Política

Sem noção de nada e sem medo do ridículo

Quando um governo ilegítimo e fraco - e nada pode ser mais fraco e inerte que o governo de um presidente meramente decorativo - decide adotar medidas de força, deixam de existir limites para o avanço da crise

26/05/2018 13:42

 

 
Por Eric Nepomuceno
 
Em quatro dias de tensão máxima, entre terça e sexta-feira (de 22 a 25/5), Michel Temer conseguiu algo insólito: deixou de ser um presidente ilegítimo para assumir definitivamente o rol de presidente decorativo. Ou, como disse alguém, um ex-presidente em exercício.

Até os seus capangas no Congresso o atropelaram de forma impressionante. Supostos aliados o criticaram sem cerimônia ou respeito. Num primeiro momento, assumiram o mando numa espécie de parlamentarismo de última hora, e tentaram diminuir para sempre sua figura, adotando medidas de uma torpeza ímpar para solucionar a crise surgida a partir da greve dos caminhoneiros.

Outra façanha de Temer, que fez que seu isolamento alcançar níveis olímpicos, foi aplicar com talento único sua absurda capacidade de ridículo. Na última quinta-feira (24/5), enquanto a situação chegava à beira do abismo, o presidente estava no interior do Rio de Janeiro, numa cerimônia de expressão nula, para prestigiar a entrega de automóveis aos conselhos tutelares de menores. Sem pestanejar, afirmou a uma plateia atônita que aquele era “o acontecimento mais relevante” da jornada.

Naquela altura, em Brasília, ocorriam coisas que, para sua limitadíssima visão da realidade, eram menos importantes. Por exemplo, uma reunião de vários de seus ministros com os principais dirigentes dos sindicatos patronais de transportes, que atuavam pelas costas dos motoristas autônomos e que representam somente um terço do total de caminhoneiros existentes no país. Tentaram (e conseguiram) fechar um acordo, que, no fim das contas, não foi suficiente para acabar com a paralisação das estradas.

Enquanto isso, o aeroporto da capital brasileira informava que só permitiria o pouso de aeronaves com combustível suficiente para partir sem precisar se abastecer no local. Em todo o país se registravam imagens de um caos que se tornava cada vez maior. No Rio, a circulação de ônibus caiu pela metade. Em Recife, capital de Pernambuco, formaram-se filas enormes nos postos, que se estendiam por até dez quadras. Há bloqueios nas estradas de 25 estados, num total de mais de 550 cortes realizados por caminhoneiros autônomos. Nas gôndolas e prateleiras dos supermercados faltam verduras, legumes, carne e leite, e quando há, os preços chegam a ser até cinco vezes mais caros que na semana passada.

Contudo, para Michel Temer nada disso é mais importante que a solenidade de entrega de uns 600 automóveis, que na verdade eram a metade do que o seu desgoverno havia prometido aos transportadores.

A decisão de convocar as Forças de Segurança – leia-se, basicamente, o Exército – para desmobilizar os caminhoneiros parados em todo o país tampouco foi decisão sua: partiu do general Sergio Etchegoyen, um duro entre os mais duros, que comanda o Gabinete de Segurança Institucional, órgão que Dilma Rousseff havia extinto e que Temer ressuscitou.

Outro general, Joaquim Luna – o primeiro militar a se sentar na cadeira de ministro da Defesa desde que a carteira foi criada por Fernando Henrique Cardoso, há 20 anos –, assegurou que as Forças de Segurança atuariam “com energia”.

Sempre caminhando no rumo de expandir a crise ao máximo, Temer assinou, na tarde de sexta (25/5), um texto que foi entregue aos uniformados: o Decreto de Garantia da Lei e da Ordem, que tem duas funções: a primeira é liberar o Exército para impedir “atos que atentem contra a ordem pública”. Que tipo de ato? Ninguém sabe, exceto os casos óbvios de atirar pedras a soldados. A segunda é assegurar, com um dispositivo legal, que tudo o que se fizer para cumprir a missão até o dia 4 de junho (quando expira a validez do decreto). Por “tudo o que se fizer” entende-se: tudo o que a tropa fizer contra a população.

Quando um governo ilegítimo e fraco – e nada pode ser mais fraco e inerte que o governo de um presidente meramente decorativo – decide adotar medidas de força, deixam de existir limites para o avanço da crise.

A capacidade extraordinária de Michel Temer e seus bucaneiros de impulsar, e em velocidade recorde, o desmonte das políticas dos últimos 30 anos – inclusive anteriores ao governo de Lula da Silva, embora consolidadas ampla e infinitamente por ele – foi o que provocou o caos que estamos vivendo.

Entregar um patrimônio nacional como os campos dos Pré-Sal, outrora nas mãos da estatal Petrobras, diretamente às empresas estrangeiras, teve consequências alucinantes.

Ao longo dos oito anos de Lula da Silva, o preço dos combustíveis teve oito aumentos. Nos dois anos de Temer, já são 229. Isso mesmo: 229.

Por que Lula, e logo Dilma, trabalharam para conter esse preço? Para não pressionar a inflação, e para incentivar o crescimento da atividade econômica. Para que Temer e quadrilha permitiram uma série absurda de aumentos dos preços? Para atender aos interesses dos seus patrões nacionais e globais.

Ainda na noite de sexta-feira (25/5), o pegajoso ministro da Segurança Pública – um ex-militante de esquerda, que, como costuma ocorrer com esse tipo de sujeito, não só se debandou para a direita como inclusive para aquela mais agressiva e reacionária – dizia solenemente que quase metade dos cortes de estrada já haviam desaparecido.

Entretanto, não desapareceu o risco de que os generais se encantem com a possibilidade de seguir com a série de intervenções.

Tampouco desapareceu a imagem concreta de um país desgovernado, e que acelera velozmente na direção do abismo.



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