Política

Sem programa no papel, Serra descumpre manual do PSDB

28/09/2004 00:00

São Paulo – O candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PSDB, José Serra, não cumpriu as próprias recomendações da cartilha das eleições municipais elaborada pelo Instituto Teotônio Vilela (ITV), entidade ligada ao seu partido. Lançada em junho deste ano, a revista Boca de Urna, organizada por Xico Graziano – ex-presidente do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na gestão Fernando Henrique Cardoso e ex-secretário da Agricultura de São Paulo no governo Mário Covas – faz a seguinte observação para os postulantes tucanos a cargos eletivos: “O programa de governo tem que estar pronto antes da política esquentar”.

 

“Como as convenções serão realizadas em junho, é conveniente que até o meio do ano o programa esteja pronto”, aconselha o periódico tucano. Faltando cinco dias para o primeiro turno das eleições municipais, o principal candidato do PSDB ainda não divulgou o seu programa de governo para a administração da cidade. “Quando se iniciar a campanha pra valer, o candidato já terá o programa pronto para distribuir nos vários encontros de associações profissionais, cooperativas de trabalho, clubes de serviços, como Rotary e Lions, sindicatos de trabalhadores e de empresários etc.”, complementa o guia de cem páginas elaborado especialmente para as eleições municipais de 2004.

 

A Boca de Urna é descrita da seguinte maneira no site do ITV: “leitura obrigatória para quem está em campanha rumo à vitória em outubro. É uma forma de mostrar que o PSDB irá jogar limpo com o eleitor. Afinal, o maior patrimônio tucano continua sendo a sinceridade e a honestidade”.

 

O jornal Folha de S. Paulo traz na sua edição desta terça-feira (28) a resposta de Serra ao questionamento sobre a apresentação do programa. Diz o diário: “Questionado se apresentaria o seu programa de governo – ‘no concreto, no papel’ – até o dia da eleição, Serra sugeriu que consultassem as entrevistas concedidas por ele ao longo da campanha e argumentou: ‘Qual é a diferença entre assinado e dito por mim e gravado? Nenhuma. Vamos apresentar’, afirmou”. Ele disse ainda ao jornal que “acha ‘curiosa essa fixação’ por planos de governo" e contestou a alegação de que sua principal adversária, a petista Marta Suplicy (que concorre à reeleição), tem um programa pronto. “Sabe qual o déficit hoje?”, ironizou Serra à Folha, ressaltando que nem os números da Prefeitura de São Paulo estão disponíveis ao público.

 

Nas páginas reservadas à questão do programa de governo, a Boca de Urna enfatiza os dois papéis fundamentais do documento: 1) O eleitorado espera que cada partido político e cada candidato apresentem planos e metas que informem, objetivamente, o que pretendem fazer para melhorar a qualidade de vida da população; 2) Partidos e candidatos têm no programa o instrumento para definir uma proposta política. É uma agenda de debate público, que vai pautar as reflexões dos militantes e do eleitorado em geral, as conversas em seu círculo de convívio, particularmente na família, e a discussão pública.

 

O próprio José Serra assina a apresentação – intitulada “A eleição da virada” - da Boca de Urna. “Nossos adversários – o PT, principalmente – usaram e abusaram da desinformação para ganhar as eleições de 2002. Propalaram críticas ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso muito além do razoável. Prometeram mundos e fundos mesmo sabendo que não iam cumprir, como não estão cumprindo. Uma vez no governo, deixaram de lado seu programa histórico, não o substituíram por nenhum outro. Recorreram, isto sim, a uma agenda antiga superada, a uma política finananceira estagnacionista, ao aparelhamento do Estado, ao abrigo à inépcia, ao acobertamento de fatos escandalosos. Se a arma do PT foi a desinformação, nós vamos começar a virada nestas eleições municipais jogando o jogo da verdade com o eleitor”, promete Serra. “Além dos temas nacionais, damos ênfase à elaboração de programas de governo, com sugestões de roteiro e método apropriado”. Na prática, porém, o próprio candidato tucano não concluiu o roteiro sugerido.

 

Atrasado e pela metade

“Até o final de maio terá que ser feito o trabalho de mobilização da comunidade, de reuniões e de coleta de reivindicações e expectativas”, sugere o guia tucano para as eleições municipais. Serra realizou reuniões com as comunidades das respectivas regiões – Norte 1, Norte 2, Oeste, Centro, Leste 1 e 2, Leste 3, Sudeste e Sul – apenas em agosto.

 

O programa de governo, de acordo com a Boca de Urna pode ser apresentado em dois formatos: uma versão mais longa, sob a forma de livreto, revista ou cartilha; e outra mais concisa e objetiva, sob a forma de folder ou panfleto.

 

Em vez do programa de governo, o site do candidato tucano (http://www.serra45.org.br/) traz apenas um extenso painel de declarações (“Palavra de Serra”) soltas de Serra ao longo da campanha e apenas uma página especial de apresentação do programa “Mãe Paulistana”. 

 

Dois exemplos dos trechos escolhidos para a seção “Palavra de Serra”: “Nós vamos ganhar essa eleição porque nós queremos, porque nós merecemos, porque vamos mobilizar nossa mente e nossa alma numa campanha solidária, alegre, bairro por bairro, rua por rua, na cidade de São Paulo. Nós vamos ganhar, acima de tudo, porque nós amamos essa cidade. Essa cidade tem jeito e nós vamos dar um jeito em São Paulo”, na convenção municipal do PSDB, em 26 de junho. “Aqui a gente vê uma extrema falta de bom atendimento na saúde. Diminuindo custos e cortando desperdícios podemos atender mais pessoas. Há muitas ações, grandes e pequenas, e todas elas podem ser tocadas para frente se a gente economizar, trabalhar com competência e com amor pela cidade e pelas pessoas”, do mesmo Serra, em Cidade Ademar, dia 3 de agosto.

 

Garantia só pelos nomes
Na parte dos “Grupos Temáticos”, a campanha de Serra tem como referência apenas nomes, sem nenhum texto de referência de intenções. Fazem parte da lista o próprio Xico Graziano (Abastecimento e Alimentação), Marcos Mendonça (Cultura) – presidente da TV Cultura, André Montoro (Desenvolvimento Econômico) – ex-secretário de Planejamento do Estado de São Paulo nos governos Covas e Alckmin, Maria Helena Castro (Desenvolvimento Social) – ex-secretária-executiva do Ministério da Educação no governo Fernando Henrique Cardoso, e os ex-ministros do governo FHC, Walter Barelli (Trabalho e Renda) e Caio Carvalho (Turismo).

Veja especial:
> Eleições 2004


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