardo Berzoini (SP), avaliou o encontro como “positivo” e mostrou que, no atual momento, acabar com as divisões do partido não é prioridade para o Campo Majoritário, mais preocupado em seguir o único caminho possível de salvação, que é debitar toda a crise na conta do crime eleitoral e diluir a culpa pelas práticas ilícitas entre outros governos e partidos: “Discutimos a crise de fundo da legislação eleitoral que afeta todo o sistema eleitoral brasileiro e não apenas um partido”, disse Berzoini, dando um resumo todo seu à reunião.


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